ARTIGOS

A dança cósmica de Ailton Krenak

por João Paulo Ayub Fonseca

A entrevista do escritor e pensador indígena Ailton Krenak no programa Roda Vida da TV Cultura no último dia 19 de abril representou um gesto genuíno de resistência política – ao menos para aqueles que ainda podem escutar o que se diz para além dos registros discursivos excessivamente pré-formatados atuantes no Brasil. A presença de Krenak nesta data problematiza a dimensão política de um certo “arquivo histórico” criado pelo governo de Getúlio Vargas. Refiro-me à instituição do “dia do Índio”, que remonta ao ano de 1940, quando foi realizado no México o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano. Entre tantas outras coisas, a inglória relação dos índios com o estado brasileiro produziu o evento anual para “se comemorar a cultura indígena” (como consta no site do Ministério da Educação): a instituição do “Dia do Índio” foi uma ação política sustentada pelo Estado Novo de Vargas e destinada a promover uma forma de reparação simbólica aos povos indígenas.

O reconhecimento dos direitos dos índios teve que esperar a Constituinte de 1988, palco de uma cena emblemática na trajetória política de Ailton Krenak: enquanto discursava na constituinte, Ailton pintava o rosto de jenipapo, produzindo em seu próprio corpo a metamorfose de um corpo político nascente. Por enquanto ficamos com a pergunta: é possível reparar o irreparável? A que se destina o arquivo destinado a guardar a memória dos que ainda estão vivos, embora em número bastante reduzido devido às práticas de exclusão e extermínio?

Tendo como pano de fundo esse quadro perverso que retrata tão bem a relação do estado brasileiro com os povos indígenas, podemos dizer que a resistência de Krenak vai muito além. Suas palavras “estranham” não apenas a forma como a política brasileira corrobora e ressoa as forças coloniais que atuaram na extinção dos viventes e seus modos de vida. Ainton Krenak, ao nos convidar para a “dança cósmica”, dança que não é outra coisa senão afirmação da vida – algo que ele faz sob o signo da alegria –, lembra-nos que muito mais está em jogo no dom de viver do que simplesmente a reprodução da vida em suas manifestações mesquinhas, como a sujeição a valores utilitários e a celebração narcísica do indivíduo e da espécie humana. Em resposta ao comentário do músico, compositor e ensaísta José Miguel Wisnik ao final da entrevista, sobre o que seria a alegria contida no “testemunho” de Krenak, ele diz: “a vida, por ser esse dom tão indescritível, incontível, não poderia ser recebida de outra maneira, senão com contentamento, alegria… uma resposta criativa para o sentido de uma dança cósmica. Se você fosse chamado para uma dança cósmica, você ficaria cabisbaixo, ou você sairia saltitante?” Dessa forma, Krenak não celebra o “Dia nacional dos Índios” reafirmando seu lugar de memória, assim como não se deixa levar no interior de um movimento centrípeto cuja força de atração devora e destrói os elementos heterogêneos à máquina discursiva produtora dos sentidos da nação. Não. A força das palavras de Krenak condensa um movimento de implosão do arquivo.

O teor testemunhal que habita a fala de Krenak foi muito bem notado por Wisnik. Não se trata aqui de exaltar a figura carismática de Ailton e seu ser encantado com as palavras. Antes, importa reconhecer a força de um estranhamento que provoca a nossa escuta, os nossos corpos… A potência de uma radicalidade crítica inerente a esta fala que problematiza nosso modo mais profundo de ser deveria nos perturbar.

O trabalho do antropológo Eduardo Viveiros de Castro, dedicado em sua maior parte à pesquisa no campo da etnologia americanista, é também testemunho desse estranhamento provocado por modos de existência que revelam a falência total dos modos de produção capitalistas e sua gramática de relações sociais fundada na lógica da produção de mercadorias. Sob a perspectiva que vem de “lá”, do olhar dos índios, seguimos acelerando como nunca os processos que avançam no sentido da destruição do planeta. A antropologia de Viveiros testemunha, ainda, o esgotamento de um registro de produção de subjetividades em que a dinâmica do investimento sobre a imagem narcísica da espécie corrobora o estabelecimento do indivíduo humano como medida para todas as coisas. Perguntas tais como “O que é o homem?” ou “O que é próprio do homem?” alimentam a vontade de saber das humanidades e suas melhores intenções, não escondendo, no entanto, seu traço narcisista.

As implicações do trabalho de Viveiros apontam para a possibilidade de inscrição no interior do pensamento antropológico da figura do anti-narcíso. Em conferência pronunciada em 7 de março de 2010 na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo SBPSP, Viveiros questiona o valor operatório e o protagonismo deste mito tão caro à cultura ocidental. Num certo sentido, os humanos ainda somos como narciso contemplando sua imagem no espelho. Para ele, não se trata mais de perguntar ou responder sobre o que é próprio do homem, o que esconde ou revela sua natureza mais profunda. O anti-narciso não é apenas uma nova ferida desferida no coração deste ser às voltas com sua própria imagem. O que o deslocamento da visada anti-narcísica provoca na perspectiva humana é a própria dissolução da imagem do homem, assim como a abertura radical às relações que o constitui, entre humanos e não-humanos. Essa abertura, vale destacar, tem nos corpos – em não em sua imagem projetada no espelho – seu local de inscrição.

Para tanto, não mais poderíamos lançar mão do artifício religioso da conversão da alma a fim de salvar a nós mesmos e aos outros, resguardando a pele do corpo imaculado do homem. Ao contrário, o dispositivo capaz de uma verdadeira transformação nesse estado de coisas consiste na capacidade de metamorfosear o corpo, até então aprisionado no reflexo imaginário de sua imagem, abrindo-se a tantas outras formas corporais possíveis. A pergunta sobre o que pode um corpo na produção de diferenças entre outros corpos deve constituir um dispositivo fundamental para o deslocamento e superação das formas culturais que sustentam a imagem narcísica do homem. Sobre a possibilidade de transmutar as formas culturais a partir do perspectivismo ameríndio, diz Viveiros:

“Para os índios, a diferença não está na alma, está no corpo. É o corpo que muda e são as afecções corporais que se tornam críticas para pensar a diferença. Por isso o corpo indígena é tão sobredeterminado esteticamente. Ele é marcado, perfurado, pintado, adornado, modificado, porque é no corpo que você tem que atuar para produzir um humano realmente humano.”

Saber dançar a dança cósmica implica, portanto, uma grande metamorfose, capaz de transformar desde a nossa economia psíquica mais profunda, num movimento radical anti-narcísico, até as nossas mais caras relações de poder que arregimentam e legitimam certas práticas estatais. Enfim, uma nova gramática do ser e do relacionar-se em que as coisas e os demais viventes, humanos e não-humanos, possam participar num mesmo fluxo de vida. A dança cósmica não depende dos humanos e não espera a sua entrada em cena. Krenak nos lembra que tudo dança e que precisamos, urgentemente, reaprender a dançar.

JOÃO PAULO AYUB FONSECA é psicanalista, doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP/SP e autor de Introdução à analítica do poder de Michel Foucault (Intermeios, 2015)

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2 respostas »

  1. Artigo importantissimo, sobre a atuação de Ailton Krenak e de Viveiros de Castro. Coloca a superação do etnocentrismo eurocêntrico , ponto cego da crise ecocivilizatoria etnocida,ecocida e suicida do que Heidegger denominou de “europeização do mundo”. Discussão prioritária do paradigma ecopolitico emergente. Parabéns !

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