ARTIGOS

O genocídio indígena e a perversa fundação do capitalismo no mundo

por Juan Manuel Domínguez

Arte de Latuff

O declínio radical da população indígena na América começou assim que os conquistadores pisaram no novo continente. O choque dos primeiros momentos da conquista refletiu-se claramente na curva demográfica. De nada adiantaram as leis que tentaram pôr um fim nos maus tratos e na matanza sem escrúpulos dos europeus que pisavam o solo americano. Essas leis tinham mais a função simbólica de legitimar a ocupação, tentando dar um viés de evangelização e educação, ao brutal saqueio e assessinato em massa dos povos que povoaram o continente desde tempos ancestrais. 

A religião foi tão importante para a legitimação da barbárie, que o primeiro argumento da igreja para explicar a diminuição da população indígena foi a de um “castigo divino” pelos séculos de paganismo. Argumento similar seria utilizado para legitimar o processo de comercialização da população africana arrastada desde sua terra natal para trabalhar como mão de obra escrava nas terras previamente saqueadas e concedidas aos que logo se tornaram a oligarquia dominante em território americano. Eles seriam com o tempo os encarregados de consolidar a colonização através da imposição a ponta de fuzil da língua, da história e da religião provenientes da europa imperial. 

Para o despovoamento na América, juntou-se a epidemia de morte, produzida pela guerra de extinção que os conquistadores travaram contra certos grupos, mais a debilidade resultante dos abusos sistemáticos que os europeus exerceram sobre a força de trabalho e a reprodução das espécies. conseguiram sobreviver, bem como ao mal-estar produzido pela destruição indiscriminada dos sistemas econômicos nativos; tudo isso teria um impacto adverso no desenvolvimento econômico colonial. 

A brutalidade com que foi instaurada a colonização é a principal causa  da pobreza e da desigualdade no continente hoje. O desprezo dos colonizadores pelas culturas e as economias indígenas, somado ao desprezo pelos africanos trazidos para trabalhar a terra, criaram uma sociedade baseada na subjugação e na exploração das raças submetidas ao jugo europeu. Seus rastros estão à vista de todos hoje, na cartografia de territórios onde a pobreza e a marginalidade tem cor e cultura própria.   

“A Boca do Inferno”, o genocídio indigena em Potosí:

No livro “As veias abertas da América Latina”, Eduardo Galeano conta os horrores da colonização espanhola, entre os quais, talvez o mais perverso de todos, é o que foi executado na região de Potosí, hoje parte do Peru e da Bolívia.

“Em 1581, Felipe II havia afirmado, perante a audiência de Guadalajara, que já um terço dos nativos da América havia sido aniquilado e que os que ainda viviam eram obrigados a prestar homenagem aos mortos. O monarca disse ainda que os índios foram comprados e vendidos. Que dormiam ao ar livre. Que as mães mataram seus filhos para salvá-los do tormento nas minas.” (Eduardo Galeano, As Veias Abertas de América Latina)

“A escravidão greco-romana foi realmente ressuscitada em um mundo diferente; Ao infortúnio dos indígenas dos impérios aniquilados da América hispânica deve-se acrescentar o terrível destino dos negros retirados das aldeias africanas para trabalhar no Brasil e nas Antilhas. A economia colonial latino-americana possuía a maior concentração de força de trabalho conhecida até hoje, o que possibilitou a maior concentração de riqueza que qualquer civilização já teve na história mundial.” (Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América Latina)

“Essa violenta maré de ganância, horror e bravura desceu sobre essas regiões  ao preço do genocídio nativo: as investigações recentes mais bem fundamentadas atribuem ao México pré-colombiano uma população que oscila entre 25 e 30 milhões, e estima-se que havia um número semelhante de índios na região andina; A América Central e as Antilhas tinham entre dez e treze milhões de habitantes. Os índios das Américas somavam nada menos que setenta milhões, e talvez mais, quando conquistadores estrangeiros apareceram no horizonte; um século e meio depois, eles haviam sido reduzidos, no total, a apenas três milhões e meio. Segundo o marquês de Barinas, entre Lima e Paita, onde viveram mais de dois milhões de índios, restavam apenas quatro mil famílias indígenas em 1685. O arcebispo Liñán y Cisneros negou a aniquilação dos índios: “É que eles se escondem – disse – para não pagar impostos, abusando da liberdade de que gozam e que não tinham na época dos Incas ”. (Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América Latina)

