ARTIGOS

Pandemia e síndrome do bom moço

por Felipe da Veiga Dias

A pandemia que sofremos gera múltiplas reações e consequências, além das obviedades da mortalidade. Um desses efeitos seria expor o nosso modo de vida como algo a ser questionado pelo seu caráter insustentável, já que evidências apontam para o fato de que a devastação ambiental ao atingir habitats animais acaba ampliando as possibilidades de transmissão de doenças entre eles e os seres humanos[1].

Porém, outra reação evidente se dá por uma síndrome que ataca os brasileiros de forma clara, até mesmo transparente (no sentido do vazio atribuído por Han)[2], que intitulo aqui como a Síndrome do “Bom Moço”. Essa produz como resposta aos problemas enfrentados a ideia de uma solidariedade global e alienada, apelando a compreensões de mundo oriundas de tempos remotos, ou seja, clamando por uma neutralidade inclinada ao nacionalismo em que não existem lados, ideologias, política ou qualquer campo de luta social (somos todos brasileiros e, portanto, estamos juntos na canoa furada), devendo-se focar apenas na causa primordial: a luta contra o vírus.

Segundo os acometidos por tal síndrome as pautas de partes da sociedade (debates acerca de questões políticas, raciais, gênero, classe, etc.) seriam descartadas nesse momento, já que o que importa é o bem-estar da nação – seja lá o que isso signifique em um mundo neoliberal de controle tecnológico-globalizado. O mantra básico proclamado nas redes sociais e no mundo digital é “não pode torcer contra” (repetido desde a última eleição – por pessoas e Bots), de modo a indicar que, por mais estúpida e anticientífica que sejam as atitudes, conspirações, fake news, desinformação ou mesmo um pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro e seus asseclas, devemos apoiar.

O “Bom Moço” busca agradar a todos e todas ao mesmo tempo, fazendo o que popularmente chamamos de “passar pano”, ou quase o que conhecemos juridicamente como uma cegueira deliberada, em uma permissividade assustadora para práticas e discursos inaceitáveis (veja a inatividade geral dos enxames digitais dos “bons moços” brasileiros após um discurso inspirado no nazismo), mesmo em um país democrático.

Logicamente que alguns desses comportamentos são explicados pelo modelo neoliberal e suas tecnologias, no qual os sujeitos realizam como marketing pessoal (empreendedores de si mesmos)[3] o fato de que seriam os “bons moços” (o que alguns poderiam entender até mesmo como o equivalente ao “cidadão de bem”), ainda mais quando se pensa em pessoas que dependem de likes, compartilhamentos, seguidores e corações para ganhar dinheiro no mercado online. Ou ainda se poderia mencionar os pesquisadores/professores que parecem estar determinados a não criticar ou se incompatibilizar com ninguém (nem com seus pares), executando trabalhos inócuos, genéricos (otimismo unidimensional – ignorando os efeitos negativos e a complexidade dos temas que estudam) e que contribuem em quase nada com a ciência, enquanto garantem a possibilidade de verbas futuras por não importunar nenhuma vertente de pensamento crítico (seja ele acadêmico, ideológico ou político).

Porém o que se torna preocupante é até onde irá o limite desse comportamento coletivo? Até quando parte da população irá negar a ciência-realidade e optar por fantasias conspiratórias ou fakes criadas em bolhas de WhatsApp e Redes Sociais? Quem sabe isso ocorra somente com o choque pandêmico, gerando a percepção de que criticar e discordar (fundamentadamente) compõem um país democrático, enquanto os discursos discriminatórios e fascistas do inimigo não. Mas, para tanto, é preciso: sair do muro da união nacionalista; deixar a posição da suposta neutralidade; abandonar a ideia da torcida de governo; entender a relevância da ciência, crítica, discussão e pleito dos grupos de uma sociedade desigual. É imperioso que o “bom moço” aceite que sua posição é o que permitiu e ainda permite o comando de um demagogo autoritário e que joga com a vida humana; carecemos que a pandemia gere mudanças de racionalidade/pensamento em prol de ações e da real defesa da democracia.

Em tempos de pandemia o “bom moço” aceita a morte dos outros como uma fatalidade perdoável. Não há mais espaço para tal síndrome e seus acometidos, o tempo da passividade se acabou, pois, ela se traduz em morte do corpo, da mente e da alma humana.

FELIPE DA VEIGA DIAS é pós-doutor em Ciências Criminais (PUC/RS) e professor universitário (PPGD/IMED)


[1] ONU-BR. https://nacoesunidas.org/surto-de-coronavirus-e-reflexo-da-degradacao-ambiental-afirma-pnuma/amp/

[2] HAN, Byung-Chul. Sociedade da transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.

[3] FOUCAULT, Michel. Segurança, Território, População. Curso do Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

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