ARTIGOS

Além do prazer… da leitura

por Paulo Silas Filho e André Amarante

Dentre as tantas possibilidades que se abrem quando a questão é “o que se fazer com o tempo ocioso?”, a leitura é uma delas. Costuma-se utilizar a falta de tempo como desculpa para a não leitura. Bobagem. Esse subterfúgio esquivo é uma mentira contada por aquele que a utiliza com o possível fito de apontar para uma razão de sua inércia para com o ato de ler, bem como para se sentir melhor. O mentiroso acaba acreditando na própria mentira, convencendo a si próprio e aos outros que o cotidiano turbulento de sua vida é o fator responsável para a ausência de leitura como hábito. Assim, seja por se tratar de pessoa incauta ou ardilosa, segue-se bem consigo mesmo diante da justificativa pronta para com a não leitura.

Esse cenário geral acaba se desdobrando em outros tantos, dentre os quais está aquele que é constituído por quem se vale de leituras fáceis, rasas e superficiais. É que “na era do empobrecimento da linguagem, não há espaço para a negatividade que é condição de possibilidade tanto da dialética quanto da hermenêutica mais sofisticada. Tudo se apresente como simples para evitar conflitos”. (CASARA, 2018, p. 90-91). O simples acaba assim servindo como um escudo, como espécie de alternativa à possibilidade da desculpa da falta de tempo, conferindo ao indivíduo um sanar da cobrança, própria e de terceiros, com relação à necessidade de leitura. Lê-se, qualquer coisa que o seja, para que assim se possa dizer que a leitura faz parte de sua vida, do seu cotidiano, do seu dia a dia.

Poderíamos argumentar que “antes leitura superficial do que nenhuma leitura”, pois assim ao menos a prática do ato de ler estaria sendo procedida. Entretanto, a questão não é tão simples assim. Ler, ler de verdade, é um ato complexo que exige atenção, esforço, dedicação, prática. A própria constatação desse fato já é suficiente para que o incômodo pelo “sentir-se contrariado” surja – dizendo-se aqui daqueles que julgam que as leituras fáceis são suficientes para fornecer algo concreto que possibilite uma melhor compreensão das coisas em geral. É que “o empobrecimento da linguagem gera o ódio direcionado a quem contraria essas certezas e desvela os correlatos preconceitos” (CASARA, 2018, p. 91). Sujeitamo-nos aqui, portanto, ao desvelar as não tão obviedades do que se aparenta óbvio, a figurar como alvos desse ódio direcionado. Seja como for, o mal-estar é necessário para que o problema seja realmente compreendido.

Ressaltamos que não se trata também de um ataque a todos os livros superficiais. Um breve romance que flui sem qualquer dificuldade não significa necessariamente algo ruim. Uma das razões pelas quais a leitura é realizada é a busca pelo prazer que alguns livros proporcionam. Nesse sentido, assim como assistir um filme bobo que nada acrescenta ao espectador, mas que proporciona divertimento durante a sessão, uma leitura de algo despretensioso pode acarretar esse mesmo efeito. De todo modo, há leituras e leituras, e o simples em demasia costuma ser um terreno lodoso. É que “a simplicidade se afasta da verdade e mostra-se compatível com a informação (também simplificada)” (CASARA, 2018, p. 95). Daí os engodos ocasionados com leituras superficiais de informações superficiais. Acredita-se equivocadamente estar se tirando proveito de uma leitura rasa quando na realidade o resultado disso tende a ser tão negativo quanto perigoso.

O caminho, o trajeto, enfim, a forma de se ler, portanto, é tarefa árdua. Exige-se esforço, exige-se tempo, exige-se dedicação para o ato da leitura. Não é à toa que costumamos nos pegar, conscientemente ou não, buscando a melhor forma para se ler, o melhor momento, o melhor ambiente. Isso porque as distrações surgem aos montes durante a leitura, servindo essas como convite para que o livro seja abandonado em troca de outra atividade mais fácil ou mais agradável.

