ARTIGOS

Entre a vida e a economia: a falsa dicotomia bolsonarista

por Léo Rosa de Andrade

Coronavírus. Escolhas. Qualquer delas será trágica. Situação dilemática. Dilema: “Situação embaraçosa com duas saídas difíceis e penosas” Aurélio. “Necessidade de escolher entre duas saídas contraditórias e igualmente insatisfatórias” Houaiss. Qualquer de seus termos leva às mesmas consequências.

Eis o estado do mundo: toda e qualquer decisão que os governantes tomaram ou venham a tomar sobre a contenção do coronavírus conteve ou conterá uma dimensão sinistra: cuidar mais da saúde ou cuidar mais da economia? A consequência foi ou será a mesma: perdas humanas e perdas econômicas.

Não há uma boa escolha que os governantes, por negligência, imprudência ou imperícia, estejam desconsiderando. A situação não oferece uma escolha certa contra um errada, mas a escolha que pareça menos gravosa. As decisões pelo mundo, pois, são as de mitigar perdas. Política do mal menor.

Dentre as perdas – não há ganhos – o mundo decidiu sofrer as econômicas. Não se está, contudo, desconsiderando o impacto, inclusive na saúde geral da população, que as perdas econômicas trarão. Quer dizer, não se estão opondo dois valores, mas se tomando a decisão menos desastrosa.

Fernando Schüler (Insper): “É uma falsa dicotomia, típica de nosso debate político polarizado, imaginar que exista uma contradição entre ‘salvar vidas’ e ‘proteger a economia’”. Cita Thomas Friedman “O emprego e a saúde geral da economia é também um tema de saúde pública”.

Explicitando que economia importa a todos, interroga: “Que fazer se a taxa de desemprego no país aumentar em 50% e outros 4,5% de cidadãos somarem-se aos atuais 13,5 milhões de brasileiros em condição de miserabilidade? Que danos e quantas mortes isso irá produzir?” (FSP, 26mar20).

A explicitação de que as pessoas sensatas (e, claro, os governos, têm em conta os danos econômicos e suas consequências sociais é necessária, para que aqueles que consideram que o vírus que nos assola a vida é uma “manobra comunista” reflitam sem a paixão odienta que lhes tomou em possessão.

É que o mundo vai numa direção enquanto aqui a direita ignorante, religiosa e reacionária (o que não é apanágio de todo conservador) pretende ir noutra. Mas, ora, se a China e a Europa sofreram antes de nós essa invasão virótica, sua experiência – erros e acertos – nos é, evidentemente, útil.

Assim, a considerar: “O isolamento apenas de idosos e pessoas com doenças prévias, chamado pelo presidente Bolsonaro de ‘isolamento vertical’ foi tentado em países europeus […] e abandonado quando o crescimento rápido do número de doentes passou a ameaçar de colapso o sistema de saúde.

A preocupação com o impacto econômico da quarentena também atrasou a decisão de governantes europeus, mas a maioria deles adotou restrições mais duras após ficar evidente a gravidade na Itália, que decretou confinamento no país todo” (Ana Estela de Souza Pinto, FSP, 26mar20).

Cá entre nós, “Ao defender o isolamento só daqueles do chamado grupo de risco, como idosos e portadores de comorbidade, na epidemia do Covid-19, Jair Bolsonaro atropelou de maneira desastrada o que alguns membros da comunidade médica no Brasil já discutem nos bastidores.

Profissionais da linha de frente do enfrentamento da epidemia dizem que isso seria catastrófico agora, enquanto o país se prepara para o pico de casos. Mas é uma possibilidade a ser discutida mais à frente, desde que algumas medidas sejam adotadas antes e premissas, consideradas.

Para a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, “É inquestionável que se fazem necessárias medidas responsáveis para evitar o colapso da economia. A entidade acrescentou que apoiará ações do governo no sentido da liberação ‘no momento correto’” (Fernando Canzian, FSP, 26mar20, editado).

Essas decisões não são articulações conspiratórias “esquerdopatas”, como vocifera o bolsonarismo militante. O mundo científico está ciente de que “Medidas de isolamento social apressaram o controle do vírus em Wuhan, mostra estudo do Coentro de Modelos Matemáticos de Doenças infecciosas.

Chamadas de ‘histeria’ pelo presidente Bolsonaro, as restrições podem reduzir em até 92% a gravidade que a epidemia teria se nada houvesse sido feito, e em 24% a gravidade esperada para o final do ano, calculam cientistas da London School of Hygiene and Tropical Medicine” (FSP, 26mar20).

“Prudência, e não histeria, explica por que todos os países europeus fecharam suas escolas para conter a pandemia de coronavírus. A ciência – e a realidade dos países em estágio mais avançado da pandemia contradizem afirmações do presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento (24mar).

