por Paulo Ferrareze Filho

O mundo pega fogo com gente da laia do Trump. Criança laranja que faz do mundo um espaço kids de maldades polimorfas. Cercadinho onde brinca de matar menininhas iranianas, enquanto é acusado de abusar menininhas norte-americanas.
No Brasil temos pela frente gente da laia de Flávio Bolsonaro. Alguém que acha Trump um cara bacana. E então temos que argumentar com esse pessoal que vai abraçá-lo, já que convém não irmos nem pra cadeira, nem pra vala. Argumentar com quem acha Flávio uma alternativa é como ter que brigar com uma planta e ter a chance de perder. Porque se a antipatia com o Lula era pela corrupção, agora vocês vão dar a mão para Flávio, Flávio Rachadinha. Seria mais justo que ele trocasse o sobrenome queimado do pai por Rachadinha. Aí, pelo menos, competiríamos com o slogan certo: “Pelo fim da corrupção, vote Flávio, Flávio Rachadinha”. Tirar o sobrenome do pai criminoso do slogan pra parecer um canalha ameno é como colocar um rótulo de leite no pote de arsênio.
Aí vem o Rachadinha, subindo nas pesquisas tipo trepadeira com sol forte, irrigado por amnésia seletiva e um renitente “mas e o Lula?”. Aí vem o Rachadinha, subindo nas pesquisas com uma estranha tolerância com comprar 100, 50 imóveis com dinheiro vivo… Quem nunca, afinal? Você almoça num sábado qualquer e, lá pelas 3 da tarde, enche 5 mochilas com notas de 100, e vai ali comprar uma casa de 6 milhões.
Metade de um país que não entendeu a diferença entre ser de direita e ser fascista. Como se fascismo fosse só coisa tipo Hitler-câmara-de-gás-matar-judeus. No livro A ameaça interna (UBU, 2026), Safatle sublinha que as atuais expressões do fascismo dispensam elementos clássicos, já que nossas democracias liberais são, no fundo, fascismos restritos. Então, uma das novidades do nosso fascismo pós-moderno é que “a proteção de catástrofes não é mais o eixo de justificação do Estado”. Só se consegue isso porque o tufão de fascismo que nos atravessa apresenta “uma forma específica de violência e dessensibilização social”, como resposta a um clamor por liberdade que se converte, na prática, eu seu contrário, já que nossa concepção de liberdade é segregadora, tenebrosa, violenta e insensível com desigualdades que são brutais.
Seja com argumento acadêmico, seja com planilha excel, há meio país que não dará o braço a torcer nem que Jesus desça dos céus antes de outubro, chame todo mundo no Circo Voador, e diga que os Bolsonaros são os filhos oficiais do capeta. Meio país de mãos dadas com um deputado-influencer que caminhou mil dias no asfalto pra gerar conteúdo na rede social. Meio país abestalhado com essa teologia dogmática e rasteira espalhada tipo inço.
Meio país que ainda votará nessa família absurda e obtusa. Feita de calhordas e vagabundos em série. Meio país de patriotas que estendem uma bandeira dos Estados Unidos na Paulista. Que preferem, como também diz Safatle, não um presidente, mas um administrador de colônia. Meio país que aposta em Zema antes de Lula. Em Zema, meu Deus, que é o novo Tiririca. O cara que foi chamado a falar num podcast chamado – pasmem – “Inteligência Ltda.” (que gente astuta…). Chamado lá pra dizer que vai privatizar tudo e permitir que crianças trabalhem. Isso porque ele é do Novo. Ou seja, ele aposta nessa coisa nova que é crianças trabalharem.
Meio país escolhendo a brutalização dos laços sociais, a precarização dos escravos do neoliberalismo e o ataque à ciência. Flávio Rachadinha, esse que é amigo do pinscher da fé: estuprador de almas, safado, canalha, patife até dizer chega. Flávio Rachadinha, o filho de nosso Mussolini. Amigo de Trump e de Mi-ley que conversa com cachorros, devoto de Ustra, parceiro dos lutadores de MMA com seus cérebros destruídos de pancada. Flávio Rachadinha, amigo de Zé Trovão, de Leonardo, do menino Ney e do padre Kelson…
Meio país dessensibilizado com as violências propagadas pelo fascismo bolsonarista e com os resultados incontestáveis de Lula. Cegos de ressentimento e de ignorância. Assujeitados mais aos memes do que às coerências da realidade.
Se divorciar de todos os tipos de bolsonarismo é o que qualquer brasileira e brasileiro decente tem a fazer esse ano. Política e eticamente. Se a turma de vocês é a das armas, do dinheiro vivo, do deixar que se lasque, do deixar morrer, do preconceito, da violência bruta, da anti-vacina e do sertanejo greco-goiano, então, na boa, desapareçam.
PAULO FERRAREZE FILHO é psicanalista e professor