Sabemos que há aqueles que têm um ritmo mais acelerado de leitura, enquanto outros leem de forma mais vagarosa – sem que essa distinção acarrete necessariamente na também diferença entre a atenção que se volta para a leitura. Entre os que realmente leem, há quem leia mais rápido e há quem leia mais devagar. Simples e ao mesmo tempo complicado assim. Lançamos nossa desconfiança, porém, para com aqueles métodos mirabolantes, que prometem leituras dinâmicas exacerbadas, oferecendo fantasias do tipo “leia centenas de páginas em poucos minutos”. Esse tipo proposto de leitura é no mínimo criticável, ensejando possivelmente naquilo que se pode distinguir como leitura rotineira (procedida por aqueles que são habituados a uma leitura verdadeiramente lida) e leitura automática (efetuada por aqueles que leem por ler, sem que haja uma preocupação com o conteúdo a ser absorvido). Nesse sentido, podemos dizer que “na leitura, quando lemos de forma automática, chegamos ao pé da página do livro sem lembrar do que estava nas linhas superiores. Já a leitura rotineira é aquela em que você pega o material e vai lendo em sequência, procurando fruir. Quando você se distrai, é sinal de que ela se tornou automática” (CORTELLA, 2016, p. 41).

A leitura, portanto, deve ser feita com todo um esmero. Não deve ser superficial, sob pena de não ser realizada a contento. Atenção e cuidado devem estar presentes sempre durante o ato da leitura. Terry Eagleton, notório crítico literário e filósofo, vai dizer que “a melhor maneira de ver uma obra literária não é como um texto com sentido fixo, mas como matriz capaz de gerar todo um leque de significados possíveis” (EAGLETON, 2019, p. 149) – isso ao considerar que não somente a leitura técnica exige esforço, massa também tudo aquilo que é proporcionado pela literatura em geral.

Ao considerar esse breve introito a respeito de como deve(ria) funcionar a leitura, propomos, como realidade posta, que a maioria das pessoas possui certa dificuldade em realizar as mais diversas espécies de leituras. Nesse sentido, Agamben chama a atenção para a ilegibilidade, que poderia se traduzir na experiência de quando “gostaríamos de ler, mas não conseguimos, nos quais nos obstinamos a folhear as páginas de um livro, mas ele nos cai literalmente das mãos” (AGAMBEN, 2013). Contudo, difícil seria elencar todos os possíveis motivos ensejadores de referida realidade, seja de caráter social ou individual, ontológico ou filogenético, motivo pelo qual admitiremos tal dado como pressuposto para o desenvolvimento do nosso raciocínio.

Assim, na esteira dessas explicações preliminares, impende-nos fazer três observações antes detratarmos diretamente da questão acerca da dificuldade da leitura sob um ponto de vista mais analítico.

O problema eleito tem como objeto a conduta humana, cuja complexidade impede uma resposta categórica às indagações (arbitrariamente) escolhidas.

Reconhecida a complexidade do fenômeno, há que se insistir na natureza predominantemente especulativa da proposta de leitura que ora se apresenta, principalmente porque se pretende enfatizar a ação do inconsciente e utilizar o arcabouço conceitual psicanalítico[1], sem ter como referencial direto a experiência analítica.

A especulação se acentua uma vez mais porque sequer o objeto será rigorosamente delineado – motivo pelo qual leitura e estudo serão tratados como sinônimos, até mesmo por poder se dizer que “a arte de ler é a arte de pensar com um pouco de ajuda” (FAGUET, 2009, p. 139).

Dito isso, tentemos identificar algo de proveitoso do que se segue.

