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39 quilos de cocaína e nenhum tiro: onde está o inimigo?

por Camila Ferrareze

A apreensão de 39 quilos de cocaína no avião que integrava a comitiva presidencial, em trânsito do Brasil ao Japão, diz muito sobre os erros – ou propósitos – que  são cometidos pelas autoridades de segurança pública na famigerada guerra contra o tráfico de drogas e armas.

O escândalo, que repercutiu mundialmente, inevitavelmente faz rememorar a apreensão de 117 fuzis na casa de um amigo do policial militar Ronnie Lessa, amigo e vizinho do presidente da república[i].

Daí se vê qual é o ponto de onde a inteligência estatal e policial deveria partir para identificar e desmantelar os verdadeiros donos desse que, possivelmente, é o negócio mais lucrativo do planeta: rastreando o dinheiro certamente se desvelaria aquilo que não deve ser revelado, ou seja, que não existe crime organizado sem a presença do Estado. Não existe crime organizado sem polícia corrupta. Não existe crime organizado sem judiciário corrupto. Não existe crime organizado sem gestor público que aceite gastar muito dinheiro fingindo que combate o tráfico quando determina que a polícia suba o morro para matar e para morrer.

No ano passado assistimos michel temer[ii] determinar a oportunista intervenção militar no Rio de Janeiro – na verdade a intervenção militar não foi no Rio de Janeiro mas nas comunidades pobres do Rio de Janeiro.

A ouvidoria da Defensoria Pública daquele estado desenvolveu o projeto Circuito Favela por Direitos[iii], passando a visitar periodicamente as comunidades que sofriam intervenção, conversando com seus moradores e coletando depoimentos anônimos que apontaram para todo o tipo de arbitrariedades praticadas pelos agentes do estado contra a população, indistintamente. O relatório apurou mais de 30 tipos de violação de direitos que envolvem furto, agressão, violação de domicílios e abusos sexuais contra moradoras.

Esse tipo de brutalidade não ganha a imprensa, que se ocupa – muito pouco, é verdade – de noticiar os casos de homicídio e os tiroteios que atingem escolas e centros de saúde.

“Eles vêm revistar a gente já gritando, chamando a gente de piranha, mulher de bandido, drogada. Vem empurrando e mexendo na gente. Eu sei que só mulher que pode revistar mulher, mas se a gente não deixar, leva tapa na cara”, afirmou uma das moradoras ouvidas pela Defensoria Pública.

“Entraram na minha casa, ligaram o ar-condicionado, comeram os danones dos meus filhos, levaram mil reais e ainda deixaram tudo revirado”, disse um dos relatos.

“O Exército entrou aqui no bar e roubou o X-box do meu filho, comeu nossa mercadoria, levou a bebida, foi mais de 4 mil de prejuízo. A gente trabalha pra ter esse pouco e eles fazem isso”, destacou um dos moradores ouvidos.

É a polícia fazendo a sua parte, junto com o gestor público (?), que jogou para que a torcida esquecesse por um tempo as razões pelas quais a sua popularidade atingia a lona. O judiciário também não deixou de dar sua contribuição, como o mágico que prende a atenção da plateia para aquilo que não importa, a fim de garantir o sucesso do truque: muitos mandados de busca e apreensão coletivos foram expedidos por determinação judicial, o que implica a violação de domicílios indistintamente, num raio de vários quarteirões, sem que se saiba nem mesmo o nome dos moradores das residências.

Os relatórios produzidos pelo Observatório da Intervenção[iv], apontam que não houve aumento significativo na apreensão de armas pesadas durante o período e não apresenta qualquer dado no que diz respeito à apreensão de drogas. Por outro lado, a mesma intervenção foi responsável por viabilizar que um homem negro – sempre os negros – fosse executado na frente da filha por militares que dispararam mais de 80 tiros contra o carro da família em plena luz do dia.

Para além de desviar as atenções do fracasso que foi o arremedo de governo pós golpe de 2016, a urbanização militar nas favelas cariocas serviu de pretexto para um dos deleites favoritos de seus articuladores: exterminar aqueles que não servem ao sistema, os que estão de fora do country clube. Essa gente, essencialmente negra e pobre, sempre foi vista por aqui, mas não só aqui, como custo e o vilipêndio de suas vidas, como efeito colateral.

Nenhum tiro foi disparado no condomínio presidencial de onde foram apreendidos 117 fuzis; nenhum tiro precisou ser disparado para que 39 quilos de cocaína embarcassem sozinhos no avião da presidência. Mas só depois de 80 tiros os soldados perceberam que o preto não era bandido! Oitenta tiros!

Muito antes de produzir erros, a balela da guerra ao tráfico de drogas e armas serve a um propósito muito intrínseco ao capitalismo nacional, que nunca deixou de lado seu vergonhoso passado escravocrata. De preferência, eliminar sumariamente toda essa gente preta e pobre ou, no mínimo, tirá-los do convívio dos eleitos porque quem não pode consumir não é digno de viver.

CAMILA FERRAREZE é defensora pública no Rio Grande do Sul


[i] Aquele cujo nome dá vergonha de pronunciar

[ii] Assim mesmo, em letras minúsculas

[iii] http://www.defensoria.rj.def.br/noticia/detalhes/5892-Fim-da-intervencao-

[iv] http://www.observatoriodaintervencao.com.br/dados/relatorios1/

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