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Bolsonaro e a síndrome de Polifemo

por Juan Manuel P. Domínguez

Candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro 11/10/2018. Os cíclopes representam um olhar reduzido na mitologia grega.

A visão reduzida da realidade que o Bolsonaro tem, somado ao seu ímpeto brutal e rústico, lembram muito a psicologia do ser mitológico retratado por Homero na Odisseia, chamado Polifemo. O presidente mal consegue entender que por fora da sua ilha de compreensão, que é bem pequena, o mundo se manifesta como uma enorme multiplicidade que, longe de estar à espreita com o propósito de atacá-lo, encontra-se à espera de uma interação democrática e tolerante. Mas, para Polifemo, que é pura libido violenta, nada o fará entender essa essencial premissa democrática. Na sua narrativa, está legitimado a engolir tudo o que passar pela sua frente. Como bem disse o monstro mitológico no antigo poema grego “nada merece seu respeito”. Estudantes, lgbtq+, índios e favelados serão devorados pelas suas políticas depredatórias e selvagens. Tem um ditado de Groucho Marx que diz: “Este homem parece um idiota, age como um idiota, mas, não se confunda! Essa pessoa é realmente um idiota!” Talvez seja essa função simbólica de Polifemo na Odisseia. Tudo nele, do princípio ao fim da história, é rudeza e ignorância. A íbris (arrogância) desmedida cega-o a tal ponto que a consequência natural é a cegueira posterior que lhe propicia Ulisses. Simbolicamente, para a mitologia, os ciclopes aos que Polifemo pertence, são inimigos essenciais da raça humana.
Na frente da besta, Ulisses se faz chamar de “Ninguém”. “Ninguém me deixou cego” grita Polifemo, logo que Ulisses lhe espeta uma vara afiada cegando-o. Ninguém cega o Bolsonaro, a sua fúria, sua raiva é inerente à sua natureza incapaz de sentir empatia pelo próprio contexto que o circunda. A sua estéril competência para entender às criticas como possibilidades de superação e o diálogo como uma forma de crescimento.

A mitologia cria Polifemo como uma figura disforme. A sua deformidade é sua alta energia narcísica. O narcisismo é uma variável da cegueira, é um tipo de cegueira psicológica que nos impede de ver além do nosso próprio ego, das nossas próprias formas. Para Polifemo só existe o mundo dos gigantes ciclopes. É só nesse mundo que ele consegue existir, e tudo o que exista por fora dele é desprezado e mal visto. Para o Bolsonaro, o mundo fora da sua visão patriarcal hetero normativa é um tipo de universo incompreensível e ilegítimo, que deve se subordinar a ele a aos que são como ele. Seus modos, tão análogos em essência à besta mitológica, deveriam alertar aos seus conselheiros mais próximos, já que a história da humanidade mostra que todos os líderes com uma alta carga de ibris acabaram marcados pela infâmia histórica. A tragédia de Polifemo é negar aquilo que a ninguém se nega, a hospitalidade, que para o filósofo Derridá é a aceitação do outro. Vencido pela mais elementar inteligência, Polifemo é finalmente humilhado pela mais elementar das inteligências humanas: o trabalho coletivo. Entre muitos carregam a vara afiada que a acaba por deixá-lo cego, inútil. Feito isto, todos juntos conseguem abrir as portas da libertação, da luz, continuando assim a viagem civilizatória.

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