Diante desta nova realidade de confinamento em que vivemos, algumas pessoas se surpreendem consigo mesmas perante a própria incapacidade de realizar determinadas condutas reputadas[2] nobres e aparentemente prazerosas. Eis o caso da leitura. Mas sejamos honestos: isso ocorre com poucas pessoas, já que a maioria não se engana quanto às suas reais disposições. Assim, não sejamos nós a cair no engodo criado pela falsa representação da realidade proporcionada pela maioria, pois entre a divulgação das atividades no mundo virtual e aquilo que cada um realmente faz há, amiúde, uma dissonância tão radical que justifica o rótulo de falsidade a elas, às imagens, atribuído. Contudo, quando a dúvida advém de uma honesta insatisfação consigo mesmo diante da incapacidade de realizar uma atividade que se reputa prazerosa, cabe perscrutar: por que há tamanha dificuldade em ler? Quais os fatores, internos ou externos, que podem ser apontados (e se podem) como os responsáveis por essa indisposição ou tribulação para a atividade da leitura?

Invertamos, de início, as proposições a serem elucidadas – visando aquietar alguma vocação narcísica – e comecemos por perguntar: haveria algo para além do prazer da leitura que a estivesse sobrepujando e a impedindo de prevalecer?

Deixe-se claro, desde logo: a maior confusão provém de um mero jogo de palavras, da maneira como a pergunta é formulada – e esta não é uma constatação irrelevante. Ao contrário, já que nos diz muitas coisas. Iniciar a análise por essa formulação inadequada da questão nos oportuniza, portanto, entender o que nos leva a incidir em erro. E o motivo já foi antecipado quando dissemos que a propositura inicialmente formulada visa aquietar nosso narcisismo, já que é ele quem nos vocaciona a nos enxergar maiores do que realmente somos. Desenvolvamos, pois, o raciocínio.

Em “Além do princípio de prazer”, Freud busca reordenar a economia pulsional anteriormente equacionada entre o princípio do prazer e o princípio da realidade a fim de adaptar algumas situações em relação às quais o teorema anterior não era capaz de dar uma resposta satisfatória. Ao se deparar com as neuroses de guerra e analisar determinadas brincadeiras infantis, a questão que lhe consumia era: por que as pessoas insistem em repetir uma cena traumática? Freud almejava identificar o motivo de determinadas condutas humanas recolocarem as pessoas em situações totalmente desprazerosas e aparentemente disfuncionais[3]. Este é um momento importante da teoria dos impulsos não somente porque fornece nova perspectiva à economia pulsional, mas também à própria pulsão, ligando-a à ideia de ‘retorno ao estado anterior’ e projetando luz ao fenômeno da compulsão à repetição. Mas haveria alguma ligação direta disso com relação ao caso por nós proposto? Em absoluto, segundo cremos. Excetuando o fato de termos[4] de trabalhar com a nova estruturação relacional dos impulsos, nossa problemática se situa completamente sob o domínio do princípio do prazer e da dinâmica por ele imposta aos estímulos internos. 

Uma decomposição analítica da atitude recalcitrante da leitura pode ajudar a esclarecer o fato de que, em alguns aspectos, a complexidade é proveniente, ainda, de uma falsa percepção da realidade, pois não se trata de nos colocarmos, involuntária e coercitivamente, em uma situação desprazerosa – como se fôssemos levados a situações desprazerosas contra nossa (pretensa) vontade -, mas sim de um posicionamento volitivo e desejante que nos coloca em uma situação prazerosa, qual seja, a de não ler. Aqui, portanto, basta sermos minimamente honestos para melhor compreendermos nossa postura: não gostamos de ler e preferimos fazer outras atividades em nosso tempo ocioso. Percebamos que a conduta está em plena harmonia com o princípio do prazer e não requer nenhuma explicação que o exceda.

Para aclarar ainda mais a temática abordada, importa que regressemos às questões mais comezinhas, embora nada fáceis, acerca do condicionamento humano e, consequentemente, da estrutura da psique, o que, de certo modo e desde sempre, estiveram permeando os estudos psicanalíticos.

