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Ansiedade (no) te quiero

Por Claudia de Marchi

Este não é o primeiro e nem será o último texto sobre o assunto que vocês lerão na internet. Creio que também não será o meu último a respeito. Enfim, resolvi escrever-lhes sobre o que é viver com Ansiedade. Sim, eu coloquei “A” maiúsculo, porque essa Ansiedade patológica ou TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada) que vem ou não acompanhada por ataques de pânico, agorafobia ou fobia social, não é a mesma “ansiedade” cujo termo usamos para definir o nosso estado de espírito animado perante algo bom ou agitado e preocupado frente a uma má possibilidade.

Obviamente, a Ansiedade patológica se agrava em períodos de estresse e expectativa, só que o mal que ela nos causa é imenso e muitas pessoas não conseguem entender, seja por faltar-lhes empatia, seja por maldade, seja por ignorância. Sobre isso só tenho a dizer que o que você precisa fazer é se afastar de quem não entende que sim, você tem uma DOENÇA. E que merece respeito e empatia. Como qualquer DOENTE.

Porque a Ansiedade não corrói um órgão como um tumor, mas ela nos mata interiormente e, em muitos casos, ela nos leva à morte pelo suicídio, porque quando reclamamos dos nossos sintomas, quando nos machucamos para aliviar a dor psíquica com a dor física, somos as pessoas que querem “chamar a atenção”, quando denunciamos um abusador que nos causou vários distúrbios ou quando falamos, por exemplo, daqueles que querem que calemos as nossas vozes e voltemos, silentes, para frente de um fogão, quando reclamamos do patriarcado, somos as “feministas loucas”, as “mulheres que querem fama”, mas quando nos matamos passamos a ter um pouquinho de “importância”.

A Ansiedade faz com que nós achemos que quem nos cerca não quer o nosso bem, não gosta realmente de nós. A nossa autocrítica pende para o negativo e é imensamente difícil acreditarmos que as pessoas são bondosas, porque nós mesmas nos achamos “sem utilidade” na vida. Em períodos de crise essa paranoia aumenta e acabamos repelindo quem amamos, justo quando precisamos de sua atenção.

Correlacionado a isso está uma baita insegurança! Podemos ser mulheres fortes, empoderadas e cheias de amor-próprio, mas quando em crise e, como tal, me refiro aos períodos em que a Ansiedade se aflora em demasia, ficamos inseguras, com medo de que nossos planos fracassem, com medo de estarmos fazendo escolhas erradas, com medo, enfim, de errar e de fracassar em qualquer coisa, empreendimento, relacionamento, trabalho, projeto e etc.. Sentimo-nos exaustas por tantas lutas que já travamos e uma vontade enorme de fechar os olhos e nunca mais acordar nos invade.

Talvez por essa malfadada insegurança, tendemos a ficar muito indecisas. Eu, por exemplo, sou uma pessoa super decidida, mas quando a minha Ansiedade está à flor da pele eu consigo ficar atordoada no supermercado olhando a sessão de chocolates, tentando escolher uma espumante ou doce de leite e etc.. E na manicure? Eu que sempre uso branquinho, vermelho (mais “vivo” ou escuro), nude e preto, resolvo “mudar” e fico pensando por horas antes de ir e, após, mais alguns minutos no salão, tentando escolher uma cor para pintar as unhas. Escolho, chego aqui em casa e, algum tempo depois, penso: “Puxa, mas por que eu não pintei de tal cor?”.

Mas a questão com as gondolas de mercado é bem estranha pra mim: eu quase hiperventilo, fico taquicárdica, meio tremendo, tudo porque olho os vinhos e, dentre tantos, apesar de eu saber o tipo que quero (uva e nacionalidade), fico perdida, nervosa, pálida quando estou nestas fases de caos emocional.

Eu sempre fui uma pessoa inspirada. Não recordo de mim na fase adulta sem que eu esteja dormindo tarde, acordando cedo e escrevendo muito! Quando em crise, os meus pensamentos, que já são acelerados, parecem incontroláveis. Sinto um turbilhão de ideias que vêm sobre mim como um tsunami! Fico mais agitada do que o normal, meu sono diminui, quando durmo, não descanso direito e o raciocínio que sempre foi rápido tende a ficar mais ligeiro de forma que eu me irrito quando converso com as pessoas, haja vista que, por estar agitada, o meu interlocutor tende a “perder-se” e minha impaciência se aflora, me fazendo, às vezes, falar o que não quero para quem não merece, pois irada.

