ARTIGOS

Estado funerário: pular carnaval sobre a pilha de mortos

por Luiz Eduardo Cani

Inspirado na música Jesus Negão, do grupo “Libera o badaró” (“Presidiário do Caramuru, a fronteira final… Diário de bordo, data estrelar 3, 4 do 3 do 2 do 1”[i]), também estou fazendo um diário de bordo, mas da pandemia.

O show de stand up de Chico Anísio sobre a Cápsula Espacial Brasileira, chamada de Saci Pererê I, mostra o Brasil como exemplo internacional de uma sociedade desorganizada, estamental e preconceituosa[ii], pois aos que, assim como eu, continuam levando a sério a quarentena, o mundo parece um cenário apocalíptico que mistura vida normal com psicose coletiva.

O que mais chama atenção é o culto à economia – a quarentena me rendeu material para escrever ininterruptamente pelos próximos mil anos. Os economistas assumiram o posto de novos heróis da sociedade brasileira, pertencente, até 2019, aos membros da task force car wash, a tropa de elite nacional do combate à corrupção e ao crime chamada Operação Lava Jato – que, ironicamente, foi vazada a jato e, por isso, passou a ser investigada em outra Operação. Os imperativos econômicos das crises, convertidas em palavras de ordem para nos obrigar a obedecer[iii], chegam ao absurdo de ser utilizados para propor que continuemos a festejar, comemorar e viajar  – e aumentar o número de mortes para fazê-lo.

A mais recente sugestão dos economistas é manter o carnaval no Rio, pois, do contrário, 5,5 bilhões de reais (1,4% do PIB do município) pode ser perdido. Claro que a insinuação não é feita com todas as letras[iv]. A burguesia brasileira sequer tem a coragem dos burgueses cínicos da modernidade. Deixa nas entrelinhas. Faz um “estudo” para confirmar quanto a “economia” perderá, mas é capaz de negar que pretendia aumentar o número de mortos. “Tudo não passou de uma sugestão”. E assim segue o baile.

O que importa mais: 1,4% do PIB de um município ou as vidas das pessoas? Se a pergunta fosse feita para um desses heroicos economistas, a resposta só poderia ser o PIB. Afinal, o PIB é muito importante para redistribuir commodities para as elites nacionais. Contudo, se a pergunta fosse feita para alguém que sabe que o Estado não é uma empresa, que não precisas “dar lucro” e que deveria pertencer a todos ou ser de uma vez destruído, a resposta jamais seria a resposta brasileira.

Poderíamos perder tempo nos questionando: quantas pessoas mais precisam morrer para fazer a felicidade dessa tal de Economia? A pergunta parece pertinente, pois essa Economia é uma senhora sanguinária e insaciável, sempre a querer mais sangue, mais suor, mais vidas. Mas a questão central é que estamos diante da implementação da lógica da funerária (“a sua dor é a nossa alegria”) no Estado brasileiro. Não que antes o Brasil fosse um exemplo de valorização da vida, e nem que a necropolítica não vigesse por aqui, mas estamos diante de um genocídio dos pobres sem precedente, bem como do extermínio potencial de diversas pessoas das elites, ainda que em condições bastante desiguais.

LUIZ EDUARDO CANI é doutorando em Ciências Criminais (PUC/RS), bolsista da CAPES, professor e advogado.


[i]     https://www.vagalume.com.br/libera-o-badaro/jesus-negao.html

[ii]    https://www.youtube.com/watch?v=kXJI_z9DR4c

[iii]   “’Crise’ e ‘economia’ atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. ‘Crise’ hoje em dia significa simplesmente ‘você deve obedecer!’. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.” SALVÀ, Peppe. “Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro” | Entrevista com Giorgio Agamben. Trad. Selvino José Assmann. Blog da Boitempo, São Paulo, 31 out. 2012. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2012/08/31/deus-nao-morreu-ele-tornou-se-dinheiro-entrevista-com-giorgio-agamben/

[iv]   https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,sem-carnaval-economia-do-rio-pode-perder-r-5-5-bi-dizem-pesquisadores-do-ibrefgv,70003613465

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