ARTIGOS

O que você não percebe quando critica Maju Coutinho

por Adilson José Moreira

Algumas pessoas chamaram a minha atenção para outro caso de racismo recreativo. Um indivíduo chamado Rodrigo Branco fez comentários racistas em tom de chacota sobre duas mulheres negras. Segundo ele, elas adquiriram notoriedade porque são negras, posição que reflete a ideia de que elas não teriam qualquer projeção se fossem submetidas a uma análise de cunho meritocrático, motivo do seu completo desprezo por elas.

Não me preocupo mais em me pronunciar sobre acontecimentos dessa natureza porque escrevi uma obra que explica de forma pormenorizada a dinâmica cultural e psicológica por trás desse tipo de comportamento. Mas quero tecer algumas considerações sobre esse caso específico de racismo porque ele expressa um aspecto muito curioso da fala de várias pessoas brancas brasileiras, elemento que tem sido reproduzido em inúmeras decisões judiciais e também no discurso de autoridades públicas: a ignorância real ou estratégica do papel central do privilégio branco no processo de distribuição de recursos e oportunidades na sociedade brasileira.

Muitas pessoas brancas que sempre se beneficiam do nepotismo, do clientelismo e do favoritismo pressupõem que elas e todas as pessoas brancas estão no lugar que estão por serem competentes; o fato de serem brancas significa necessariamente que elas merecem ocupar suas funções. Assim, essa retórica permite que homens brancos e mulheres brancas profundamente incompetentes acreditem que eles estão em posições de destaque porque são realmente capazes. Muitos deles e muitas delas estão entre os mais ferozes opositores de medidas de inclusão racial, sempre argumentando que uma sociedade só deve distribuir oportunidades e recursos por meios meritocráticos. Devemos então compreender o que é o privilégio branco e como ele opera para beneficiar todas as pessoas brancas de maneira sistemática. Utilizarei um caso extremo para que sua operação fique muito clara.

Assisti algumas semanas atrás um documentário sobre a vida de Ted Bundy, um dos mais sanguinários assassinos em série da história, um indivíduo responsável pela morte por esquartejamento de dezenas de mulheres. O penúltimo episódio analisa o julgamento que o condenou a morte e menciona um fenômeno curioso: a presença de várias mulheres brancas ao longo de todo o processo, algumas delas claramente flertando com um homem sendo acusado de assassinatos em massa.

Entrevistadas, elas disseram que não podiam acreditar que um homem alto, bonito e de olhos azuis profundos pudesse ser responsável por aquelas mortes bárbaras. Elas diziam isso apesar de terem conhecimento das provas conclusivas apresentadas pelos promotores, sendo que algumas delas mantiveram a opinião mesmo depois de Bundy ter confessado a autoria dos assassinatos, muitos com um grau tremendo de perversidade. Vários órgãos da imprensa, entidades totalmente controladas por pessoas brancas, entrevistaram Bundy ao longo de seu julgamento e durante o período no qual aguardava sua execução, todos interessados em saber o que teria dado errado com aquele belo homem branco que parecia “um de nós”. O comportamento do juiz que conduziu o caso é perturbador: ele praticamente pediu desculpas para aquele homem branco por estar o sentenciando à morte seguindo a decisão do júri. Ele disse que tinha grande admiração por ele e que lamentava que um homem como ele tivesse perdendo a vida.

O caso mostra então algumas coisas interessantes. Você pode ser um assassino em série, as autoridades podem apresentar provas da sua natureza pérfida, mas muitas mulheres brancas ainda estarão convencidas de que você é um parceiro sexual aceitável porque elas se recusam a considerar a ideia de que um homem branco bonito possa ser uma pessoa maléfica.

A mesma imprensa que classifica homens negros que roubam supermercados para comer como delinquentes incorrigíveis, como pessoas que merecem a maior pena possível, olha para um assassino sanguinário com empatia e garante a ele a possibilidade de explicar seus atos criminosos. Você pode ser um assassino em série, mas o sistema judiciário te tratará como um indivíduo especial e lamentará sua execução, mesmo com provas inequívocas da autoria das suas atrocidades.

