ARTIGOS

Não tente argumentar com bolsominions, eles funcionam como os psicóticos

por Vera Lúcia do Amaral

Um dos sintomas mais caros da psicopatologia, quando se estuda as psicoses, é o delírio. Esse é o sintoma mais importante dessas enfermidades mentais.

Popularmente, quando dizemos que uma pessoa “está delirando”, geralmente nos referimos àquelas pessoas que estão falando coisas sem sentido ou absurdas.

O delírio é um pouco isso mesmo, mas é mais que isso. O delírio define a psicose porque é a interpretação que o psicótico faz sobre o seu entorno. No entanto, essa interpretação não condiz em nada com a realidade do mundo onde ele vive. Ou seja, o delirante fala de fato coisas absurdas ou “loucas”, acha que o mundo o persegue ou acha que uma pessoa específica é a causa de todos os problemas do mundo.

Quem já conviveu com psicótico sabe que não adianta argumentar e contrariar o que ele está dizendo. Uma das características fundamentais do delírio é a sua irredutibilidade à argumentação lógica. O pensamento delirante é forte, é definitivo, é irremovível. E é assim porque o delirante construiu o seu mundo dentro dessa realidade paralela. Esse é o seu mundo, os outros é que estão interpretando tudo errado.

Assim, em psiquiatria aprendemos que não adianta em nada tentar “tirar” dos psicóticos aquelas “ideias malucas”. Aquele é o mundo dele! Ele não pode abrir mão daquelas idéeias sob pena de não saber mais explicar o seu mundo, nada mais fazer sentido na sua realidade.

Bem, talvez aqui vocês já estejam compreendendo onde quero chegar: o pensamento da extrema direita bolsonarista é em tudo semelhante ao pensamento delirante. Através do discurso do seu chefe foi se construindo, desde 2018, uma realidade paralela em que o grande perseguidor é Lula, o PT e os “comunistas”. Essas ideias são de tal modo arraigadas e tão fortemente compartilhadas que são – tal qual o delírio – irremovíveis. Não adianta argumentar, não adianta mostrar a falta de lógica do pensamento deles. Não há diálogo com delirantes.

Se o pensamento delirante de um indivíduo é forte, imagine se, hipoteticamente, ele encontra eco e aceitação em um grupo. Isso não acontecem bem com psicóticos, já que cada um tem seu mundo próprio. O grupo passa a se retro-alimentar do delírio, um do outro, e se cria todo um sistema delirante.

É isso que estamos vivendo com bolsominions que insistem em negar a cagada que fizeram.

Por isso, para sua própria saúde mental, não tente argumentar com um bolsominion. Não vai adiantar de nada.

VERA LÚCIA DO AMARAL é psiquiatra, professora universitária e doutora em educação pela UFRN

Categorias:ARTIGOS

Marcado como:

15 respostas »

  1. muito triste isso,a utilização da saúde mental como adjetivo desqualificador. temos que buscar avaliações que evitem mais retrocesso. Por exemplo, portadores de sofrimento emocional não são fascistas nem sociopatas nem criminosos, não são perigosos,
    são apenas excluídos, quando passamos a uma posição higienista já estamos a enterrar a Luta Anti-manicomial em um brejo medieval.
    A sociedade humana é em si vasto sintoma, quando o núcleo psicótico é ativado, em uma regressão, o indivíduo e dos grupos passam a responder segundo os processos primários, assim como toda atividade onírica. temos que discutir isso sem emblematizar a loucura como dogma ao avesso. De um lado a romantização do delírio feito pelo cinema e indústria da cultura, e de outro lado a espúria estigmatização de parte do sistema mental como o sonho, o delírio, etc, convergido ao papel de “funcionamento criminoso”. Agora querem tirar o Bolsonazi porque ele é “insano”, nada mais higienista e aponta a clausura do pensamento em um circuito cada vez mais fechado.

    Curtir

    • Eduardo, entendo muito a sua posição e seria capaz de concordar com você não fosse a imersão conjunta que estamos vivendo. Estamos no mesmo palco, na mesma condição que eles, e o texto da professora, portanto, refere-se a um texto fora do divã, mas para a comunidade que vive o mesmo fora dos consultórios e precisa se conter neste espaço até que a nossa situação se resolva. Então o que consigo perceber é um texto que não deveria ser escrito e assinado, mas dito aos ouvidos de quem confiamos, para – novamente portanto – acalmar essas pessoas e municiar de outras táticas do campo da psicologia. Veja o texto do “Seu madruga” abaixo e como está carregado do que o texto diz.

