ARTIGOS

O berrante bolsonarista no ouvido dos idiotas

por Tainá Machado Vargas

O voluntarismo do governo de Jair Bolsonaro o tempo todo nos envia sinais, e parece empenhado em favorecer temíveis laços com grupos anônimos, de fundamento conspiratório, tais como o QAnon-Brasil, movimentos neonazistas, neoliberais ultra conservadores e supremacistas brancos. Juntos, esses grupos tem por objetivo comum, solapar o andamento da compra das vacinas e omitir-se diante das altas taxas de desemprego, registradas desde o início da pandemia. Não se sabe ao certo quando ou como essa rede de conspirações, identificadas por uma única letra ‘Q’, tornou-se o epicentro de uma nova mensagem política. Junto do populismo fascista da ultra-direita, essa multidão enfurecida ameaça causar instabilidades universais na política, semelhantes aos atos de violência que atentaram o Capitólio dos EUA. As crenças do grupo QAnon confirmam um misticismo delirante que remonta ao movimento das cruzadas. Estes lutam contra uma suposta rede global de pedofilia, secretamente estabelecida dentro das grandes mídias, na política e em outras estruturas de poder governamental.

Paralelo a isso, no Brasil, também somos bombardeados por fantasias persecutórias que ganham a nossa atenção pela insistência, ou pelo fato de nos incendiar de sobressalto através das fake news: as acusações recorrentes de pedofilia, um mal repudiável de forma unânime, naturalmente testa a nossa curiosidade, ainda mais quando lançada aos críticos e opositores do governo. Pelo visto, como nos ensinam as teorias do QAnon e da militância digital, que movimenta cruzadas antirrepublicanas com a ajuda de influencers pró-governo, nem sempre uma trama conspiratória depende de uma boa dose de realidade para ser criada ou para deixar de nos afetar.

No auge da segunda onda mais mortal de covid-19, ausentar-se do leme é cingir na história da política institucional um pacto de iniquidade com a morte. Parte inequívoca da moralidade passa a ser eliminada de todas as suas extensões éticas na política, não só pelo governo mas pelo centrão, quando este dissimula nossas precipitações sobre o impeachment, sobre as atitudes extremistas da direita e o seu populismo conspiracionista, diante do abismo de uma terceira onda que está à nossa espera.

Segundo os economistas, o colapso da economia brasileira, que por sua vez aprofunda o isolacionismo global e geopolítico do país, passará a aprofundar ainda mais as desigualdades inescapáveis nos próximos anos. A última afronta constitucional do governo federal tratou de boicotar medidas de lockdown adotadas pelos Estados, considerando a grande necessidade de se contingenciar o número de recursos disponíveis à saúde pública, para equilibrar o galopante número de perdas humanas. De tempos em tempos, o governo não tarda em lançar mão de novas “cortinas de fumaça”, afastando atenções prioritárias sobre o atraso das imunizações e a adoção de novas estratégias de gotejamento na economia.

Não há mais como negar que o percurso político de Jair Bolsonaro vem registrando uma metalinguagem oculta na forma de comunicar-se com o seu eleitorado através de símbolos, expressões, falas e trejeitos que vêm se manifestando com mais frequência nos pronunciamentos ministeriais. Cabe desmistificar diferenças entre o desejo e as fantasias, como se cada uma delas cumprisse expressões diferentes em sustentar a nova mensagem enviada pela extrema direita. Passemos, então, a diferenciá-las adequadamente..

O fetichismo em cena, se aplica ao delírio de potência por parte do governo. Este desejo é eloquente e busca maximizar forças e eficiências através do Estado, respondendo duramente às demandas sociais com letalidade, pânico e desorientação pública. Esse tipo de fetichismo pela “política do sofrimento”[1], escancara os fundamentalismos da indiferença que há no poder. O sofrimento serve como propaganda política e o consumo do trágico é a sua ferramenta de hiper socialização. Neste caso, o poder é gerenciado como fetiche em conservar o sofrimento – por parte de quem esperávamos legitimidade, dignidade, reconhecimento ou atenção – seja por parte do Estado, pelo ordenamento jurídico ou pelas instituições que nos representam na política. Diante disso tudo, o que ouvimos do governo Bolsonaro até agora é censura, protestos e radicalizações das consequências de uma falsa lei natural: sobreviverá (a pandemia e a quarentena) apenas aqueles que contarem com imunidade de recursos, de privilégios, e vantagens eleitorais, baseadas na crença de que a racionalidade econômica estéril de Paulo Guedes é capaz de nos amparar..