Em seus “Ensaios de metapsicologia”, Freud assevera:

Os estímulos externos colocam (ao sistema nervoso) apenas a tarefa de subtrair-se a eles (…) Os estímulos instintuais que surgem do interior do organismo não podem ser liquidados por esse mecanismo. Portanto, colocam exigências bem mais elevadas ao aparelho nervoso, induzem-no a atividades complexas, interdependentes, as quais modificam tão amplamente o mundo exterior, que ele oferece satisfação à fonte interna de estímulo, e sobretudo obrigam o aparelho nervoso a renunciar à sua intenção ideal de manter a distância os estímulos, pois sustentam um inevitável, incessante afluxo de estímulos.[5]

Tentemos visualizar a ideia acima exposta de uma maneira mais singela: não podemos fugir aos nossos estímulos interiores tal qual fazemos com os exteriores. Diante de um perigo presente no ambiente em que me encontro, como uma erupção vulcânica iminente, por exemplo, caso haja a possibilidade, basta deixar o local de risco para que o problema, ao menos referente a minha integridade física, esteja resolvido. Quando sinto um desconforto psíquico proveniente de uma desilusão amorosa, por outro lado, não basta simplesmente deixar o ambiente consorciado com o amado(a) para que a dor desapareça. Faz-se necessário um conjunto de elementos diversos a dar conta da complexidade desse estímulo interno. A complexidade produzida no aparelho psíquico decorrente da natureza diferenciada dos estímulos internos altera, inclusive, os mecanismos de atuação da psique em relação aos estímulos externos, pois a disposição inicial que era de “subtrair-se a eles”[6], passa a ser, agora, a de concebê-los e administrá-los de acordo com o princípio do prazer.

Segundo Freud, “mesmo a atividade dos mais evoluídos aparelhos psíquicos está sujeita ao princípio do prazer, ou seja, é automaticamente regulada por sensações da série prazer-desprazer[7]. O mais interessante, contudo, é notar, com Freud, o reverso desse mecanismo, o outro lado dessa mesma moeda, isto é, o fato de que as sensações de prazer e desprazer “reproduzem a maneira como se realiza a sujeição dos estímulos[8], conclusão que aclara ainda mais a maneira como opera a psique.

Entendido o fato de que a sensação de prazer advém de um decréscimo do estímulo e o desprazer de um aumento, pois o sistema nervoso tem como função “eliminar os estímulos que lhe chegam, de reduzi-los ao mais baixo nível[9], evitando assim a tensão, passa a ser possível acompanhar nosso caso com um olhar mais preciso: entregar-se à leitura pressupõe recusar a satisfação decorrente de outras atividades, por vezes mais prazerosas.[10] Mas a questão mais inquietante não é essa. O problema maior se dá quando não há qualquer alternativa mais agradável e, mesmo assim, falta-nos força para realizar a leitura[11]. O que ocorre nesses casos? Por que não nos aflui um “impulso natural” para realizar essa atividade que reputamos tão nobre e importante?

Seguindo a ideia exposta a respeito da natureza do prazer e do desprazer como resultados da gestão dos estímulos, arrisca-se uma resposta na seguinte direção (utilizando-se inicialmente uma terminologia não analítica): a leitura muitas vezes se origina de uma disposição muito mais racional do que sentimental, além de ser o resultado de uma solução mal elaborada, uma destinação desequilibrada dos impulsos. Dito de outra forma, a decisão (forçada[12]) de ler advém de uma tentativa de subordinação de uma pulsão mais intensa por uma menos intensa[13]. Mas essa tentativa de explicação se adequa mais à primeira situação acima exposta do que à segunda. É preciso reconhecer esse fato, mas não sem ressalvas. Assim, sem pretender refutar a ideia de que a proximidade com o objeto ou a viabilidade da satisfação aumentam a tentação, é preciso reconhecer também que o jogo de forças pulsionais (do qual resulta a atitude refratária à leitura, por exemplo) não se dirige por alternativas reais de escolha. Os desejos atuam (e não raro atuam de maneira mais intensa) mesmo diante da impossibilidade da obtenção de sua satisfação[14]. Desse modo, não importa se há ou não algo mais interessante e prazeroso para fazer, as pulsões contrárias à atividade de ler permanecem atuando e continuam a exercer uma pressão superior a ponto de induzir a pessoa à realização de atividade diversa.