      Curtir

  2. Estava lendo o texto e você expõe muito bem. Posso até chegar a conclusão de que petistas são psicóticos ao quadrado. Você pode argumentar, mostrar, desenhar que lula é ladrão mas eles não conseguem admitir pois vivem dentro do seu mundo. Não adianta em nada argumentar com eles. Muito obrigado com seu texto e o PT pude ter consciência do quanto é grave a Psicopatologia.

    Curtir

  3. Muito bom! Acrescento que o PTismo é um delírio de extrema esquerda. No período PTista, a imprensa era tucana; os mercados eram tucanos; todas as críticas eram de tucanos. Os delirantes bolsonaros consideram a imprensa PTista, os mercados PTistas, todas as críticas são PTistas….Se bem que o bolsonarismo é pré civilizatório. Ainda não tenho certeza se visigodos ou ostrogodos.

    Curtir

  4. Bolsominions x Esquerdopatas. Vejo que como profissionais da área não nos polarizemos, estendamos o medo, a função e disfunção de cada lado , sem perdemos o equilíbrio. Me espanta em ver uma profissional saindo do seu centro, e tomando partido. Talvez precise trabalhar seus medos inconscientes.

    Curtir

  5. Quem não conhece o dito popular “de médico e louco todo mundo tem um pouco” e não o examinou da ótica da realidade não pode deixar de inferir o quanto é louco o cotidiano.
    O texto é excelente e me levou logo ao passado literário e me esbarrei em Machado de Assis e seu Dr. Bacamamarte que por encontrar tanto louco acabou se internando no próprio manicômio, afinal não era possível ter tantos loucos assim num lugar tao pequeno, mas nao é nossa propria realidade? Achamos loucos os bolsominions, mas também são loucos os esquerdopatas. Gente vamos entender que há a loucura o saudável Não, a sociedade não é sã, é louca. Acreditamos em que? Do que vivemos? Como vivemos? O que fazemos para viver?
    Você acha normal levantar às cinco e retornar as quinze horas para casa? Ser casado com uma mulher ou casada com um homem, ou um aparente homem casar com uma aparente mulher ou vice versa? Até a crença É louca afinal em quê cremos? Só para constar, acreditamos num Deus que nunca vimos, que nos falaram que ele falou como deveríamos agir, mas como acreditamos que ele falou, acreditamos por ouvir falar. Tá bom mas nós cremos ser verdade porque temos fé, mas o que é fé? É a crença em algo sem termos a comprovação de sua existência. Isso é normal?
    São com gente assim que lidamos o tempo todo, gente que nao adianta provas cientificas, gente abnegada seja petista seja bolsonarista.
    Drummond bem soube resumir em seus “simplórios” textos: “a verdade” e “a pedra”. Ora afinal debatemos sobre algo com alguém e no fim sabemos que é pura perda de tempo, estamos encouracados, não vamos aceitar tão simples assim a mudança, perder o nosso direito à loucura? Nem pensar. É como no final cada um de nos não pode, não consegue deter a verdade, pois ela é relativa, vamos ter que continuarmos frustrados e entao penso que aquele senhor é escravo do servo, pois sem o maldito servo não há senhor.

    A Verdade Dividida
    Carlos Drummond de Andrade

    A porta da verdade estava aberta
    mas só deixava passar
    meia pessoa de cada vez.

    Assim não era possível atingir toda a verdade,
    porque a meia pessoa que entrava
    só conseguia o perfil de meia verdade.
    E sua segunda metade
    voltava igualmente com meio perfil.
    E os meios perfis não coincidiam.

    Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
    Chegaram ao lugar luminoso
    onde a verdade esplendia os seus fogos.
    Era dividida em duas metades
    diferentes uma da outra.

    Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
    Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
    E era preciso optar. Cada um optou
    conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

    Curtir

  6. A alegoria apresentada no texto de Drummond foi perfeita, Robson. Como bolsominions e esquerdopatas coabitam o mesmo território faz-se mister que prestemos atenção no que cada programa em disputa traz de melhor e de pior para todos. Permitamos espreitar pelas portas entreabertas pelos dois extremos. Que cada um use a força de nossas psicopatias para convencer e arrastar os não convictos, mais saudáveis, portanto para atingir e traduzir esse esforço em votos. Afinal vivemos todos sob o teto da desvairada democracia.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.