ARTIGOS

Cestas básicas para professores: de quê os gaúchos ainda se orgulham?

por José Ernani Almeida

Li no jornal Correio do Povo/RS, embasbacado, o relato de uma educadora de 72 anos de idade, contando ter passado uma semana inteira comendo apenas pipoca, pois não tinha dinheiro para comprar outros alimentos.

Esta é a realidade do magistério gaúcho após 50 meses de salários atrasados e parcelados, piso sem reajuste há cinco anos e uma greve que beirou dois meses. O sindicato foi obrigado a iniciar uma campanha para arrecadar dinheiro e alimento para os educadores que enfrentam terríveis dificuldades financeiras.

Eis a situação a que o atual governo estadual remeteu seus professores. Quando ingressei no magistério, nos anos 1970, a possibilidade de obter dois contratos de 20 horas, em uma escola estadual, garantia um patamar de vida digno.

Havia a perspectiva de entrar no plano de carreira e contar com o respaldo do Instituto de Previdência do Estado. Isto representava segurança.

Dava para casar, alugar uma boa casa ou comprar um apartamento. Até um carro popular passava a fazer parte dos sonhos de um jovem e sonhador professor, além do status de uma profissão respeitável. Dependendo do talento e disposição, a renda era complementada com um trabalho em alguma escola privada, faculdade, cursinho etc.

Assim, era possível ter acesso a livros, atividades culturais, pensar na especialização, no mestrado e até mesmo doutorado. As triplas jornadas de trabalho, embora cansativas, eram compensadoras e conferiam sentimentos de respeito e dignidade. 

Com o fim do “milagre econômico” na ditadura militar (sim, houve ditadura), os governos estaduais passaram a arrochar os salários de seus funcionários e, os professores, foram duramente punidos aqui no RS. O discurso da premência de uma boa educação continuou como até hoje: Educação de qualidade, sim. Professor valorizado, não! Começaram as greves.

O CEPERS ganhou força e passou a ser visto, como nos dias atuais pelos sectários de plantão – a maioria na grande mídia, sempre de olho nas verbas publicitárias públicas –, como instrumento ideológico, político, corporativo, etc jogando a sociedade contra os professores. A consequência foi a lenta e inevitável queda na qualidade do ensino público.
Profissionais frustrados e sem perspectivas. Escolas abandonadas, sem ambiente apropriado para educar, gerando atitudes agressivas e a displicência dos alunos.

Mais. Atualmente, convivemos com os alucinados de plantão, pregando o reacionário, medieval e ideológico projeto da Escola Sem Partido. Isto é, querem que censura e perseguição a professores vire política para a educação no governo. É a valorização da estupidez.

Agora, sem dúvida, chegamos ao fundo do poço, em que se faz necessária uma campanha de cestas básicas para professores! A continuar assim, professores disputarão a tapa com os alunos a merenda escolar. Enquanto isto, o deputado que nos representa na Assembleia Legislativa gastou 9 mil reais em diárias (dinheiro público), em viagem à Europa. Ulalá!

Se tudo isso não bastasse, o governo, com sua reforma, desrespeita direitos adquiridos no plano de carreira dos professores. As promessas de melhoria na educação e valorização dos docentes continuam esquecidas. A amnésia anda de mãos dadas com o cinismo.

JOSÉ ERNANI ALMEIDA é professor de história do Brasil e especialista em história pela UPF/RS

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