“Em três séculos, a rica colina de Potosí queimou, segundo Josiah Conder, oito milhões de vidas. Os índios foram arrancados das comunidades agrícolas e conduzidos, com suas mulheres e filhos, em direção ao morro. De cada dez que marcharam para as terras altas congeladas, sete nunca voltaram. (…) Os espanhóis lutaram centenas de quilômetros em busca de mão de obra. Muitos dos índios morreram no caminho, antes de chegar a Potosí. Mas foram as péssimas condições de trabalho na mina que mataram mais gente. O dominicano Fray Domingo de Santo Tomás denunciou ao Conselho das Índias, em 1550, logo após o nascimento da mina, que Potosí era uma “boca do inferno” que anualmente engolia índios aos milhares e milhares (…). Os chefes das comunidades tinham a obrigação de substituir os moribundos mitayos por novos homens entre os dezoito e os cinquenta anos.” (Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América Latina)

“A “mita” era uma máquina de triturar índios. O uso do mercúrio para a extração da prata por amálgama envenenou tanto ou mais que os gases tóxicos do ventre da terra. Isso fez cabelos e dentes caírem e causou tremores indomáveis. Os “mercúrios” rastejavam mendigando pelas ruas. Seis mil e quinhentas fogueiras ardiam à noite nas encostas do Cerro Rico, e nelas se trabalhava prata com o vento que o “glorioso Santo Agostinho” mandava do céu. Por causa da fumaça das fornalhas não havia pastagens ou plantações em um raio de seis léguas ao redor de Potosí, e a fumaça não era menos implacável nos corpos dos homens.” (Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América Latina)

“Não faltaram justificativas ideológicas. (…) Um vice-rei do México considerou que não havia melhor remédio do que trabalhar nas minas para curar o “mal natural” dos povos indígenas. Juan Ginés de Sepúlveda, o humanista, afirmou que os índios mereciam o tratamento que receberam porque seus pecados e idolatrias constituíam uma ofensa a Deus. O conde de Buffon afirmou que os índios, animais frígidos e fracos, não registravam “nenhuma atividade da alma”. (Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América Latina)

No Capítulo XXIV do Capital, Marx explica o processo pelo qual gerou as pré-condições para o desenvolvimento do regime capitalista de produção. Contrariando o discurso hegemônico que apresentou esses eventos como idílico, o autor sustenta que a “acumulação originária” constituiu um processo expropriação violenta, conquista, escravidão e assassinato em que “grandes massas homens [e mulheres] são repentinamente e violentamente privados de seus meios de produção a ser lançada no mercado de trabalho como proletários livres e privados de todos os meios de vida ”(Marx, 1867: 609). Essa visão permite-nos pensar o capitalismo como um modelo social que tem como pedra fundacional o processo colonizador da América e um começo e da África e Oriente depois. Durante longos anos uma precária ideia de um “mérito europeu” baseado na superioridade intelectual e moral, prevaleceu em todos os sistemas de ensino instaurados ao redor do planeta, na força da pólvora, para legitimar a supremacia económica da metrópole por sobre os povos dominados e as civilizações por eles devastadas. Os remanescentes desse passado de barbárie subsistem ainda hoje no discurso dos que ainda hoje negam que a acumulação de riqueza por parte da Europa teve como fator fundamental a supremacia bélica. Ou seja, a fortuna europeia está baseada na violência e no latrocínio dos povos de outros continentes, e sua “supremacia cultural” está baseada no extermínio das identidades que não tiveram os recursos para defender seu direito a existir. Não existe uma proporção de mérito “moral ou intelectual” elementar para justificar o domínio e a expropriação das riquezas em territórios alheios por parte da europa, o único argumento que prevalece e que, dia trás dia, a história desvenda, é a supremacia bélica, e, claro está, os impulsos belicistas e imperialistas dos europeus perante um mundo desprevenido e desprotegido. Esse é o mais sólido argumento para justificar o predomínio que em essa terra tem a língua que utilizo aqui, para escrever essas linhas, e o desaparecimento das línguas  que já povoaram esse território, e que hoje são parte de uma história ainda por explorar para assim entender o presente desigual que se abate sobre esse mundo, hoje à vera de uma pandemia que está levando consigo os corpos dos povos racializados e segregados durante o processo colonial.

JUAN MANUEL DOMÍNGUEZ é militante, professor, escritor, jornalista, roteirista, produtor e diretor de cinema. É também fotógrafo de documentários que fazem a defesa dos direitos humanos

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