ARTIGOS

Virgínia e Adelaide: gênero, raça e apagamento simbólico

por Thamara Mir

Há histórias que nos chegam pelos filmes e livros e nos atravessam, reverberando para além do pensamento. São personagens, cenários, contextos e, sobretudo, as palavras – ditas e não ditas – que insistem em permanecer, despertando tanto o fascínio quanto a inquietação.

A obra Virgínia e Adelaide (2024) inscreve-se justamente nesse território delicado e persistente das narrativas que continuam ressoando por dentro e por fora da pele.

Dirigido por Yasmin Thayná e Jorge Furtado, e estrelado por Gabriela Correa e Sophie Charlotte, o filme lança luz sobre a trajetória e o encontro transformador de duas mulheres, Virgínia Leone Bicudo e Adelaide Koch, pioneiras da psicanálise no Brasil, cujos passos no assoalho da história tentaram apagar.

Acredito que os efeitos dessa e de tantas outras histórias incidam de modo distinto sobre cada pessoa. Afinal, foram principalmente as mulheres, sobretudo as negras, as pessoas mais submetidas ou assujeitadas ao silenciamento, ao apagamento, ao epistemicídio e às múltiplas formas de violência simbólica produzidas pelos campos institucionais onde o discurso dominante, no sentido foucaultiano, sempre operou.

Vale lembrar que o discurso dominante não opera apenas como produção de enunciados legítimos, mas como uma tecnologia de poder que organiza e legitima quem pode falar, de que lugar se fala e quais saberes são reconhecidos como válidos. Nos espaços institucionais, esse funcionamento se traduz em pequenas e persistentes operações de deslegitimação: interrupções, dúvidas reiteradas, decisões questionadas, contribuições colocadas em suspenso, formas sutis de deslocamento da autoridade. São práticas que, muitas vezes, não se anunciam como violência, mas se repetem no cotidiano até se tornarem quase naturais, como se pertencessem à própria ordem das coisas. Ainda assim, produzem efeitos concretos: desgaste, retraimento da voz, perda de circulação do que é produzido.

Dito isso, é importante pontuar que determinadas narrativas não afetam todos da mesma maneira, justamente porque alguns grupos reconhecem nelas experiências históricas e sociais que lhes são próprias e tão caras, e outros, não.

Virgínia Leone Bicudo foi uma mulher negra, socióloga e psicanalista brasileira e uma das pioneiras na articulação dos estudos de raça e racismo na sociedade brasileira. Nascida em São Paulo, em 1910, filha de uma imigrante italiana e de um homem negro descendente de pessoas escravizadas, tornou-se a primeira psicanalista não médica do país e uma das primeiras professoras universitárias negras do Brasil.

Em 1945, defendeu uma dissertação considerada inaugural nos estudos sobre relações raciais no Brasil, investigando os efeitos do racismo e do preconceito de cor na sociedade brasileira.

Naquela época afirmar que havia racismo no Brasil já consistia numa novidade, éramos um país que se acreditava ser um paraíso racial e a questão da discriminação era atribuída exclusivamente à classe social. Acompanhar o trajeto profissional de Virgínia Bicudo é partir da constatação da existência deste preconceito de cor como ela nomeava. Este, não teria sido vivido só na sua infância, mas comprovado através de toda uma produção e pesquisa que incluiu formulações extremamente inovadoras, como sua tese de dissertação de mestrado e parte de um relatório fundamental sobre o tema, conhecido como Projeto Unesco – Anhembi (BRAGA, 2022).

Ao longo da vida, Virgínia atuou na difusão da psicanálise, participou da fundação de importantes instituições da área e desenvolveu uma trajetória intelectual marcada pela articulação entre subjetividade, raça e desigualdade social. No entanto, seu legado permaneceu durante décadas, silenciado e invisibilizado.

Virgínia sofreu uma ofensiva feroz de desmoralização, por ser uma psicanalista não médica, sendo um dos responsáveis por esse fato, o primeiro diretor do Conselho de Medicina de São Paulo, Flamínio Fávero. […] Não é possível saber ao certo em relação a quais características de Virgínia esta reação violenta e truculenta se dirigiu primordialmente. Oficialmente a questão era de que não era médica, mas o fato de ela ser também uma mulher e o fato de ser negra, podem ter sido elementos que entraram em jogo, colocando-a como alvo de uma atitude extremamente violenta, racista e machista (BRAGA, 2022).