Bem, se isso ocorre no julgamento de um homem branco que assassinou e esquartejou dezenas e dezenas de mulheres, o que acontece então em situações corriqueiras como, por exemplo, uma entrevista de emprego? Um vídeo sobre racismo institucional do governo do Paraná responde essa pergunta.

Profissionais brancos de recursos humanos foram convidados para participarem de um experimento no qual deveriam fazer comentários sobre pessoas em situações corriqueiras. As falas desses profissionais brancos seguem um padrão muito claro: a descrição da foto muda completamente de acordo com a raça da pessoa. Uma mulher branca com uma lata de tinta na mão é uma grafiteira, uma artista. Uma mulher negra na mesma situação é uma pichadora, uma delinquente. Um homem branco vestido de terno é um executivo, um homem negro vestido com a mesmíssima roupa é um motorista. Um homem branco correndo está se exercitando, um homem negro com a mesma roupa e na mesma pose é um ladrão.

O experimento mostra algo muito importante para a demonstração das formas como o privilégio branco opera como uma fonte permanente de vantagens sociais. Pessoas brancas estão sempre atribuindo características negativas a pessoas negras, características que a vasta maioria delas não possui e elas também estão sempre atribuindo qualidades positivas a pessoas brancas, qualidades que a vasta maioria das pessoas brancas certamente não possuem em maior grau do que indivíduos de outras raças. Isso ocorre porque pessoas brancas são culturalmente treinadas para reconhecerem qualidades positivas apenas em pessoas brancas, mesmo quando elas não as demonstram. Isso significa que aqueles profissionais brancos de recursos humanos impediram milhares de pessoas negras de terem acesso a oportunidades profissionais, oportunidades que foram destinadas a pessoas brancas, sendo que muitas delas não eram devidamente qualificadas.

Esses falsas pressuposições sobre as qualidades morais de pessoas brancas não operam apenas no campo profissional. Eu morei nove anos em Massachusetts, o estado norte-americano com a maior concentração de imigrantes brasileiros daquele país. Atuei durante algum tempo como voluntário em uma instituição que organizava campanhas de conscientização para a prevenção de contaminação de doenças sexualmente transmissíveis. Nós nos reuníamos quinzenalmente e durante esses encontros eu ouvi os seguintes relatos feitos de voluntários brancos sobre as falas de muitos homens brancos e mulheres brancas heterossexuais e homossexuais que eles atendiam: “

Olha, eu sei que é importante usar camisinha e tal, mas eu não faço sexo com negros ou hispânicos”;

“Pô, mas é aquela coisa, você olha para menina branquinha, bonitinha, loirinha e você vê que ela tá limpa”;

“Ah, mas é aquele negócio. Você vê aquele americano loiro, de olho verde dirigindo uma Escalade e você vai pensar em camisinha? Você sabe que ele não ele não tem problema porque ele não transa com qualquer um.”

Essas não são apenas presunções absurdas de pessoas brancas que não têm informações adequadas sobre cuidados médicos. Essas falas expressam a atitude cotidiana da vasta maioria de pessoas brancas que, por exemplo, vão para baladas a procura de parceiros ou parceiras sexuais. Elas chegam em um bar, olham para uma pessoa branca, elas partem do pressuposto que ela deve ser uma pessoa boa por ser branca, que ela deve ser de classe média e que ela deve ser uma boa amante porque, além de ser branca, também é bonita. Elas acham então que podem sair daquele local e ir para um motel que nada de negativo poderá ocorrer com elas, mesmo não sabendo absolutamente nada sobre aquela pessoa.

O fato de um homem ser branco e bonito significa que ele é um parceiro sexual ideal. Se, por um lado, muitas mulheres brancas partem do pressuposto de que todos os homens negros são uma ameaça e atravessam para o outro lado da rua, por outro, muitas delas acreditam que podem sair de um bar com belos homens brancos altos, bonitos e de olhos azuis. Elas estão certas que não correrão o racismo de serem ofendidas, agredidas, contaminadas ou assassinadas. E essa presunção parte da raça do parceiro sexual. Ser bonito significa necessariamente ser bom, significa necessariamente ser honesto, ser companheiro e ser bom amante.

