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A qualidade da música brasileira: do tropicalismo ao sertanojo

por José Ernani de Almeida

A UFRGS, na prova de redação deste vestibular, desafiou os candidatos a opinar sobre a qualidade da música brasileira. Aliás, arte e música estão presentes na prova da federal gaúcha há muito tempo, felizmente.

Fiquei contente porque ao longo do semestre, no pré-vestibular Medischool, ministro uma aula especial sobre a evolução da música popular brasileira, na forma de talk-show. Assim, nossos alunos devem ter encarado a redação com naturalidade e conhecimento de causa.

De uma forma geral a música que se houve hoje no rádio é muito ruim, pelo menos para os meus ouvidos. Predomina a baixa qualidade. O sertanejo de todos os níveis (EJA, supletivo,1º e 2 graus e universitário) só oferece canções sofríveis.

Melodias todas iguais, parecendo saídas de uma verdadeira “linha de produção”. Letras de uma indigência alarmante. Confidencio aos meus botões: quem ouve uma música tão pobre, não irá gostar de uma canção mais complexa, mais elaborada.

O que, via de regra, nossas emissoras oferecem, não permite educar os ouvidos, muito pelo contrário. A qualidade foi deixada de lado em nome da audiência fácil.

Na época em que trabalhei na rádio Planalto, o rock e a cultura pop haviam sido elevados ao status de arte, pelo disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

As canções do antológico Lp, abordavam temas como jovens saindo de casa ( She’s Leaving Home), projeção bem humorada da velhice ( When I’m Sixty Four) e outros temas contra-culturais. Scott Mackenzye (San Francisco) cantava os sonhos dos milhares de ativistas e aventureiros, no auge da revolução hippie.

No Brasil os tropicalistas revolucionavam nossa música, incluindo guitarras em suas canções com letras, feitas de estilhaços, de imagens para retratar um Brasil fragmentado, moderno jovem e sob o tacanho dos militares. Os conservadores entraram em pânico!. Aliás, até hoje o reacionarismo não engole figuras como Caetano Veloso. Na época também havia muita música ruim. Em nossa programação eram barradas.

Hoje, em nome do popular, que é confundido com o vulgar, o que ouvimos são músicas sofríveis. Todos os estilos, na verdade, passam por um momento de pobreza no que diz respeito à inovação e qualidade musical.

Lamentávelmente nada existe que possa ser considerado inovador, seja para os estilos mais novos, seja para tantos outros que em outras épocas espelharam toda uma revolução social, como a MPB, por exemplo.

Vulgaridade, erotização, violência e uma mediocridade espantosa. Eis as características da maioria das “músicas” da moda. E dizer que houve época na música brasileira que letra era poesia.

Hoje as letras sequer conseguem trazer uma concordância verbal mínima.

JOSÉ ERNANI ALMEIDA é professor de história do Brasil e especialista em história pela UPF/RS

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