ARTIGOS

Terra plana impressa e auditável já!

por Luiz Eduardo Cani e Sandro Luiz Bazzanella

Arte de Laerte

A terra plana já se tornou um dos tradicionais motivos de chacota da comunidade científica. Mas, tendo em vista a insistência do argumento, geralmente por pessoas que também defendem o voto impresso como única medida auditável de votação, parece relevante levar em consideração nas análises essa variável. Sabe-se que nem todos os defensores da terra plana são também defensores do voto impresso e que nem todos os advogados do voto impresso também postulam que a terra seja plana. Apenas há coincidências em muitos casos que se conhece. Mensurações não nos interessam, embora talvez fosse interessante fazê-las. Fica a dica aos pesquisadores sociais.

O argumento central do voto impresso é a falibilidade dos sistemas informáticos. De fato, todos os sistemas são falíveis, não apenas os informáticos. Contudo não há algo como uma “exclusiva auditabilidade” de documentos físicos (papel) ou como uma “maior acurácia” dos documentos físicos em detrimento dos documentos digitais. Muito pelo contrário. Basta lembrar que os votos impressos são contados um a um em enormes locais, envolvendo milhares de indivíduos, de olhares e de mãos manipulando os votos, como se viu recentemente nas eleições presidenciais dos EUA. Quem conhece a política de longa data bem sabe a facilidade para sumir com votos ou trocá-los. Quem participou ao longo de boa parte do século XX, de eleições no Brasil com voto impresso sabe muito bem o que significa voto de cabresto, o sumiço e extravio de urnas no trajeto entre o local de votação e o local de apuração. Também presenciou as interpretações duvidosas que os mesários (aqueles que contavam os votos) impetravam ao longo da apuração e tantas outras arbitrariedades cometidas. Nesse ponto, os sistemas informáticos são mais confiáveis, embora também imperfeitos. O fato é que inexiste e jamais haverá perfeição.

Pode-se viver em ilusórios mundos hipostasiados ou viver de acordo com as contingências. Há vários matizes de uma ponta à outra do espectro, mas nada foge a isso. Não se dispõe de algo como um “fora deste planeta e deste plano de existência”. Resta, é óbvio, pensar o aqui e o agora. Nesse sentido, críticas às urnas eletrônicas não são tabus e tampouco estão interditadas. Mas que se as faça naquilo que são criticáveis. A substituição das urnas por outro meio de votação, bem como as propostas de participação radical são bem-vindas, desde que para algo que não seja da ordem do imaginário (local por excelência do engodo, no qual as pulsões de sexualidade e de agressividade fazem o vivente perceber enganosamente as experiências, como bem sabem os psicanalistas).

Mas, caso os detratores do voto eletrônico estejam em dúvida sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas, a investida contra o digital pode começar noutro campo, o qual não interfere na organização social e participação popular: a terra plana. O locus par excellence da crítica à inauditabilidade das urnas eletrônicas é o mapa mundi digital. Eventuais dúvidas sobre a acurácia do voto impresso precisam urgentemente ser esclarecidas por meio de uma auditoria da terra plana, com cópia em papel manteiga, para a reprodução do mapa em escala 1:1.

Tal auditoria discal (afinal, se a terra for um disco, o adjetivo global não cabe aqui) é imperiosa e urgente. Convoca-se a todos os adeptos da terra plana e do voto impresso para iniciar tal mister em 1º de setembro de 2021. Todos devem se reunir em frente às prefeituras de suas cidades para iniciar com um Censo de quem se dispuser. Depois, será feita uma eleição em voto impresso contendo todos os líderes. Cada município terá autonomia para decidir sobre sua própria organização, afinal de contas o Brasil é uma República Federativa. Depois de estabelecida a cadeia de comando, cada liderança municipal ficará encarregada de traçar a melhor estratégia para captação de recursos destinados à aquisição de papel manteiga e lápis e para a execução da tarefa. Todo o disco terrestre será copiado duas vezes, para garantir a precisão (repetibilidade do procedimento). Uma das vias será comparada à outra e, posteriormente, uma será transferida para outra superfície a fim de que se faça a imprescindível auditoria, tudo de acordo com o grau de cientificidade exigido da matemática (um resultado precisa ser confirmável por duas fórmulas distintas).

