por Roger Flores Ceccon

Cláudio Ulpiano (1932–1999) foi um brilhante filósofo e professor brasileiro. Redefiniu o estatuto do pensamento filosófico e sua contribuição emerge como um gesto de resistência ontológica em um tempo em que a produção intelectual se submete à produtividade e à circulação acelerada do conhecimento. Ulpiano interpretou e desconstruiu sistemas filosóficos, fazendo da filosofia uma prática viva, uma experiência coletiva de criação, acontecimento e produção de mundo.
À margem da institucionalidade universitária, construiu uma trajetória marcada por cursos livres e encontros informais em espaços públicos, centros culturais, na sua própria residência ou na casa de seus alunos, atraindo um quantitativo expressivo de artistas, cientistas, psicanalistas, jovens estudantes e acadêmicos experientes. Um público fiel e assíduo. Sua sala de aula não era um lugar de transmissão de conhecimento, mas um dispositivo de produção do pensamento. Ali, o saber não preexistia ao encontro, mas emergia dele. Essa posição o inscreve na linhagem de Gilles Deleuze, de quem era conhecedor e pioneiro na divulgação de sua obra no país, para quem pensar não é reconhecer ou reproduzir, mas inventar e criar conceitos que respondam a problemas reais. Pensar, portanto, não como contemplação, mas como intervenção.
Ulpiano recusa frontalmente a filosofia como sistema fechado, totalizante e transcendente. Em seu lugar, afirma uma filosofia intensiva, que opera no plano da imanência e se define pela capacidade de afetar e ser afetada. Seus cursos sobre Baruch Spinoza, Friedrich Nietzsche e Henri Bergson1 buscavam ativação conceitual. O que estava em jogo não era interpretar corretamente um autor, mas fazer seus conceitos funcionarem, colocá-los em circulação como ferramentas capazes de intervir na vida. Trata-se de uma filosofia operatória, não representacional. Um modo de produzir o pensamento que, na expressão de Mário Bruno, ex-aluno de Cláudio, se dava com a concatenação entre clareza, simplicidade e profundidade2.
Essa posição ganha destaque quando situada no contexto brasileiro do século vinte e um. Em uma sociedade atravessada por desigualdades estruturais e por dispositivos difusos de controle, como analisado por Michel Foucault, o pensamento de Ulpiano desloca o eixo da crítica da norma para a diferença, da identidade para o devir, da adaptação para a criação. Trata-se de produzir modos de existência que escapem às capturas do poder.
Mais do que um comentador de tradições europeias, Ulpiano opera uma verdadeira antropofagia filosófica. Ele devora conceitos para devolvê-los transformados, situados, atravessados pela experiência brasileira. Nesse movimento, aproxima-se de uma prática descolonial do pensamento, ainda que não se inscreva diretamente em seus cânones. Sua prática rompe com a dependência epistemológica ao recusar a repetição e afirmar a criação como gesto político.
A centralidade da imanência em sua filosofia, profundamente marcada por Spinoza, implica a recusa de qualquer transcendência salvacionista. Não há um além que organize o sentido da vida, mas apenas o plano das relações, dos encontros, das forças. Pensar, nesse horizonte, é aumentar a potência de existir, ampliar a capacidade de afetar e ser afetado. Deixa de ser um exercício abstrato e torna-se um modo de vida.
As implicações políticas dessa posição são radicais. Em vez de uma política fundada na representação, na identidade ou na captura institucional, Ulpiano aponta para uma micropolítica dos afetos. A transformação não se inicia no Estado, mas nos modos de viver, nos corpos, nas relações cotidianas. Trata-se de uma política que opera no nível molecular, onde se produzem subjetividades e onde o poder, de fato, circula.
Sua prática pedagógica acompanha esse deslocamento. Ao romper com a verticalidade do ensino, Ulpiano instaura uma pedagogia do encontro, na qual o conhecimento não é transmitido, mas produzido coletivamente. Antecipando debates contemporâneos sobre educação e autonomia, sua proposta dissolve a figura do mestre como detentor do saber e a substitui por um campo comum de experimentação. Tatiana Roque aponta que Cláudio nunca abriu mão do rigor como componente fundamental do pensamento, encantando todos pela profundidade e eroticidade de sua filosofia. A partir de Ulpiano, um certo gosto pela filosofia tomou corpo no Brasil3. O que fascinava era a capacidade de Ulpiano de encampar ideias, de lhes dar um sentido fluente, além da própria cadência didática da apresentação. A vivacidade que tornava evidente o prazer em discorrer sobre aquilo que ele discorria e a facilidade com que articulava ideias extremamente difíceis4.
No Brasil contemporâneo, atravessado por múltiplas crises, recuperar a potência do pensamento de Ulpiano é recolocar a filosofia no campo da vida. Pensar, aqui, não é explicar o mundo, mas intervir nele. Não é resistir de forma reativa, mas afirmar novas possibilidades de existência. Trata-se de uma resistência afirmativa, criadora, que inventa modos de cuidado, de relação e de habitar o mundo.
Em um cenário de saturação discursiva e esvaziamento de sentido, Ulpiano nos lembra que a filosofia não precisa justificar sua utilidade. Sua força reside precisamente em sua inutilidade produtiva, na capacidade de abrir brechas, fissuras, deslocar evidências e produzir vida onde antes havia apenas repetição.
Por fim, Cláudio Ulpiano nos lega com mais urgência a recusa de um pensamento domesticado. Pensar, com ele, não é repetir o mundo nem interpretá-lo à distância, mas intervir em suas dobras, abrir fissuras, produzir variações onde parecia haver apenas repetição. É nesse gesto, discreto e radical, que o pensamento se torna prática que desvia, que cria, que afirma. Não uma liberdade prometida, mas exercida, não um conceito abstrato, mas um movimento concreto que atravessa corpos, encontros e modos de vida. Pensar, assim, é já começar a ser livre.
ROGER FLORES CECCON é professor da Universidade Federal de Santa Catarina
Referências
- Ulpiano, C. Aulas completas. Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/playlist?list=PLMKLNcuJSFq7NhUWyPLW67KUrhKicFXrV
- Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=T2qIC_xxcT8. Acesso em: 10 de abril de 2026.
- Roque, T. O problema dos três corpos. In: BRUNO et. al. (Orgs.) Pensar de outra maneira: a partir de Cláudio Ulpiano.Rio de Janeiro: Pazulin, 2007, p. 27-32.
- Marques, B. R. R. Claudio Ulpiano: a docência como obra. Revista Teiasv. 25 n. 76, jan./mar 2024
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