Quanto mais próximo do ideal ariano de beleza que os brasileiros cultuam obsessivamente, maiores serão as possibilidades de você ter uma vida sexual, quanto mais retinta for a cor da pele de uma pessoa, menores serão as chances dela ter respeitabilidade no plano profissional ou afetivo.

Devemos nos perguntar:  a postura racista expressa por Rodrigo Branco simplesmente brotou na cabeça dele? Certamente não. Ele foi criado em uma sociedade na qual 99,99% de todas as produções culturais retratam apenas pessoas brancas. Ele vive em uma sociedade na qual 99,99% de todos os filmes e de todas as novelas têm homens brancos heterossexuais como protagonistas sociais. Esse fato influencia estruturalmente a forma como pessoas brancas percebem a si mesmas, como elas percebem o próprio valor e também a qualificação, os lugares e funções que pessoas de outras raças devem desempenhar.

Pessoas brancas racistas pensam que negros só podem estar em lugares subalternos porque elas aprendem desde o dia que nascem até o dia que morrem que apenas pessoas brancas podem desempenhar funções sociais de maneira competente. A presença hegemônica de pessoas brancas nos meios de comunicação representa uma política cultural que almeja justificar arranjos sociais específicos. Por esse motivo, mulheres negras não podem estar em lugares de poder e prestígio porque são pessoas naturalmente inferiores.

Essa não é apenas a lógica que anima a fala de homens brancos racistas, indivíduos que sentem seus privilégios ameaçados com a demonstração de competência de mulheres negras. Essa é a mesma lógica por trás dos profissionais de recursos humanos que são culturalmente treinados para só identificar habilidades profissionais em pessoas brancas, mesmo naquelas que são menos qualificadas.

Esse treinamento cultural é uma fonte permanente de privilégios raciais. Eles estão presentes em todas as instâncias sociais e garantem vantagens estruturais a todas as pessoas brancas sem nenhuma exceção. O fato de uma pessoa ser branca significa que ela não pensará em abandonar a escola em função da sua raça, que ela fará amigos nesse ambiente porque as outras pessoas já partirão do pressuposto de que ela é uma pessoa boa e que ela tem coisas e características em comum com elas, que ela poderá fazer parte dos círculos de poder que controlam o acesso a oportunidades educacionais e profissionais.

O fato de uma pessoa ser branca significa que os outros não se recusarão a sentar ao lado dela no metrô, que as pessoas não evitarão contato visual com ela, que as pessoas serão cordiais com ela, que as pessoas acharão que ela é sexualmente atraente, que ela não será seguida em todos os lugares, que ela não será assassinada pela policia por estar dirigindo um carro, que ela tem bom caráter, que ela será beneficiada profissionalmente mesmo quando não possuir todas as habilidades necessárias para o desempenho de uma função.

É óbvio que muitas pessoas brancas estão no lugar que estão porque merecem, mas isso também decorre do fato de que a raça nunca operou como um empecilho para a afirmação profissional delas. É óbvio também que muitas delas estariam nesses lugares mesmo se não demonstrassem ter o nível de competência que possuem. O escrutínio sobre competência pessoal só é dirigido a pessoas negras porque elas precisam provar o tempo inteiro que merecem estar nesses lugares e a presença delas será questionada mesmo quando são expoentes de capacidade profissional. Aliás, essa é exatamente essa a situação na qual elas serão mais atacadas. Quanto maior for o sucesso de Maju Coutinho, maior será o número de seus detratores e detratoras.

Qualificação e competência têm pouca relevância em uma sociedade historicamente baseada no nepotismo, no clientelismo e no favoritismo. Possuo dois doutorados, dois mestrados e duas graduações, títulos obtidos nas melhores instituições de ensino superior do Brasil e do mundo e já fui preterido várias vezes por pessoas brancas muito menos qualificadas do que eu, duas vezes por pessoas brancas que tinham acabado de concluir o mestrado.

A ação conjunta do racismo e do sexismo impede que profissionais da mais alta competência estejam nos lugares como os que Maju Coutinho ocupa, a mesma sociedade que celebra pessoas brancas medíocres todos os dias.

ADILSON JOSÉ MOREIRA é doutor em direito constitucional pela Universidade de Harvard, advogado e professor da Universidade Mackenzie

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