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A razão burra da educação no Brasil

por Paulo Ferrareze Filho

Quando notícia ruim sai no Fantástico é sempre o diagnóstico de uma metástase. Os jornais dividem as notícias em dois grupos: diagnósticos ou receitas de felicidade. Os diagnósticos nos fazem perder a fé na humanidade. As receitas de felicidade tentam apaziguar nossos infernos. 

A reportagem sobre os cortes da educação no último Fantástico mostrava uma menina pobre, do fundão do nordeste, que está na iminência de perder uma bolsa de R$ 100 que ganhou porque se destacou nas olimpíadas de matemática. 

Eu não sei se o que eles chamam de contingenciamento, na economia, pode ser comparado ao conceito filosófico de contingência. Na filosofia, contingência, segundo Rorty, é aquilo que poderia ser de outro jeito. Algo como: podemos aplicar esta verba não aqui mas ali. Se o contingenciamento econômico é parecido com esse da filosofia, chamar de contingenciamento o que estão fazendo com a verba da educação é apenas um eufemismo, que é uma figura de linguagem usada para amenizar tragédias.

Com o corte dessa semana, o número de bolsas suspensas atinge quase 12 mil estudantes. Bolsas de mestrado, doutorado, professores e pesquisadores fodidos de norte a sul do Brasil.  

Saber se há mais burrice ou má-fé nesse tipo de medida é um desafio científico para os psicólogos sociais. Há duas burrices patentes: o desperdício do presente e o atraso do futuro, aquele longo passado pela frente de que falava Millôr Fernandes. 

Cortar pesquisas em andamento é como desistir da faculdade no final do 8o semestre. Se a desatenção foi tanta e você chegou até ali, melhor pegar o canudo e tentar fazer com que ele seja um diferencial na selva da competição por trabalho e oportunidade. O desperdício do presente é fazer com que pesquisas que acontecem há anos escorram pelo ralo. 

E o futuro, atrasa em acontecer, porque, como até o google sabe, qualidade de vida e desenvolvimento estão diretamente relacionados com a educação. Preterir a educação é não apenas amputar as pernas intelectuais do país, como disse o neurocientista Miguel Nicolelis, mas impedir que esse cotoco intelectual disponha de uma cadeira de rodas decente pra andar.

Para quem nunca estudou seriamente, talvez seja difícil perceber o resultado transformador que a educação é capaz de produzir subjetivamente nas pessoas. Não se trata de negar o valor da experiência, já que todo ignorante justifica sua preguiça ou falta de oportunidade colocando o diploma da universidade da vida acima dos outros. Em suma, para quem nunca estudou de verdade, é normal, ainda que ingênuo, pensar que pesquisas não servem pra nada. 

Não importa se o pesquisador está querendo descobrir a cura da chicungunha, testar novos modos de reuso da água ou verificar indicadores sociais capazes de amenizar a violência urbana. Em todos os quase 12 mil casos, estudar e pesquisar só revela uma coisa: que trata-se de um vagabundo-comunista que, como tal, deve mesmo é ir para o inferno, afinal, esse governo, ungido pelo mergulho evangélico salvador, é de Deus.

A lição n. 1 de todo governo burro e autoritário é foder a educação. Ainda que tenhamos precedentes históricos aos baldes, nosso passado continua vivíssimo. Assim, estimo que:

· Apenas 1/3 da população brasileira perceba isso com clareza.

· Que o outro 1/3 fique numa zona de penumbra. Apesar de ovacionar a educação no plano teórico, são consumidos pela dúvida neurótica para saber se, na prática, não é melhor ferrar a educação em nome do fim da corrupção.

· Que o último 1/3 da população está morta mas ninguém ainda os avisou. Por isso ficam zumbizando ecos pela rede nas suas bolhas de ignorância. 

No último Caos Filosófico, evento educacional independente que acontece em Bal. Camboriú/SC, arrecadamos livros para os detentos do presídio de Florianópolis. Um dos livros doados acabou esquecido numa mesa do bar e achei que, de algum jeito cósmico, ele deveria ir pra minha casa, já que a caravana para o presídio já tinha partido. 

Era um livro com as melhores frases de Rubem Alves. Logo depois de ver a reportagem do Fantástico, abri o tal livro e fui assaltado pela frase: “A maior pobreza da educação não se encontra na escassez dos recursos econômicos, mas na pobreza da imaginação.”

Na ditadura, que foi aquela merda que a gente sabe, se produziram as melhores músicas do cancioneiro popular brasileiro. Talvez o baixo grau de liberdade e o elevado grau de medo tenham sido capazes de tornar mais criativos os artistas da época. Imagino a criatividade nas ditaduras se rebelando, esperneando e criando aquilo tudo. Finas lindezas imortais que a gente escuta até hoje. Fazendo até as metáforas gaguejarem com coisas como “ela pega e me pisca, petisca, belisca, me arrisca e me enrosca.” A ditadura produziu artes imortais em meio a filhadaputice dos militares. Fico pensando que quando Chico, Caetano e Gil morrerem, vamos precisar de uma nova ditadura para voltar a ter música boa no Brasil. O neosertanejo ai está para comprovar minha tese, com suas poesias que rimam “boca” com “louca” e dancinhas que viram moda em um dia e desviram em três meses. 

Agora estamos em outra espécie de ditadura. Mais refinada, mais psicológica, mais econômica. Se antes o corpo torturado adoecia a alma, nas ditaduras de agora é a alma que adoece primeiro e leva, depois, o corpo. Ou para o divã ou para a vala, dependendo da conta corrente do vivente.

Na medida em que se apropria do discurso por meio das bolhas sociais das redes, as novas ditaduras não precisam mais captar corpos, já que cooptam as mentes. É por meio da propaganda embutida no discurso que se fabricam sectários como os pobres de direita. O pobre de direita é um protótipo desse tipo de zumbi que foi seduzido pelo canto afável da sereia contra a corrupção, ainda que para isso seja necessário fazer do país um reduto de cientistas analfabetos. 

Lilia Schwarcz chama de “democradura” esse estado em que governos democraticamente eleitos se tornam autoritários, sectários e produtores de sofrimento. 

O autoritarismo se materializa quando esses governos controlam o destino e as prioridades do Estado. A ditadura da falta de dinheiro para aquilo que é desimportante sob o ponto de vista privado de quem governa, faz com que 210 milhões de pessoas estejam à mercê do julgamento de uma só.

O único alento é que os percentuais de arrependidos aumentam. O Brasil nunca precisou tanto de arrependimento quanto hoje. Vejam nossa situação: os bolsominions arrependidos tem o poder de salvar o país.

Concluo que a frase do Rubem Alves é tremendamente infeliz. Será que ele chegou a cogitar o que uma imaginação rica é capaz de fazer com dinheiro no bolso?

PAULO FERRAREZE FILHO é professor universitário, doutor em filosofia do direito (UFSC) e psicanalista em formação

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