Diante da permanente incidência dos estímulos internos, sobrevém a necessidade de atualização constante da resposta, o que autoriza a concluir que a solução determinada pelo jogo de forças pulsionais não é absoluta e permanente, já que diz respeito a uma tensão que a todo momento precisa ser (novamente) equacionada. Nesse sentido, ao diferenciar os estímulos externos e internos, Freud frisa que enquanto os primeiros agem “como um impacto único”, os segundos se traduzem numa “força constante”, “necessidade” que exigirá, para sua supressão, a respectiva satisfação[15].

Da análise pulsional verifica-se também que as desculpas que normalmente elegemos para justificar a não realização de determinadas condutas, as quais ficam eternamente proteladas, mascaram o resultado deste embate de forças que recusamos reconhecer.

A esta altura fica possível perceber como a nossa proposta de análise do fenômeno da leitura é, ao mesmo tempo, restrita, arbitrária e altamente especulativa. Decidimos procurar por indícios que respondessem ao motivo pelo qual certas pessoas tendem a adotar uma postura refratária à leitura, homiziando-se em uma ilusão confortadora. Mas não nos dispusemos a questionar, por exemplo, acerca do fato de tantas outras chegarem ao ponto de nutrir verdadeiro ódio pela leitura. Tal averiguação poderia jogar ainda mais luz sobre a dinâmica pulsional, mormente pela natureza ambivalente do sentimento amor-ódio e sua intensidade inata. Não nos será adequado aqui persistir nesse caminho, mas gostaríamos de deixar registrada a fertilidade da indagação: por que determinadas pessoas amam e outras odeiam ler?

Diante do que foi brevemente exposto, tem-se que os estímulos precisam ser geridos e encontrar uma solução à tensão por eles acarretada. Quanto aos estímulos instintuais, que aqui nos interessam, quando não alcançam a sua meta principal de prazer decorrente de uma satisfação direta, quatro seriam os destinos possíveis a serem conferidos pelo aparelho psíquico: a reversão no contrário, o voltar-se contra a própria pessoa, a repressão e a sublimação.

Não sendo o caso de desenvolver mais o assunto (pelos estímulos internos), caminhamos para o desfecho dessa nossa especulação ponderando que a atividade da leitura parece se aproximar, de certo modo, ao fenômeno da sublimação quando confere aos intensos impulsos operantes no indivíduo um desfecho diferente daquele almejado pela satisfação direta, possibilitando a realização de atividades socialmente mais valorosas, ainda que nem sempre tão prazerosas[16].  

Por fim, pertine lembrar que, ao serem interpretados os insights de Freud em “Mal estar na cultura”, costuma-se concluir que diante da socialização do homem e do mal estar dela decorrente há somente duas alternativas possíveis: resignar-se a esse mal estar inerente e inexorável, procurando administrá-lo da melhor maneira possível; ou procurar modificar a realidade a fim de construir novas possibilidades de existência em que a neurose decorrente desse permanente conflito e tensão não seja uma fatalidade do ser humano. Diante da realidade posta, e enquanto uma alteração não acontece, tal conflito parece nos colocar um desafio pessoal intrinsecamente ligado ao mecanismo da sublimação. Assim, deixamos nossa impressão de que o desenvolvimento intelectual do indivíduo realizado através da leitura está, de certo modo, ligado a este dispositivo de resposta aos estímulos instintuais, em que pese mediante uma dinâmica bem diferente da arte literária, uma vez que a atividade da leitura não é o reverso desta.

De todo modo, “a leitura, tomadas certas precauções, é um dos meio de felicidade mais experimentados” (FAGUET, 2009, p. 141). Que saibamos tomar essas precauções e aproveitar a felicidade que decorre da leitura.

