ARTIGOS

Ainda querem “queimar” livros em 2020?

por Mariana Anconi

Nazistas de merda queimando livros durante a 2a guerra

Essa semana li que não há o que se discutir a respeito do óbvio, afinal, o óbvio está posto e pronto, não há o que dele pensar ou questionar. 

Achei problemática a afirmação. Também perigosa e ingênua quando se pressupõe que o óbvio esta compartilhado socialmente, ou que o “eu e o outro” enxergam o óbvio nas mesmas coisas. Há sempre um desacerto entre o eu e o outro. E a esse desacerto deve ser dada certa atenção. 

Basta abrir os jornais, sites de notícias ou mesmo o Facebook para nos depararmos com noções diferentes do que é óbvio. O desacerto mais recente se refere à censura de livros. É isso mesmo, uma lista de livros proibidos, primeiro em Rondônia, depois em São Paulo. Isso porque, para os novos censores, alguns livros representam uma ameaça (?) a jovens leitores. 

A fogueira de livros não é uma novidade. Fogueira de livro pode ser metáfora para a censura de hoje. Mas ela já foi literal. E esse passado – ou a memória dele – é crucial para o desenrolar de um futuro que não se limita a repetições da ordem da pulsão de morte.

Ray Bradbury escreveu um livro inteiro sobre queimar livros, ou melhor, sobre queimar narrativas, histórias e memórias como projeto político para construir uma sociedade do esquecimento. 

Depois do livro veio o filme Fahrenheit 451 (1966). Na história, o personagem Guy Montag é um bombeiro que queima livros. 

A personagem de nome Clarisse conta que, num passado distante, o bombeiro era quem apagava o fogo. Isso soou absurdo para Montag, pois estava óbvio que sua função era atear fogo (fireman). Montag estava aprisionado na concretude das palavras supostamente sem historicidade. Palavras com função de signo ilegível, exatamente como a palavra Fahrenheit, que nada comunica a quem não sabe ler essa medida de temperatura. 

Clarisse, uma devoradora de livros, escuta Montag em sua alienação e desconstrói suas certezas implantando dúvida. Clarisse marca uma diferença para com a personagem Linda (esposa de Montag) que é vista como um exemplo bem sucedido nessa sociedade tão parecida com a nossa em que a censura de livros causa tão pouco eco. Viciada em pílulas e nas imagens da TV, sua vida escapa dos afetos e dos laços. Truffaut, diretor do filme, coloca a mesma atriz para as duas personagens, brincando com o efeito especular em que uma é o inverso da outra. 

Em uma cena de queima de livros, Montag sorrateiramente rouba um deles. E com ele, descobre outra realidade, a realidade das palavras escritas, o universo dos homens-livros que invariavelmente acabam livres. 

A partir de então, a saída encontrada por Montag estará sempre nos livros, mesmo ante a proibição. “Tenho que ler, tenho que por em dia as lembranças do passado”.

Montag se dá conta que sem os livros o corpo perde história e espaço, e o futuro se torna um sonho distante.

MARIANA ANCONI é psicóloga, psicanalista e mestre pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

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