ARTIGOS

Contra a corrupção, vote Flávio Rachadinha

por Paulo Ferrareze Filho

Para ver se nos livramos do pior, agora temos que argumentar com o pessoal que vai abraçar o Flávio. Debater com quem acha ele uma alternativa é como brigar com uma planta e ter a chance de apanhar. Se a antipatia eterna com Lula era pela corrupção, agora meio país vai se atirar nesse esgoto a céu aberto. Seria mais justo que, nesse rebranding, ele trocasse o sobrenome queimado do pai por “Rachadinha”. Aí, pelo menos, competiríamos com o slogan certo: “Contra a corrupção, vote Flávio Rachadinha”. Tirar o sobrenome do pai criminoso do slogan pra parecer um canalha ameno é como colocar um rótulo de leite num pote de arsênio.

Aí vem o Rachadinha, subindo nas pesquisas tipo trepadeira com sol forte. Irrigado por amnésia seletiva e um renitente “mas e o Lula?”. Aí vem o Rachadinha, pau a pau com Lula nas pesquisas e uma estranha tolerância com comprar 50, 70, 100 imóveis com dinheiro vivo… Quem nunca, afinal? Você almoça num sábado qualquer e, lá pelas 3 da tarde, enche cinco mochilas com notas de 100 e vai ali comprar uma casa de 6 milhões.

Metade de um país que não entendeu a diferença entre ser de direita e ser fascista. Como se fascismo fosse só coisa tipo Hitler-câmara-de-gás-matar-judeus-brancos. No baita A ameaça interna (UBU, 2026), Vladimir Safatle sublinha que as atuais expressões do fascismo dispensam elementos clássicos, já que nossas democracias liberais são, no fundo, fascismos restritos. Então, uma das novidades do nosso fascismo pós-moderno é que “a proteção de catástrofes não é mais o eixo de justificação do Estado”. Só se consegue isso porque o tufão de fascismo que nos atravessa apresenta “uma forma específica de violência e dessensibilização social”, como resposta a um clamor por liberdade que se converte, na prática, em seu contrário, já que nossa concepção de liberdade é segregadora, tenebrosa, violenta e insensível a desigualdades que são brutais.

Seja com argumento acadêmico, seja com planilha excel (os indicadores de Lula estão aí pra quem ainda tenha olhos…), há meio país que não dará o braço a torcer nem que Jesus desça dos céus antes de outubro, chame todo mundo no Circo Voador, e diga que os Bolsonaros são os filhos oficiais do capeta.

Meio país que ainda votará nessa família absurda e obtusa. Feita de calhordas e vagabundos em série. Meio país de patriotas que estendem uma bandeira dos Estados Unidos na Paulista. Que preferem, como também diz Safatle, não um presidente, mas um administrador de colônia.

Meio país abestalhado com essas teologias dogmáticas e rasteiras espalhadas tipo inço. A manter uma paranoia coletiva em nome de um ideal de vida comum: o antipetismo.

Meio país de mãos dadas com um deputado-influencer que caminhou mil dias no asfalto pra gerar conteúdo na rede social.

Meio país que aposta em Romeu Zema antes de Lula. Em Zema, meu Deus, que é o novo Tiririca. O cara que foi chamado pra falar no podcast “Inteligência Ltda.” (que gente astuta…). Chamado lá pra dizer, sempre limitadamente, que vai privatizar tudo e permitir que crianças trabalhem. Isso porque ele é do Novo. Ou seja, ele aposta nessa coisa nova que é fazer crianças – as pobres – trabalharem.

Meio país escolhendo a brutalização dos laços sociais, a precarização dos escravos do neoliberalismo e o ataque à ciência. Flávio Rachadinha, o filho do nosso Mussolini preso em casa pra azar da Michele. Flávio Rachadinha, esse que é amigo do pinscher malafaia da fé: estuprador de almas, safado, canalha, roleiro, patife até dizer chega. Amigo de Milei, aquele que conversa com cachorros. Devoto de Carlos Alberto Brilhante Ustra. Adorador de Trump, a criança laranja que faz do mundo um espaço kids de maldades polimorfas. Cercadinho onde brinca de matar menininhas iranianas, enquanto é acusado de abusar de menininhas norte-americanas. Parceiro dos lutadores de MMA com seus cérebros destruídos de pancada. Flávio Rachadinha: parceiro de Zé Trovão, de Leonardo, de Neymar e do padre Kelmon. O novamente amigo de Moro, o leitor de biografias abstratas de gente sem nome. Esse canalha que, depois de ter defenestrado Bolsonaro, posou ao lado de Rachadinha pra trocar o União Brasil pelo PL e concorrer ao governo do Paraná. Canalha. Mil vezes canalha.

Meio país dessensibilizado com as violências propagadas pelo fascismo bolsonarista e com os resultados incontestáveis de Lula. Cegos de ressentimento e de ignorância. Assujeitados mais aos memes do que aos dados da realidade.

Meio país que passará pano não só para as rachadinhas, mas para a lavanderia de chocolates e para a ligação umbilical dele com as milícias cariocas.

Divorciar-se de todos os tipos de bolsonarismo é o que qualquer brasileira e brasileiro decente tem a fazer este ano. Política e eticamente. Se a turma de vocês é a das armas, do dinheiro vivo, do deixar morrer, do preconceito, da violência bruta, da antivacina e do sertanejo greco-goiano, então, na boa, melhorem. Apenas melhorem.

PAULO FERRAREZE FILHO é psicanalista, professor e pesquisador (IP-USP e UNISUL/SC).

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