ARTIGOS

Os mimados que transgridem o isolamento

por Liliane Pimentel

Enquanto uma vacina eficaz contra a pandemia não vem, observamos os efeitos do covid-19 na coletividade e como, individualmente, cada um (re)age. 

Um ponto interessante que tem me instigado nesse período é o prazer dos sujeitos em transgredir as recomendações de isolamento social quanto aos cuidados a fim de conter a transmissão do vírus. Enquanto alguns seguem à risca os cuidados, outros experimentam – não em negação, mas em ato -, o prazer de quebrar a recomendação de especialistas.

A castração, estruturante dos sujeitos neuróticos parece não operar. Como se a lei não fizesse a contenção necessária. A regra é burlada. O prazer de transgredir sobrepõe-se ao desprazer de viver esse momento de isolamento social e privação da rotina. 

No entanto, após a transgressão, também há o sentimento de culpa por transgredir. Uma culpa confessada quase com um sorriso de prazer. Como quem confessa: fiz, não me arrependo, gostei, porém, não deveria, mas pode ser que eu faça novamente. 

Há aqueles que saem para passear com os pets, para tomar sol, passear com as crianças. As justificativas são quase tão convincentes quanto uma criança justificando por qual motivo comeu doce escondido antes da refeição principal. Enquanto a criança ainda não possui os recursos psíquicos para se autoregular, necessitando da mediação de um adulto. Parece que estamos a lidar com adultos pequenos polimorfos incapazes de colocar em sentido uma recomendação simples: mantenha-se em isolamento social. Ora, psicoterapeutas de orientação psicanalítica estão advertidos de que no divã quando um homem adulto ou uma mulher adulta fala há ali resquícios da criança que um dia foi. Assim, o que os atos observados têm a dizer sobre o posicionamento dos sujeitos na sociedade? 

Resgato aqui a máxima de ser uma gota no oceano, considerando que se cada um fizer uma parte, o mundo será um lugar melhor. Contudo, também vale considerar se realmente é desejoso um lugar melhor ou se é preferível manter a posição infantil de esperar que apareça alguém em posição de salvar a todos, como um grande pai herói. Posição essa, atribuída aos governantes. 

Enquanto isso, espera-se que seja encontrada a vacina, como se esta pudesse livrar a todos do grande mal do momento, inclusive, liberando-nos de rever a postura ética social. Espera-se que tudo isso passe. Como na música de jota quest: vivemos esperando dias melhores, dias de paz, dias a mais. Vivemos esperando, talvez seja esse o maior mal: esperar sem fazer por onde.

LILIANE PIMENTEL é psicóloga clínica, psicanalista em formação e especializanda em psicanálise (UNIFEBE/HSC)

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