Por outro lado, a Ansiedade nos embota o cérebro e o corpo causando sintomas físicos diversos e, mesmo querendo fazer algo e cumprir com algum compromisso, não conseguimos. Acabamos procrastinando e, após, sofremos e nos condenamos por ter procrastinado. Logo, a nossa autocritica nos fere. Começamos a nos achar inúteis, irresponsáveis e errados.

Quando magoamos quem amamos, então, passamos a crer que nossa presença em sua vida é um fardo, que não servimos pra nada neste mundo, que ninguém sofreria se morrêssemos, pelo contrário, como somos doentes, seria um alívio para quem nos ama, não ter que se preocupar mais conosco. Sim, a Ansiedade nos faz pensar assim, ainda que sejamos, comumente, pessoas bem resolvidas e transpiremos autoestima!

Alguns se machucam fisicamente, se cortam, exageram na academia, correm, extrapolam os seus limites no trânsito, na bebedeira, pois a adrenalina ou a dor física amenizam, por um tempo, a dor emocional. Elas funcionam como uma espécie de “analgésico psíquico” natural. Fazer muitas tatuagens também ajuda, mas se a Ansiedade foi causada por preocupação com finanças é óbvio que não será possível fazer gastar dinheiro nas “pinturas” corporais. Ademais, com o tempo a gente aprende a controlar esse impulso pseudomasoquista que a Ansiedade nos causa: questão de maturidade e compreensão do próprio problema. O pior mesmo ocorre quando somos muito jovens e fazemos certas coisas que, para os mais velhos, são incompreensíveis, como a tal da automutilação, por exemplo.

Enfim, por essas e por muitas, muitas outras razões é que eu lhes peço: não critiquem a DOENÇA alheia. Seja ela um Transtorno de Ansiedade, Dependência Química, Depressão, Transtorno do Pânico e etc.. Ninguém escolhe ser escravo da própria mente. E não, não venha com dicas de autoajuda, porque, com certeza quem sofre com isso tudo já leu muitos livros a respeito.

É preciso tratamento. É preciso de auxílio com medicamentos e terapia, eles existem para nos auxiliar. Você não é culpado pelo mal do qual padece, não pense isso nunca. Você tem uma doença e precisa de tratamento médico, pois quando estiver tratado e longe de períodos capazes de lhe desencadear uma crise que gere a necessidade de readequação medicamentosa, você ficará bem.

Todo mundo neste mundo tem os seus males, as suas loucuras, os seus desvios, os seus erros, as suas dores. Alguns bebem demais, outros fazem sexo sem responsabilidade, outros fumam maconha, outros cigarro, uns comem açúcar em excesso, outros tomam café e refrigerante, uns viciam em exercícios físicos e sofrem de transtorno dismórfico corporal e etc.. Nada disso faz bem pra saúde, mas 90% das pessoas adora criticar o problema dos outros, sobretudo do adicto como, por exemplo, o ator Fábio Assunção.

Aliás, no período de carnaval li um comentário doentio num post da Manuela D´Ávila em seu Instagram no qual um projeto rastejante de ser humano dizia que o ator não é doente, pois o que tem não é como câncer, que não se escolhe ter. Em outras palavras, a pessoa disse que Fábio “escolheu” ser doente.

Bem, eu conheci muitas pessoas na minha vida que cheiravam cocaína eventualmente e não se viciavam. Tenho na família casos de quem nunca fumou e teve câncer no pulmão. Isso sem contar que, para alguns teóricos, a maioria dos alimentos que ingerimos pode causar alguma espécie câncer, então, seriam as pessoas “culpadas” por adoecerem? Ora, nunca, jamé! Alguns organismos tendem a desenvolver maior dependência do que outros e o vício em drogas e álcool é, sim, uma doença e merece respeito como qualquer outra.

De mais a mais, se você for incapaz de saber que deve respeitar as dores do outro, você sofre de uma das poucas doenças que não pode sequer ser medicada, menos ainda curada: a psicopatia. Daí a sua total falta de empatia com o sofrimento alheio, neste caso, ler tudo isso não serviu e nunca servirá de nada em sua vida. Sugiro que você vá dormir ou ler matérias de “coaches” motivacionais e empreendedores.

CLÁUDIA DE MARCHI é advogada e acompanhante de luxo. Mais sobre a autora no site http://www.claudiademarchi.com.br

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