ARTIGOS

Não bastam as marretadas do padre Júlio Lancelotti

por Eduardo Newton

Arte de Aroeira

Recentemente, diversos canais da mídia veicularam notícias e fotos de um idoso paulistano com uma marreta em suas mãos. De posse dessa ferramenta, ele havia decidido se insurgir contra um modelo de arquitetura urbana excludente. O presente texto visa a examinar, ainda que de maneira embrionária, quais são os outros passos que podem ser dados após a postura assumida pelo padre Júlio Lancellotti.

Contudo, antes mesmo de se embrenhar na trilha que é proposta, é preciso estabelecer limites sobre o que não será abordado com maior afinco nessas linhas, muito embora se mostrem temas interessantes e passíveis de análises pertinentes. O primeiro ponto se relaciona com o uso simbólico do direito penal e o uso instrumentalizado do direito. A partir do reconhecimento dessa realidade, de antemão, é imprescindível afastar qualquer posicionamento que considere o comportamento acolhedor – e nada destruidor – do religioso como próprio de um dano qualificado. A dogmática poderá se debruçar sobre a incidência de uma causa de justificação ou exculpação. Independentemente do enquadramento, há a certeza de que não foi criminosa a conduta praticada pelo clérigo. De outra banda, a conduta assumida por Júlio Lancellotti se encontra perfeitamente inserida na chamada teologia em saída para as periferias. Francisco de Aquino Júnior tece relevantes considerações sobre esse agir voltado para os pobres e marginalizados como lugar teológico, que vai ao encontro pela ideia defendida por Jorge Bergoglio, isto é, uma Igreja pobre e para os pobres.

(…) uma Igreja e uma teologia descentradas de si mesmas, servidoras dos pobres, marginalizados e sofredores; Igreja e teologia misericordiosas: uma Igreja que tem em seu coração os miseráveis deste mundo e uma teologia que se constitui em última instância como ‘intellectus misericordiae’”[i].

Após a apresentação dessas duas temáticas relevantes que poderão ser aprofundadas pelos especialistas nos temas, é então preciso problematizar sobre os próximos passos voltados para a gestão pública da cidade, mas, principalmente, de como pensar e obter uma modificação da realidade.

André Comte-Sponville relaciona a coragem com um fator ético, tal como é verificado no seu pensamento transcrito nas linhas abaixo. Padre Júlio Lancellotti se mostrou verdadeiramente corajoso e é preciso seguir essa virtude.

Em resumo, embora sempre estimada, de um ponto de vista psicológico ou sociológico, a coragem só é verdadeiramente estimável do ponto de vista moral quando se põe, ao menos em parte, a serviço de outrem, quando escapa, pouco ou muito, do interesse egoísta imediato.”[ii]

Para a continuação dessa jornada exemplar é imperioso compreender a realidade existente, pois, dessa forma, se mostrará possível afastar uma leitura que trate a situação que gerou a indignação de padre Júlio como episódica, o que não é verdade, vide o tratamento conferido pelo então prefeito João Dória à população em situação de rua da cidade de São Paulo.

Essa análise, portanto, precisa levar em consideração a atual razão hegemônica, isto é, o neoliberalismo, sob pena de qualquer insurgência se contentar com a instituição de políticas assistencialistas. Nessa nova realidade, há uma verdadeira domesticação da política pelo fenômeno econômico. Como consequência dessa estruturação, todo um conjunto de promessas da modernidade são silenciadas, sendo certo que, para tanto, é utilizado o discurso dos custos.

A partir da hegemonia do neoliberalismo, o Brasil consegue chegar na dita pós-modernidade sem jamais ter sido completamente moderno para parcela significativa da população. No que veio a ser denominado como Estado Pós-democrático por Rubens Casara[iii], é acirrado um processo histórico que impede consolidação de uma plena cidadania, tal como já havia sido denunciado no século XX por obra já clássica José Murilo de Carvalho:

A parcela da população que pode contar com a proteção da lei é pequena, mesmo nos grandes centros. Do ponto de vista da garantia dos direitos civis, os cidadãos brasileiros podem ser divididos em classes. Há os de primeira classe, os privilegiados, os ‘doutores’, que estão acima da lei, que sempre conseguem defender seus interesses pelo poder do dinheiro e do prestígio social (…) Ao lado dessa elite privilegiada, existe uma grande massa de ‘cidadãos simples’, de segunda classe, que estão sujeitos aos rigores e benefícios da lei. São a classe média modesta, os trabalhadores assalariados com carteira assinada, os pequenos funcionários, os pequenos proprietários urbanos e rurais (…) Finalmente, há os ‘elementos’ do jargão policial, cidadãos de terceira classe. São a grande população marginal das grandes cidades (…) Na prática, ignoram seus direitos civis ou os têm sistematicamente desrespeitados por outros cidadãos, pelo governo, pela polícia. Não se se sentem protegidos pela sociedade e pelas leis.”[iv]

