ARTIGOS

Poema sobre a verdade

Arnoldo G. Benvenutti

Se já descoberta foi, por quê a busca continua? Se já refutada, por quê permanece? Tenho uma tese sobre ela: ela é mentira.

Arnoldo G. Benvenutti

Uma introdução em tom mártir como prelúdio a um funeral ao modo cristão: depois de morto, continua vivo. Assim se porta a filosofia em sua história saudosista. Demócrito já falava muitas verdades com suas vastas experiências em muitos países, talvez aperfeiçoado por Epicuro. Assim ocorrera com Platão, Aquino, Kant, Hegel. A lista é tão longa quanto os manuais didático-traidores podem contar. O que fazem, então, os estudantes e pesquisadores do campo da filosofia hoje, se não um primoroso Relações Públicas?

Bradam aos muitos os exércitos do essencial; noutro canto, ferozmente invocam para si os materialistas; noutro, é possível ouvir grunhidos tímidos advindos de outras frentes, assemelhando-se ao verme da humildade que, astuto, encolhe-se, assim diminui a possibilidade de um novo golpe. Nenhum destes, portanto, tem a coragem, aquela necessária ao olhar mais mortal: o olho vivo e gotejante do sangue, dilacerado por veias que urram até o limite de pequenos derrames – o olhar para dentro com sinceridade. Nenhum destes exércitos ousa ir além dos afazeres acadêmicos, das filosofias da produtividade.

Para o inferno com o falar em tom impessoal, fazendo parecer que, desta maneira, o artigo é mais científico. Para o diabo a polidez gramatical, fazendo demonstrar que se parece tão polímata quanto aquela autoridade do pensamento nacional, tão culta, tão reverenciada.

Se Sócrates, Agostinho ou Hume não falaram o suficiente sobre ela, o que estamos fazendo? Dois mil e quinhentos anos falando qualitativamente sobre ela não são suficientes? Uma filosofia que se diz séria deve provocar arrepios de temor e tesão naquele que ousa tenta-la, como a mulher mais bela de uma festa, tão bela quanto poderosa. Quantos ousariam?

Fato deprimente atestado a cada lançamento de um novo número das revistas especializadas da área filosófica, é a maçante masturbação acadêmica em torno de discussões estéreis sobre a aristocracia implícita em Nietzsche, sobre os casos de Marx, sobre o pênis, ou a falta dele em Orígenes. Caricato demais? Talvez não.

Discute-se, sobretudo, por falta de pensantes poderosos, pontos isolados e periféricos na filologia de Heidegger, nos furiosos escritos de Camus – mas para quê? Esclarecer ao modo Aufklarüng? Descobrir ao modo Aletheia ou Veritas? Já se falou o suficiente disto e não creio que eu, com vergonhosas notas, no sul de um país subdesenvolvido irei além dos mestres da história filosófica.

Mas, em resumo, o que é a Filosofia hoje se não um primoroso trabalho de Relações Públicas. Se é que algum dia foi outra coisa, hoje, não restam dúvidas. Se dizem que é a mãe de todas as ciências, sem problemas, mas é possível ir além deste saudosismo? É possível dizer pelas constantes generalizações, analogias e metáforas cansativas mais do que a ciência pode dizer?

A partir dos naturalistas do XVI, a corrente biológica tomou corpo e ganhou maturidade ao longo dos séculos seguintes, o que implicou um gradativo abandono das teses vitalistas ou criacionistas, com justas demarcações do que é especulação e o que é fato. Movimentos similares ocorreram no campo da física e da química, levando a um distanciamento metodológico da filosofia: a mãe de todas as ciências viu seus filhos crescerem, se formarem, casarem e se tornarem autônomos. Por vez ou outra eles a visitam pela nostalgia, mas logo se despedem de sua mãe que só sabe falar de conselhos mofados com o tom “eu sempre te avisei”.

Ao que parece, a Filosofia não tem envelhecido bem e se mostra de maneira vendida no cenário atual. Sua maneira de sobreviver está vinculada às universidades e produção. Um ciclo vicioso, por sua vez ligado aos relatórios e burocracias que dizem garantir um bom uso do dinheiro advindo dos impostos. Na prática, porém, chuta-se uma moita e pulam dez intelectuais muito preocupados com a agenda presidencial; noutra moita, outros muitos intelectuais engajados nas lutas identitárias, que muito nobremente tem sua razão de existir, mas os intelectuais que se prestam as pesquisas deste ramo, efetivamente, o que tem feito? Lives? Twitaços? Quando muito, assinando petições online para o impeachment?

Quantos de nós ainda teriam a coragem, que seja pela tinta da caneta, de no mínimo, falar verdadeiramente, sem temer as consequências de suas palavras? Quantos atuam nas lutas que tanto defendem? Quando Nietzsche constatou a morte de Deus, tratava-se de uma imagem, uma performance, como bom marketeiro que era, constatou a morte também da Filosofia – ou seja, de uma forma de pensamento que assombrou o mundo por milênios. Trata-se da derrocada dos ídolos, dos ideais, das teleologias, do norte ético às civilizações.

Com o passar dos anos, porém, este enterro ao modo cristão (vivendo após a morte) do pensamento antigo, da lógica, da metafísica, da própria crença absoluta na ciência, no direito, permanecem. O niilismo profetizado pelos próximos duzentos anos continua, na medida em que, sem fundamento, sem provas, sem o mínimo de coragem, o ser humano busca a Verdade nas suas mais variadas formas: seja no mito do self made man; seja na promessa do estrelato traduzido por likes; seja nas carreiras acadêmicas.

ARNOLDO G. BENVENUTTI é filósofo (Faculdade São Luiz)

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1 resposta »

  1. Parabéns, Arnoldo. Pura paulada. Sempre me preocupei com o exercicio da filosofia, no quanto possa ser fiel a si mesma, leia-se, os filósofos. Gostei daquela “relações humanas”. É preciso que os filósofos levem o facho erguido, iluminando as inestinguiveis questões que jazem no obscurantismo,
    de hoje, como de sempre.

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