Adelaide Koch, por sua vez, foi uma médica, psiquiatra e psicanalista alemã. Nascida em 1896, em Nuremberg, na Alemanha, teve sua trajetória profundamente marcada pela ascensão do nazismo e pela perseguição antissemita, que a obrigou a deixar o país e buscar refúgio no Brasil na década de 1930. Já inserida nos círculos psicanalíticos europeus, Adelaide trouxe consigo importantes contribuições para a consolidação da psicanálise em solo brasileiro, atuando na formação de analistas e na difusão do pensamento freudiano no país. Ainda assim, como tantas outras mulheres intelectuais de sua época, sua trajetória permaneceu durante muito tempo à margem das narrativas oficiais da história.

O filme se sustenta em uma delicadeza poética e estética singular. Sua simplicidade se expressa em uma linguagem onde a potência imagética não ocorre pelo excesso mas sim pela contenção.

Virgínia procura a Dra. Adelaide para fazer análise e acaba tornando-se a primeira mulher da América Latina a deitar-se em um divã psicanalítico e tornar-se psicanalista. E desse encontro nasce a amizade entre duas mulheres intelectuais, atravessadas, cada uma a seu modo, pelas experiências singulares e coletivas das violências de suas épocas e contextos. A escuta que acolhe a palavra, para além do dito, produz a possibilidade de (re)existência, reconhecimento e inscrição simbólica.

É nesse ponto que o filme também se desloca do passado para o presente, fazendo ressoar uma questão que não se encerra em Virgínia Leone Bicudo e Adelaide Koch, mas insiste em retornar como estrutura: quem é lembrado, quem é autorizado a permanecer na história e quem precisa, continuamente, lutar para não desaparecer dela.

Nesse sentido, a trajetória de Virgínia Bicudo ajuda a tornar visível aquilo que frequentemente se oculta sob a normalidade institucional. Mulher negra em espaços marcados pela branquitude e pelo predomínio masculino, Virgínia atravessa uma história em que raça e gênero não se somam apenas como categorias, mas se entrelaçam na forma como um saber-fazer é reconhecido ou não.

O racismo e o machismo, aqui, não aparecem como forças separadas, mas como dispositivos que organizam o que e quem pode ser ouvido, lembrado e legitimado. E, nesse movimento, o trabalho produzido por mulheres, sobretudo mulheres negras, tende a ocupar um lugar muito instável: ora reconhecido, ora invalidado, muitas vezes apagado ou reescrito pela história dita oficial.

Esse movimento não pertence apenas ao campo da memória histórica, mas permeia as instituições e os modos contemporâneos de reconhecimento do trabalho intelectual e profissional de mulheres.

Ainda hoje, trajetórias femininas que se destacam em diferentes áreas seguem sendo frequentemente marcadas por processos de invisibilização, deslegitimação ou invalidação, ainda que sob formas mais sutis e sofisticadas.

Virgínia e Adelaide é um respiro suave, mas também profundo, em tempos nos quais ainda é preciso reafirmar o óbvio, lutar e resistir aos dispositivos de poder que sustentam discursos racistas e misóginos e se reproduzem nas entranhas da sociedade pós-moderna, principalmente nesse “território sem lei” do mundo digital.

Ao mesmo tempo, esta história nos lembra que há mulheres que, apesar das estruturas, dançam sem meias. E, ainda que tentem apagar suas marcas no assoalho, há uma força que resiste ao tempo do silenciamento e emerge nos próximos capítulos da história.

THAMARA MIR é Psicóloga, Psicanalista, Mestra e Doutoranda em Saúde Coletiva (UFSC), pesquisadora em Violência e Saúde.

Referências

BRAGA, Ana Paula Musatti. Pelas trilhas de Virgínia Bicudo: psicanálise e relações raciais em São Paulo. In: GUSSO, Helena Canto et al. (org.). Misoginia e psicanálise. São Paulo: Larvatus Prodeo, 2022. p. 44-68.

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