ARTIGOS

Depois que a vida voltar ao normal

por João Batista Ericeira

Sou reticente em opinar sobre a pandemia do coronavírus que vem assolando vários países, em surto de propagação geométrica. Primeiro, por se tratar de assunto que pressupõe conhecimento científico nas áreas da medicina, da biologia, da infectologia, entre outras. Segundo, manifestações de leigos não são convenientes, excesso de mídia em nada contribui para o seu enfrentamento. No caso, é necessário se informar bem, e seguir corretamente as orientações das autoridades sanitárias. As postagens em redes sociais às vezes concorrem para a desinformação e a geração do pânico.

Desde sempre a humanidade tem conhecido pestes: negra, bubônica, febre amarela, varíola, e gripes, e tem triunfado sobre elas, a demonstrar que a vida sempre vence a morte. Essa é uma luta que povos e indivíduos enfrentam em sucessivos embates ao logo de gerações. No Brasil, em 1904, no governo Rodrigues Alves, resolveu-se em projeto urbanístico e sanitário debelar os constantes surtos de febre amarela, varíola e peste bubônica. Sob os auspícios do sanitarista Oswaldo Cruz e do prefeito Pereira Passos, desencadearam-se operações de demolições de cortiços e velhos prédios, desratização e matança de mosquitos, ao lado da vacinação obrigatória. O suficiente para provocar levantes populares e revoltas militares.

Ruy Barbosa, em cumprimento a preceitos do liberalismo político-jurídico, colocou-se contra a vacinação obrigatória. Mais tarde reconheceu os méritos do trabalho sanitário de Oswaldo Cruz, penitenciando-se dos equívocos. No mundo da biologia, não há que se falar em ideologias, nacionalismo, em pressupostos políticos ou partidários. Nesse campo trava-se a luta sempre presente da vida contra a morte.

O filósofo existencialista franco-argelino Albert Camus, em conto conhecido “A Peste”, retrata situação endêmica ocorrida em Oran, na Argélia, precipitada por onda de ratos que invadiram a cidade, provocando enorme mortandade. Tal como sobreveio, desapareceu. O autor quis dizer: o acaso ou o imponderável regem a condição humana. É uma intepretação.

O acaso não existe para o psicólogo Carl Gustav Jung, tudo acontece por força de movimentos sincrônicos, neles, a humanidade inteira se vê envolvida. Vivemos em um mundo dominado pelo materialismo e consumismo desenfreados. Não há mais tempo para o convívio familiar, para a alegria de viver. Mesmo a religiosidade se manifesta por automação, com escassa interioridade. A competividade, o espirito de suplantar o outro, a odiosidade, as faltas de afetividade, de respeito ao outro, prevalecem.

No pico desse clima, houve a superveniência da pandemia do coronavírus. Sempre fomos interdependentes, os modernos veículos de comunicação dão-nos essa

certeza. O que acontece a um homem, em qualquer lugar do planeta, afeta a todos os homens. Independentemente de etnia, nacionalidade, ideologia, situação política. Somos todos habitantes da Terra e as consequências incidirão sobre todos nós.

Os hábitos de higiene, os progressos das ciências, dos fármacos, das vacinas, conduzirão a mais uma vitória sobre esses microrganismos a serviço da morte. Das dificuldades ora atravessadas, convém extrair algumas lições. Devemos aprender a lição primordial do dever da solidariedade. O que atinge ao próximo nos atinge. Não esquecer o mandamento supremo de Jesus:” ama ao próximo como a ti mesmo, como eu vos tenho amado. ”

Acima das coisas, dos fatos econômicos, estão as pessoas. Somos essencialmente iguais, perante a vida e perante a morte. Todos passaremos um dia pela experiência da morte. Mas tenhamos certeza de que a vida triunfará. Porque Deus é o Deus da vida.

A economia se recuperará, a saúde será restabelecida, e os que trabalham a reconstruirão. Este é momento de agradecer aos cientistas que silenciosamente trabalham em seus laboratórios para vencer a pandemia. A comunidade médica, as autoridades internacionais, nacionais, estaduais e municipais. E dizer com todas as forças do pulmão: viva a Vida!

JOÃO BATISTA ERICEIRA é advogado e mestre em direito pela Universidade de Brasília

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