ANDRÉ AMARANTE é delegado da Polícia Civil do Estado de Santa Catarina, especialista em ciências criminais, professor universitário e especializando em psicanálise

PAULO SILAS FILHO é professor de direito na Universidade do Contestado (UnC) e na UNINTER; mestre em Direito e advogado

REFERÊNCIAS

AGAMBEN, Giorgio. Sobre a dificuldade de ler. Revista Cult. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/sobre-a-dificuldade-de-ler/. Acesso em: 26/03/2020.

CASARA, Rubens R. R. Sociedade sem Lei: pós-democracia, personalidade autoritária, idiotização e barbárie. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

CORTELLA, Mario Sergio. Por Que Fazemos o Que Fazemos?: aflições vitais sobre o trabalho, carreira e realização. 2ª Ed. São Paulo: Planeta, 2016.

EAGLETON, Terry. Como Ler Literatura. 1ª Ed. Porto Alegre: L&PM, 2019.

FAGUET, Émile. A Arte de Ler. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2009.

FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer. Porto Alegre: L&PM, 2019.

FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na cultura. Porto Alegre: L&PM, 2011.


[1] Impende deixar registrado – somente com o intuito de evitar confusões que prejudiquem a interpretação do texto – que nossa apropriação do instrumental teórico psicanalítico se dá pela via tradicional dos textos freudianos, porém sem a preocupação de importar a problemática existente na doutrina acerca da diferenciação das expressões usualmente utilizadas para a tradução do conceito “trieb”, de modo que os termos impulsos, pulsões e instintos, bem como seus correlatos, serão utilizados indistintamente como sinônimos.

[2] A atribuição do caráter nobiliário de determinada atividade nunca é uma concessão meramente individual, isto é, conferida pela própria pessoa independentemente das condições preestabelecidas por determinada sociedade, em determinado contexto histórico, espacial e temporal.

[3] Não se olvida que determinadas situações de desprazer ainda estejam sob o domínio do princípio do prazer, sendo determinante, nesses casos, que o desprazer em determinada área ou instância represente prazer ou satisfação, ainda que mediante simples descarga pulsional, em outras áreas ou instâncias, o que denota sua funcionalidade para o sistema psíquico como um todo. E sim, desde uma lógica psicanalítica, o sofrimento como sintoma ou até mesmo a dor existencial relativa à inadaptabilidade da vida social possui uma função, qual seja, a de informar que algo não está bem ou devidamente harmonioso na vida psíquica.

[4] Caso se opte por seguir as mudanças de proposições e equacionamentos projetadas para a segunda tópica do aparelho psíquico.

[5] “Os instintos e seus destinos”, p. 56.

[6] Idem, p. 56.

[7] Idem, p. 56.

[8] Idem, p. 56.

[9] Idem, p. 55.

[10] Quão difícil não é estudar quando se pode confraternizar com os amigos?! Quem nunca se preparou para uma avaliação somente às vésperas?!

[11] Recorda-se aqui de um amigo que dizia: “quando sei que tenho que estudar, brincar com o cachorro se torna irresistível, os afazeres domésticos deixam de ser monótonos e as coisas mais entediantes parecem ganhar interesse”.

[12] Perceba-se que, conforme dito no início, não é o comportamento refratário à leitura que é imposto ou advém de maneira coercitiva e dissonante da vontade, mas antes a “autocolocação” na posição de leitor que é forçada pelo próprio indivíduo que, na realidade, não quer ler.

[13] Freud parece não dar uma resposta categórica a respeito das flutuações das grandezas de estímulos, deixando de certo modo em aberto qual seria o critério preponderante: intensidade ou continuidade dos impulsos etc.

[14] Sendo a falta, segundo uma visão lacaniana, inerente à estrutura do desejo.

[15] Idem, p. 54.

[16] Lembremos que a sensação de prazer seria alcançada pela eliminação ou atenuação desse estímulo que estaria gerando tensão na economia pulsional.

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