A tarefa de redefinição dos mapas locais e, por extensão, apoteótica da planície terráquea poderia ser facilitada pelas tecnologias do geoprocessamento. Mas a desconfiança que recai sobre o voto nas urnas eletrônicas pode se abater também sobre os sistemas informacionais (softwares e satélites) que constituem a tecnologia do geoprocessamento. “Realmente” não há saída. Ou melhor, a única saída possível é o retorno ao lápis e ao papel manteiga. São auditáveis. Definitivamente a terra é plana.

Confirmada e auditada tal condição terráquea, trata-se de estabelecer outras “cruzadas” desmascarando o engodo, a mentira, a farsa dos comunistas, dos anarquistas, dos materialistas, dos holistas, dos … que retiraram a terra do centro do universo. Johannes Kepler, Galileu Galilei, Issac Newton, entre outros seguramente eram comunistas, progressistas. Desconfia-se que fossem ministros de algum Supremo Tribunal Federal na Europa de seu tempo. Restabelecida a planicidade e centralidade da terra no cosmos, trata-se de exigir que o sol passe a respeitar a dinâmica dos orbes celestes retomando seu percurso circular em torno da terra. Aliás, trata-se também de definitivamente promulgar a declaração de que a terra é definitivamente um planeta em função de sua condição plana, desmascarando o equívoco dos comunistas e progressistas acima citados, entre outros, que não se atentaram para coerência de suas teorias, que afirmavam a esfericidade do geóide (a terra era redonda), o que exigiria que desde o inicio tivessem reconhecido que o nome adequado seria redondeta.

Absurdos!? Talvez! Mas, o que de fato está em jogo é a necessidade reconhecermos que afirmar uma sociedade democrática requer significativos investimentos em educação para que se possa afastar o máximo possível o insistente fantasma da ignorância, da obtusidade, da grosseria, dos interesses privados mesquinhos, que vicejam entre os seres humanos, esperando a primeira oportunidade para se manifestar.  Insista-se! Afirmar uma sociedade democrática requer educação e comprometimento social. Requer que os indivíduos compreendam que partilham o mundo, a sociedade, a natureza, o espaço público com outros seres humanos que possuem os mesmos direitos e deveres.  Enfim, requer que indivíduos compreendam que “não é bonito ser feio”, que é preciso promover o espaço público por meio de ampla participação política popular, preservar os bens públicos na medida em que pertencem à comunidade, à sociedade, que a miséria da maioria é resultado da exploração exercida pela minoria, que a corrupção política, ou da coisa pública é motivada pelos interesses exacerbados da iniciativa privada. 

Enfim, democracia requer um povo educado, inteligente e com condições de vida adequada. Uma sociedade que desconsidera seus professores, que não reconhece a educação de qualidade como única oportunidade de se tornar civilizada, gasta seus recursos construindo presídios e seguindo lideranças patéticas, grotescas, autoritárias, fascistas. O império dos medíocres, dos fascistas e totalitários avança a passos largos.

Em frente Brasil! Avante terra plana! O voto impresso virá em seguida!

LUIZ EDUARDO CANI é doutorando em Ciências Criminais (PUC/RS), bolsista da CAPES, professor e advogado

SANDRO LUIZ BAZZANELLA  é doutor em Ciências Humanas (UFSC), mestre em Educação e Cultura (UESC) e professor de Filosofia na UnC

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1 resposta »

  1. Em Qui, 26 de ago de 2021 14:16, CAOS FILOSÓFICO escreveu:

    > Caos Filosófico posted: ” por Luiz Eduardo Cani e Sandro Luiz Bazzanella > Arte de Laerte A terra plana já se tornou um dos tradicionais motivos de > chacota da comunidade científica. Mas, tendo em vista a insistência do > argumento, geralmente por pessoas que também defendem o v” >

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