Em relação às fantasias, o elemento simbólico busca se expressar na política a partir da criação de diferenças ideológicas, estando livre do compromisso com a verdade. Como exemplo, recordo as aparições públicas do ex-secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, em janeiro de 2020. Durante o seu comunicado, fica evidente uma forte preocupação em fidelizar gramáticas de simbolização, fazendo uso de signos como confissões de uma ameaça histórica presente (copo de leite, a composição de Richard Wagner) e discursos internacionalmente conhecidos, ligados à xenofobia, ao racismo, e ao White Power. São essas mesmas mensagens de intransigência que vêm dando suporte às Fake News e a atuação dos influencers (como o negacionista Paulo Kogos), dos trolls e dos Bots (usuários reais e automatizados), partidários ao governo. Não há sinal de culpa ou responsabilidade por essas encenações feitas nas coletivas de imprensa, que costumam passar despercebidas diante da quantidade de inconsequências verbais faladas pelo presidente da república e seus ministros.

Segundo Freud[2], a fantasia rege o desejo por identificações e pela fixação das escolhas em um determinado objeto. A fixação em hostilizar a fantasia de fraqueza moral associada à esquerda (ou a uma possível esquerda-bolivarianista-comunista-pedófila), a identifica como transgressora de fronteiras limítrofes entre as sexualidades, a lei, a moralidade e o saber. O fetiche se funda no desejo de tratar nossos opostos como coisas, descartar o seu valor e obrigá-los a ocupar o papel da alegoria sexual (“Golden Shower e a apologia do incesto”, “Mamadeira de piroca”, “Ditadura gay”, “Gays são pedófilos e pretendem legalizar a pedofilia” e outras) taras, pervertendo relações da sexualidade com o anormal – [caso Felipe Neto]. Isto é, a extrema direita vive simulando fantasias conspiratórias sobre a doutrinação da esquerda, embora, na prática, realize genocídios no seu sentido mais inimaginável em uma pandemia.

Aqui, há um elemento atribuído ao consumo de um discurso de polarização do político, que populariza Fake News. Ao tempo que o governo se esforça em criar uma imagem de oposição dualista (entre o bem e o mal através da comparação), apostam na derrota dos seus adversários (e da sua visão de mundo), pela teatralização de cenas eleitorais anedóticas. E isso não significa dizer que o contrário não aconteça – sobre a parcialização da verdade, do uso do bem e do mal como retórica moral. Ainda assim, acredito que a pauta das liberdades sexuais provoque mais curiosidade reativa do que espanto no conservadorismo brasileiro.

É o caso da articulista Sara Fernanda Giromini, mais conhecida por Sara Winter, em clara analogia à uma espiã nazista Sara Winter que viveu e atuou entre 1870-1944. A Winter brasileira, liderou em 2020/2 um acampamento-protesto, organizado pelo grupo intitulado: “300 do Brasil”, na Esplanada dos Ministérios. O grupo marchou caracterizado por trajes brancos, atiçando fogos de artifícios e imitando a estética do Ku Klux Klan. Segundo Sara Fernanda, a sua missão era “combater a corrupção e a esquerda no mundo”[3]. Nesta, e em outras condições, se vê que o consumo da política não apenas explora, mas se alimenta da psique e das paixões, sejam elas testadas pela ideologia ou pelo pragmatismo. É assim que uma ideia sobre valor é passada..e reforçada no ato. Mas, de que forma estamos delimitando o nosso papel no ato de combatermos esses messianismos autoritários de cada dia? Apelando ao bom senso cancelatório?

Em relação às teorias conspiratórias, o seu elemento surpresa é mais excitante justamente porque flerta com a capacidade imaginativa dos sujeitos. Ainda que seja possível a prova da verdade, há um apelo inquisitivo em insistir na dúvida pelo gozo da violência. Deve ser por isso que o ódio como afeto político pode ter um efeito disruptivo ou cínico, à medida que busca preencher certezas. A raiva é o sentimento mais volátil das emoções e, por isso, é tão bem explorado comercialmente em noticiários, reality shows, na publicidade, nos programas de tv, em geral (com a cultura do cancelamento, por exemplo). Não há como negar que o ressentimento, a raiva e a intolerância também criam laços afetivos de pertencimento, nem que seja através do ódio comum ao mesmo inimigo – reforçados pela ideia de coesão grupal – como parte da expressão que amamos odiar em nós.

O fenômeno eleitoral de Bolsonaro sempre esteve profundamente estruturado a um desejo de ordem e a um gozo autoritário de segurança nacional desde o seu início. A propaganda política das elites está associada a uma assimilação perversa das ideologias da esquerda do “politicamente correto” (a proposta está assim redigida no plano de governo de Bolsonaro). A grande surpresa dessas eleições surge, estrategicamente, com a captura do ideal de crise contemporânea em se afirmar no “diferente”, (outra vez) na fantasia compartilhada da mudança. É justamente esse ambiente ficcional, fabricado pelos discursos eleitorais e fetichismos da extrema-direita que, como ficção ou narrativa mitológica, dão estruturas à pós-verdade. Na prática, a extrema direita quando se sente atacada e exposta em suas contradições, costuma adotar semelhantes estratégias de negar, com agressividade, tudo que esteja além do alcance dos seus interesses.