A cidade, na razão neoliberal, deixa de ser o local do espaço público, que comportaria todos e passa a ser unicamente sítio para a especulação imobiliária. Quem não pode participar desse balcão de negócios deve fixar sua residência em locais mais afastados e degradados ambientalmente. À pessoa em situação de rua – o integrante da terceira classe indicada por José Murilo de Carvalho –, até mesmo em razão de sua penúria econômica que o impede de se estabelecer nas periferias, favelas e comunidades, resta viver na sarjeta. A questão é que seu comportamento é tido como desafiador, próprio de um rebelde a querer se materializar um estorvo para a lógica do capital. Daí, a necessidade de barreiras para que nem mesmo os viadutos possam servir de lar.

O passo a ser dado além da marretada consiste na assunção de uma postura crítica ao neoliberalismo. A crítica sem a ação não basta. Um novo modo de pensar e, principalmente, agir se impõe, pois, somente assim, será possível superar uma cultura do descartável frente a maioria da população.

Para tanto, é preciso romper corajosamente – e se mostra corajosa a ruptura porque tem em mente o outro – com o triunfalismo assumido pelo capitalismo após a derrocada do socialismo de estado. Novas narrativas devem ser construídas de forma coletiva, sendo certo diversos novos sujeitos e movimentos poderão participar dessa elaboração coletiva, que, em síntese, visa impedir o extermínio da raça humana.

Até o presente momento em que uma racionalidade técnica e instrumental prevalece, não se tem dado a devida atenção para a figura do cuidado. As marretadas de Júlio Lancellotti foram um chamamento para um novo paradigma civilizatório, que não mais permitirá que pessoas vivam sob viadutos. Essa impossibilidade não se dará em razão da arquitetura, mas sim porque o direito social à moradia e tantos outros direitos fundamentais não serão mais regidos pela lógica economicista, mas pela primazia do cuidado.

Para a elaboração desse novo modelo civilizatório em que o cuidado ganhará uma relevância desconhecida até agora, a inspiração do pensamento de Leonardo Boff se mostrará de grande valia.

Importa colocar o cuidado em tudo. Para isso urge desenvolver a dimensão ‘anima’ que está em nós. Isso significa conceder direito de cidadania à nossa capacidade de sentir o outro, de ter compaixão com todos os seres que sofrem, humanos e não humanos, de obedecer mais a lógica do coração, da cordialidade e da gentileza do que à lógica da conquista e do uso utilitário das coisas.”[v]

Os grupos vulnerabilizados muito poderão contribuir com a elaboração desse novo paradigma, que terá no cuidado a sua grande forja e, enfim, poderá superar um horizonte que é apresentado como definitivo pela razão neoliberal.

Marck Hathawat e Leonardo Boff apresentam os agires que são próprios do profeta e do visionário:

(…) a ação profética que critica e desafia os fundamentos do sistema e, assim, leva-o a atingir um ponto de bifurcação e de transformação radical. Já o visionário tenta iniciar novas tendências e experimenta novas maneiras de realizar um novo paradigma (…)”[vi]

Padre Júlio Lancellotti, ao se rebelar contra um modelo de gestão excludente da sociedade, mostrou todo o seu agir profético e clamou para que a sociedade acordasse do seu quadro de inércia. É pela crítica e superação do neoliberalismo que se mostrará possível construir um novo paradigma civilizatório. Ainda que nãos tenha como traçá-lo em detalhes, é sabido que o cuidado impregnará a sua construção coletiva. Aliás, quando se volta para o cuidado é que também se depara com o agir visionário do padre Júlio, pois retornou aos espaços de exclusão com flores. O simbolismo do seu gesto serviu para indicar a necessidade de acolhimento de todos. Nesse novo modelo de estruturação, a técnica servirá para celebrar todas as vidas e deixará de ser elemento de morte e obtenção única de lucro.

EDUARDO NEWTON é mestre em direito pela UNESA e Defensor Público no estado do Rio de Janeiro/RJ


[i] AQUINO JÚNIOR, Francisco. Teologia em saída para as periferias. São Paulo: Paulinas, 2019. p. 18.

[ii] COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p. 54.

[iii] CASARA, Rubens. Estado pós-democrático. Neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

[iv] CARVALHO, José Murilo. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 15. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. pp. 215-126

[v] BOFF, Leonardo. Saber cuidar. Ética do humano – compaixão pela terra. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 118.

[vi] HATHAWAY, Mark & BOFF, Leonardo. O tao da libertação. Explorando a ecologia da transformação. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 472.

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