ARTIGOS

Antrocentrismo: diagnóstico de um atraso

por Paulo Ferrareze Filho

O machismo é uma merda mole que fede insuportavelmente no ar de nossos tempos.

Fiquei profundamente tocado com um trecho do recente livro de Betty Milan (Lacan, Ainda: testemunho de uma análise, Ed. Zahar), que, como creio eu e a torcida do flamengo na academia, sintetiza com precisão o estado putrefato do machismo em nosso corpo psicossocial.

“…O amor se dá entre semelhantes e o machismo só pode ser contrário a ele, por desautorizar o desejo feminino, como bem diz a letra de uma das músicas do Caetano Veloso: ele é quem quer / ele é o homem / eu sou apenas uma mulher. Outra letra de música, do Chico Buarque, diz claramente como a mulher deve se comportar: na presença dele me calo / eu de dia sou sua flor / eu de noite sou seu cavalo / a cerveja dele é salgada / a vontade dele é a mais justa. A cultura machista vigorava, e ainda vigora no Brasil, que não deixou de estar bem posicionado no ranking de estupro e de feminicídios. As mulheres e crianças são as maiores vítimas desta cultura, que, no entanto, também atinge homens. Obedecem, inconscientemente, ao imperativo malévolo da vingança e se tornam criminosos.”

Esse machismo cultural, que obedece inconscientemente certos imperativos da lógica viril, se materializa nesse estereótipo comum dos machos moribundos de hoje, com suas cabeças brancas e suas carecas de sebo. Notem: pra onde quer que se olhe, quando se trata de canalhice ou de violência, lá está um bando de macho tosco. Seja com os talibãs ou com policiais truculentos nos fundões do Brasil, onde esteja a coisa dando errado, lá estará encabeçando a porra toda um desses machos com seus jeitos estreitos, violentos, infantis, calhordas até dizer chega.

É o Sérgio Reis, flácido na vida e na arte, querendo virar oficial de justiça cover depois dos 60. Exercício ilegal da profissão em nome do bem. Só pra ser e parecer macho. Antes de tudo, parecer. Pelo menos a ponto de que não se tenha que ir para a prisão, esse lugar de gente do mal que não combina com quem se acha idiotamente do bem. Com essa história do Bolsonaro dizer que não vai pra cadeia – porque supostamente se mataria antes -, constatei que essa é também uma caraterística dos velhos canalhas do bem: se negam sempre a reconhecer o próprio erro, a própria culpa. Se suicidam se for necessário, mas não admitem. Como se algo de perverso tocasse sutilmente o espírito do machista fundamental pela excomunhão da própria culpa. Um professor de história, preocupado com o Sérgio Reis, postou: “como vamos explicar a história do Brasil com um cantor sertanejo que deu um golpe de Estado?”.

É o Roberto Jefferson, feito fantasma, reaparecer com duas armas na mão. Nosso talibananinha paraguaio. Nosso tanque de araque soltando fumaça pelo rabo. Protótipo último do canalha do centrão, cuja lógica é a de levar vantagem em tudo, não menos que sempre. No livro de Ricardo Goldenberg (No Círculo Cínico. Ed. Relume Dumará), costurei o trecho de Millan de antes com uma descrição sintomática do espírito canalha: “Lado obscuro da fé cega de que sempre há de haver um jeito de driblar as regras em benefício próprio”, sustentando “uma modalidade de vínculo social caracterizado pela manipulação, sendo que, embora se acredite livre, o manipulador não está menos preso que o manipulado na trama institucional”. Quando li isso pensei em tanta gente pública e privada que tive que tomar um ar e um gole.

É o Augusto Nunes, aquele velho jornalista covarde, tentando lacrar a previsão de decisões judiciais com cara de sábio sério, como fazem esses velhos que não só não são sábios, como são sérios apenas por medo. A pós-modernidade é poder falar qualquer merda e ter uma bolha de gente idiota que toma aquilo por verdade, uma microcomunidade de consumidores do que quer que se diga de sério ou de merda. O resumo do machismo bolsonarista passa necessariamente por essa estratégia chegar via zap ao cara alienado no fundão de uma lavoura que passa a achar que tem consciência política com os fragmentos de uma realidade (muitas vezes paralela e psicótica) que lhe chega pela escola do zap.

É o véio da Havan, mistura de Coringa com câimbra e teólogo da prosperidade, arrotando asneiras por aí com o poder que só uma conta corrente bilionária tem. Esse aborto do neoliberalismo segurando um megafone psicotizante. Esse padre do balão morto e ressuscitado no sétimo dia. Esse pobre rico ovacionado pelos crentes da igreja mundial da meritocracia… Um ídolo do bem, ainda que ele responda assim ao repórter:

REPÓRTER: “Você nunca recorreu a caminhos ilegais para o crescimento da Havan?”

HANG: “Se você disser que fez tudo sempre certo, você é um mentiroso.”[1]

É o Amado Batista, o cantor ora blogueiro, com rosto deformado de cachaça e olho semi cerrado, dizendo nas redes: “acorda Brasil!”. É deixar o Soneca responsável por despertar a turma.

É o Batoré falando em fechar os 3 poderes…o Batoré é um humorista como o Nego Di, não faz ninguém nem rir nem chorar, só passar raiva… Qual era mesmo o programa que o Batoré era engraçadão?

É o Alexandre Ga(ga)rcia corrigido pela própria emissora, pelo colega, ao vivo. Xixi ao vivo. As emissoras tão contratando gente gagá que é pra fazer o cara cometer cagadas no ar só pra isso viralizar na internet.  Caso contrário: quem teria coragem de dar voz para o senhorzinho?

Soldadinhos de papel do Talibã brasileiro. Que até no campeonato da maldade fracassam. Se no Talibã original é certo que o buraco é mais embaixo, também é fato que, aqui, já baixamos além do térreo faz uns anos.

O androcentrismo virado antrocentrismo. Um antro de gente baixo nível.

O discurso que estabiliza o antrocentrismo estabiliza significantes antes fora de moda, recalcados diríamos os psicanalistas, como negacionismo, armamentismo, terraplanismo, comunismo, Deus, família tradicional, blá, blá, blá. O átrio da morte do machismo é esse antro, ora transformado em sala principal. Mas ainda assim um antro: caverna escura cheia de feras e bestas cegas. Curto circuito da intelecção. Instinto puro. Puro medo.

São essas bestas os asseclas da tosquice brasileira. Todos numa festa ruim numa mansão como a do filho 04. Regada a cervejada e sertanojo. Esse machista em formação que acha heroico, igual aos velhos machistas, morrer atirando.

São os ratos que pedem um golpe. Sim, um GOLPE? De novo? É isso? Com esses velhos militares idiotas que lambem o rabo de um … Bolsonaro? Então é isso? A velhice ainda não cansou de passar vergonha?

Temos que respeitar os velhos, mas nunca esses mortos.

De acordo com o google, antro tem duas acepções: “1) gruta natural, profunda e escura que serve de abrigo a feras; furna, e, 2) local asqueroso, propenso à corrupção e degeneração moral”.

PAULO FERRAREZE FILHO é professor e psicanalista em formação


[1] Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=6hKTjxysK6Y&t=214s

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