Em partes, trata-se de um efeito discursivo chamado de Apito de cachorro – em inglês, “Dog whistle”[4].  Essa prática é responsável por enviar mensagens cifradas a destinatários certos sem causar alarde ou criar suspeitas por parte da maioria das pessoas. Além de driblar críticas, evita que discursos maquiados por políticos deixem de responder por seus atos, que servem tanto para reforçar patriotismos, ideais identitários e anti-intelectualistas de rechaço migratório. Exalta também violências coloniais baseadas em crenças de inferioridade étnica, sexual e de gênero.

No Brasil, apropriar-se da bandeira nacional e popularizar o sinal da “arminha” feita com a mão, desde o início das eleições já celebrava uma identificação pública com parte do conservadorismo: favorável ao porte de armas, demandante por mais violência no campo da segurança pública e, oferecendo pouco (ou quase nenhum) incômodo diante das declarações de incentivo a misoginia e homofobia. Essas e outras transformações radicais não se operam mais dentro da clandestinidade dos governos. Elas estão inseridas nas próprias propagandas dos governos para induzir sentimentos descentralizados de indignação contra a política, a corrupção e a própria democracia. Isso explicaria por que as últimas eleições brasileiras contaram com o apoio político de líderes supremacistas da Klu Klux Klan como David Duke[5], e do neoliberal alternativo, ultraconservador, e ex-estrategista da propaganda de governo de Trump, Steven Brendon[6]. Recentemente Felipe Martins, assessor especial de Assuntos Internacionais do presidente, foi flagrado em uma coletiva reproduzindo gesto ligado a grupos neonazistas.

Ainda que  pareça mais fácil batizá-los de manada (ou gado de rebanho), não é nada razoável subestimá-los mais uma vez, principalmente, enquanto capital de oposição paras as próximas eleições. Conforme os movimentos antecipatórios do governo – em expandir seus próprios poderes na pandemia – o dispositivo constitucional da “mobilização nacional” já foi desengavetado para ampliar os poderes do presidente. Pouco se comentou a respeito, mas é provável que a medida possa ser usada como uma solução final para a democracia ou, para fins ainda mais autoritários daqueles já experimentados. Com a mobilização nacional será possível intervir nos âmbitos públicos e privados; na ocupação de bens e serviços; e na convocação de civis e militares pelo governo federal em situações pontuais.

A verdade é a de que Bolsonaro permanece como o favorito da elite econômica, do agronegócio, do empreendedorismo, da liberdade econômica, da família(evangélica)-tradicional-brasileira, da propriedade privada, do milicianismo militarismo e da tolerância parcial à “bandidolatria”. É prudente adiantarmos alternativas possíveis, considerando o fato de que o centrão é ingovernável e de que parte da direita já está farta de sustentar as fragilidades do governo. Isso significa dizer que, extirpar Bolsonaro do poder é uma realidade amplamente desejada para os interesses do Brasil e para o resto mundo. Se antes a consciência da situação periférica de Bolsonaro permitiu a sua ascensão na política, que seja a vez da esquerda organizar-se para defender a próxima disputa eleitoral. Para isso, talvez seja necessário superar os sintomas fatalistas. Desafiar as fronteiras do corporativismo ideológico – que como todo limite pressupõe a existência de algo além – presentes em nossas tradições, no nosso pasmo semblante de contemplar o futuro e na incapacidade imaginativa de responder positivamente aos nossos desejos, atentos pela afirmação de mudanças mais radicais.

TAINÁ MACHADO VARGAS é mestra em Sociologia do Direito pela UNILASALLE/RS e faz pesquisa pelo CNPq sobre trabalho, gênero, política e neoliberalismo

REFERÊNCIAS

[1] DUNKER, Christian. Reinvenção da intimidade – Políticas do sofrimento cotidiano. São Paulo: Ubu Editora, 2017.

[2] FREUD, BERNARD. Sigmund, Jolibert; tradução: Elaine Teresinha Dal Mas Dias. – Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. 120 p.: il. – (Coleção Educadores).

[3] Os “300 do Brasil” copiam o neofascismo europeu. OUTRASMÍDIAS, 2020. <https://outraspalavras.net/outrasmidias/os-300-do-brasil-copiam-o-neofascismo-europeu/&gt;.

[4] CARVALHO, Bruno. NÃO FOI VOCÊ: uma interpretação livre do bolsonarismo. Revista Piauí. Ed. nº142, 2018. <https://piaui.folha.uol.com.br/materia/nao-foi-voce/&gt;.

[5] SENRA, Ricardo. ‘Ele soa como nós’: David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan, elogia Bolsonaro, mas critica proximidade com Israel’. BBC News Brasil em Washington, 2018.<https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45874344&gt;.

[6] Steve Bannon, ex-assessor de Trump ligado à extrema direita, declara apoio a Bolsonaro. O Globo Brasil, 2018. <https://oglobo.globo.com/brasil/steve-bannon-ex-assessor-de-trump-ligado-extrema-direita-declara-apoio-bolsonaro-23187643&gt;.

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