ARTIGOS

O que acontece com Santa Catarina?

por Paulo Ferrareze Filho

O pequeno sulista de lindas praias e um dos maiores IDHs do Brasil conjumina o posto de estado com o maior aumento de células nazistas nos últimos anos. É isso que indica a pesquisa de Adriana Dias (facilmente encontrável na internet), respeitada antropóloga da também respeitada Unicamp, que buscou também as razões desse fenômeno.

A recente chacina de Blumenau/SC foi tão retumbante que fez até Lombroso levantar da tumba. Esse criminólogo italiano, morto há quase duzentos anos, ficou conhecido por associar o crime a aspectos corporais e raciais. E ainda que na academia ele seja peça de museu, uma dita “psicanalista” de Blumenau/SC, bolsonarista de carteirinha, foi a público tentar explicar as mortes a partir de uma foto do assassino, que, segundo ela, “apresentava corpo de alguém amoroso e carinhoso…”.

Nos últimos dez anos, houve casos emblemáticos. Em 2014, dois homens foram presos em Itajaí/SC por divulgarem cartazes nazistas pela cidade. Curiosamente ambos acabaram absolvidos. No mesmo ano, em Pomerode/SC, descobriu-se, a partir de um helicóptero, que o fundo de uma piscina privada estava enfeitado com a suástica. Nada mal você ali, num dia de sol, tomando uma cerveja e vendo as crianças nadarem na piscina temática do tio Hitler. Como se já não fosse retumbante esse literal simbolismo, descobriu-se que o dono da casa era um professor de história. Sim, de história! Que, pelo que se sabe, não sabe uma das estórias mais contadas da história. Notícias que não são da deep web ainda mostram que delegados do caso, à época, não viram muito problema com a piscina do professor.

O Estado de Santa Catarina chegou a ser governado, na era das trevas bolsonaristas, por uma senhora cujo pai, outro professor – este aposentado para a sorte da meninada –, é conhecido por relativizar o nazismo. A governadora escreveu uma carta (talvez pela primeira vez na história do Brasil) para dizer que não era nazista. “Ufa! Ainda bem governadora…”, suspirei na época.

Em Saudade/SC, em 2021, um rapaz entrou numa creche com um facão e matou duas professoras e três crianças. Em São Miguel do Oeste/SC, dias antes das eleições de 2022, um grupo de bolsonaristas fez uma saudação nazista enquanto se arrebanhava em algum lugar do faroeste catarinese. Nesse mesmo ano, em Laguna/SC, outro professor foi gravado dizendo que tinha uma “admiração enorme pelo Hitler…”. Ainda em 2022, uma célula neonazista foi desbaratada em São Pedro de Alcântara/SC, com materiais inacreditáveis para essa quadra da história.

Com esse recorte trágico de eventos, podemos perguntar algumas coisas, pois é desse jeito que começa a ciência.

Que significam essas estranhas coincidências nessa terra santa?

O que o bolsonarismo tem a ver com o aumento de nazistas e com a violência em escolas e creches nesse estado que era um dos preferidos de Bolsonaro?

Que significa que essa violência se repita nesse estado cujos professores foram enxovalhados por um dos caciques empresariais do bolsonarismo?

Quais vasos comunicantes existem entre a mortandade de crianças de Blumenau e o fato de que essa chacina se deu em uma das cidades mais bolsonaristas do Brasil?

O que tudo isso tem a ver com a reunião de Bolsonaro com a deputada alemã Beatrix von Storch, neta do ministro das Finanças de Hitler?

Como um deputado que tem uma carta publicada em sites neonazistas se torna presidente?

Qual a relação da colonização europeia e, em especial, alemã, na maioria das cidades catarinenses onde os eventos antes narrados ocorreram?

Por que oito cidades do sul do Brasil estão entre as que mais tiveram votos proporcionais em Bolsonaro?

O que significa tolerar que um aplicativo se omita de coibir discursos neonazistas?

O que tem o neopentecostalismo a ver com tudo isso no estado que tem um dos maiores encontros de evangélicos do Brasil?

Ou ainda, o que se ataca, quando se ataca uma escolinha?

O que se ataca quando se ataca a educação?

Que significa a força cruel de um machado atentando contra corpos tão vulneráveis?

Que significa a resposta do governador de colocar, com urgência, guardas armados na entrada de todas as escolas do estado?

Que significa isso num país em que a violência policial não tira férias?

Que significa não prender sumariamente ou encaminhar para reciclagem um professor que admira Hitler?

Que dizer de um estado que forma doutores em Direito que não entenderam o mínimo sobre o que significa um estado democrático de Direito?

Com essas perguntas, talvez poderíamos começar uma conversa…

Novamente com Adriana Dias, no entanto, deve-se dizer o que pode não ser óbvio: “o povo catarinense não tem culpa”. Ele certamente foi exposto a uma narrativa por gente que lhe ofereceu um produto e um sentido equivocados, delirantes. Pensemos que é justamente a Alemanha um dos países mais exemplares no combate a grupos neonazistas. Uma das conclusões esperançosas da pesquisa de Adriana é que “pessoas que se imbuíram nesse discurso e se tornaram hitleristas podem ser desnazificadas”.  

Parece que em Santa Catarina é necessário voltar à escola, talvez à escolinha.

PAULO FERRAREZE FILHO é psicanalista, professor e pesquisador (IP/USP, Uniavan/SC e Psilacs/UFMG)

Categorias:ARTIGOS

Marcado como:

1 resposta »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.