Ao desdenhar de medidas que mais de uma centena de governos [sobretudo de países desenvolvidos] já tomou para proteger sua população, o presidente mostra ignorar evidências que têm sido repetidas por especialistas em contenção de doenças transmissíveis em todo o mundo.

Sem medidas drásticas que reduzam contágios, os hospitais entram em colapso, mesmo nos países mais ricos. Já ocorrem mortes porque é preciso escolher quais pacientes serão internados em UTIs, além de mortes por outras doenças, devido a hospitais lotados e equipes médicas desfalcadas.

O mundo está mostrando que, sem ações cientificamente embasadas, competentemente desenhadas, coordenadamente aplicadas e corretamente comunicadas, mais empregos serão destruídos, mais famílias perderão seu sustento e mais tempo levaremos para voltar à normalidade.

O fechamento de escolas, lojas, fábricas e escritórios tem impacto econômico e social. São fechadas no mundo todo (de preferência com planos de redução de danos) justamente para que, passado o inevitável desastre, a vida possa continuar” (Ana Estela de Souza Pinto, FSP, 26mar20, editado).

Bolsonaro, todavia, “desdenha da crise. A maior parte do seu discurso na TV continha inverdades que refletem ignorância. O desprezo do presidente pelas recomendações de especialistas não tem precedentes na história recente do País” (Steven Levitsky, Harvard, Estadão, 29mar20, editado).

Indagado se o presidente está preparado para o desafio, Martin Wolf, comentarista-chefe de economia do Financial Times, responde: “Não conheço pessoalmente o senhor Bolsonaro, que parece ser um populista de extrema direita, ignorante e preconceituoso” (Luciana Dyniewicz, Estadão, 22mar20, editado).

Consequências: tivemos “uma explosão de registros de internação de pessoas com insuficiência respiratória grave depois da primeira notificação de paciente com coronavírus no Brasil, indicam dados da Fiocruz. O número é dez vezes maior do que a média histórica” (Mônica Bergamo, FSP, 27mar20).

Sensatez no governo: “O ministro Luiz Mandetta (Saúde) advertiu Jair Bolsonaro e ministros durante reunião tensa ontem, se morrerem mil pessoas, será o correspondente à queda de quatro Boings. Ele fez apelo para que o presidente crie ‘um ambiente favorável’” (Eliane Castanhêde, Estadão, 29mar20).

Isso, não obstante Bolsonaro cobrar de Mandetta fala política sobre o coronavírus. “Presidente avalia que pasta da Saúde gera histeria e defende mudança de tom, cobrando do ministro adoção de um discurso mais afinado ao do Planalto” (Gustavo Uribe e Natália Cancian, FSP, 18mar20, editado).

A prudência dos políticos: “Maioria dos estados [e dos municípios] ignora Bolsonaro e mantém medidas de contenção. Apesar de apelo do governo federal para a retomada das atividades, poucas foram as mudanças (FSP, 28mar20). João Dória: “Quem será o fiador das mortes?” (FSP, 28mar20).

O Judiciário conteve Bolsonaro. A Justiça Federal determinou a suspensão da campanha O Brasil não pode parar, que pregava a volta do brasileiros ao trabalho. Após repercussão negativa, o governo, que agora nega ter divulgado as peças, apagou publicações com o slogan postadas nas redes sociais.

Contudo, “Jair Bolsonaro permanece alheio aos sinais do tempo. Seu último discurso à Nação (24mar) foi uma provocação recheada de platitudes, mentiras e agressões. Nenhuma grandeza, nenhuma generosidade, a mesma falação colérica de sempre. Em vez de confiança, provocou insegurança.

Sua intervenção não se deve só ao baixo nível a uma instável condição emocional. Há cálculo nela. O olhar repousa em 2022 e no esforço para recuperar o capital político. É cálculo rasteiro repleto de espasmos de ódio, mesquinharia e paranóia, narrativa e ideologia. Torpedeia o bom senso.

Criar confusão é uma manobra contra a democracia. Todo autoritário gosta de respirar o ar beligerante. Não é diferente com Bolsonaro. O foco é confundir a população, desorganizar os sistemas, passar por vítima, para que se fomente a expectativa de que apareça a figura sinistra do ‘salvador’.

O presidente parece acuado e se deixa guiar pelas áreas mais extremada de seu núcleo principal, o ‘gabinete do ódio’” (Marco Aurélio Nogueira, Estadão, 28mar20, editado). Assim me parece ser. E mais: o ódio destilado por Bolsonaro cala nas entranhas da Nação. Estamos uma Nação em casa, cultivando rancor.

LÉO ROSA DE ANDRADE é psicanalista, professor universitário e doutor em direito (UFSC)

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