ARTIGOS

Mimimi é a mãe

por Carlos Eduardo de Figueiredo Andrade

As redes sociais têm se tornado um grande muro digital dos lamentos e reclamações sobre os cerceamentos causados pela cultura do politicamente correto, que tenta impor a censura da minoria comunista-petralha-esquerdopata-opressora (os demônios vermelhos), contra a maioria formada pela sociedade de bem, defensores da moral e dos bons costumes (santíssimos) e suas anedotas inocentes e colocações infelizes, porém nunca intencionais, sobre temas nada importantes como raça, origem, gênero, classe social, orientação sexual, etc.

Deixando de lado a ironia, é importante pensar sobre o incômodo que a classe dominadora sente quando seu posicionamento é questionado, contrariado ou criticado. Quando se pensa na proporção de negros em uma universidade ou a quantidade dessa população em cárceres, nota-se claramente as consequências que séculos de escravidão causaram em nossa nação. A abolição da escravidão libertou o povo negro para outro tipo de dominação, deixaram de ser açoitados no coro, mas continuaram a ser açoitados na alma, na moral, na dignidade, na humanidade. O negro foi liberto no papel, mas continuava vivendo no contexto onde a mentalidade racista, justificada na época pela sociedade, pela igreja e pela ciência, perdurava forte como sempre. Dessa forma o povo preto estava livre, mas sem casa, sem comida e sem perspectiva, sendo obrigado a ocupar lugares às margens da sociedade branca que o rechaçava e ainda se submeter à mesma condição sub-humana que lhe era imposta enquanto escravo em trabalhos de muito esforço e pouco ganho. Neste contexto os negros foram formando suas gerações “livres”, com poucos recursos, nenhuma possibilidade de ascensão social, pouco acesso à saúde de qualidade, moradia decente ou educação. Soma-se ao negligente e cruel contexto social a ideia de inferioridade e dever de servidão atribuída ao povo negro, estigma este que ainda veste a noção do que é ser negro na visão de muitas pessoas nos dias de hoje como consequência histórica da dominação e sofrimento causado a este povo.

O mesmo mecanismo de preconceito e discriminação que acomete a população negra também acomete outros grupos. Mesmo que sejam diferentes em suas gêneses, os preconceitos que acometem mulheres, gays, lésbicas, trans, nordestinos, orientais, entre outros, tem o mesmo mecanismo que o racismo. Eles são talhados historicamente, muitas vezes endossados pela ciência e pela igreja da época, buscando comprovar a inferioridade desses seres e seu dever de servidão frente às pessoas que seriam supostamente superiores. Assim como o racismo, também essas diferenças regem as relações de poder na sociedade contemporânea.

Tendo este contexto histórico como pano de fundo, retornamos ao ponto de partida para pensar sobre a fantasiosa ideia da opressão aos opressores, também conhecida como o “mimimi” dos que se vitimizam. Quando uma pessoa branca faz um comentário maldoso ao cabelo do negro, à sua inteligência, à sua humanidade, comparando, por exemplo, o preto a um macaco em uma “piada”, esse comentário é, sim, preconceituoso, por ter como base toda a historicidade da existência dos povos pretos que está impressa naquela pele preta, naquele cabelo afro, nos lábios grossos e no nariz largo.

Pode ser que a reprodução dessa ideologia racista esteja sendo reproduzida de forma inconsciente, mas isso não pode justificar o ato racista, tampouco torná-lo natural. Uma importante constatação de que vivemos hoje um sistema social impregnado pela égide de um passado que tinha como parâmetro de dignidade e poder o homem, branco, heterossexual, cisgênero e europeu, é o desconforto causado a quem se encaixa em algum nível neste “padrão” de normalidade e dignidade quando alguém que foge aos padrões sociais ocupa lugares de fala e poder.

O homem privilegiado por este sistema social racista, sexista, homolesbotransfóbico, machista, xenófobo e branco quase sempre não consegue lidar com aqueles que ousam ir contra os preconceitos deste sistema que o favorece, muito em parte porque de forma inconsciente teme perder seu lugar de privilégio. Se existe um gay em uma novela que tem 30 atores logo alguém fala “agora “” cheio de veado na televisão”, se tem uma mulher trans em um filme que tem 20 atores cisgêneros, “estão querendo ensinar ideologia de gênero para as crianças”, se uma mulher negra apresenta o maior telejornal do país, “só tá ali porque é preta, e se eu falar vão dizer que é racismo”. Sim, é racismo, é transfobia, é homofobia, porque o julgamento parte da herança do pensamento histórico sobre as representações sociais em relação a estas características estereotipadas, e não sobre a competência, moralidade ou comportamento do indivíduo em si. Assim, são forjados ataques a indivíduos sem nenhum conhecimento prévio de sua história de vida, mas baseados somente nos filtros históricos preconceituosos que permeiam a visão e automaticamente identificam como fora do normal existências que não se encaixam nos seus padrões, e quando essas pessoas que são pré-julgadas e difamadas argumentam contra estes ataques, e ousam desafiar o direito natural à opressão de alguns, são chamados de opressores, ditadores, maculadores da inocência e da verdade que defendem a censura a fim de impedir a livre expressão de pensamento. Seria então a defesa contra a opressão uma forma também de opressão? Não parece coerente, nem mesmo possível, que isso seja verdade, assim como também não parece possível a ideia de que a ofensa do opressor tenha o mesmo peso da ofensa do oprimido nas discussões abordadas neste texto.

Peguemos como exemplo a esquizofrênica ideia de racismo reverso. Se um preto é chamado de macaco é racismo, certo? Certo! Mas se um branco é chamado de branquelo azedo, também é racismo? Não! O racismo pressupõe uma história secular de dominação, depreciação e abuso de uma raça em relação à outra. Ao ofender uma pessoa branca por sua cor comete-se injúria racial porque se ofende a pessoa a partir da cor da sua pele, porém, essa injúria não tem a carga histórica de depreciação e todo tipo de abuso imaginável que se tem ao chamar um preto de macaco, onde ele é chamado a ocupar um lugar de inferioridade frente ao branco. Pessoas brancas não morrem por serem brancas, mas o racismo mata, pessoas morrem todos os dias unicamente por causa da cor da sua pele. Seguindo esse raciocínio pode-se estender este exemplo à ideia equivocada de heterocisfobia, visto que pessoas morrem simplesmente por serem gays, lésbicas e trans, o que não acontece com pessoas heterossexuais cisgêneras.

Portanto, dizer que a defesa ao ataque da ideologia (falida) supremacista viril, branca e heterossexual é mimimi é o mesmo que admitir uma posição a favor do sistema sociocultural secular que favorece alguns em detrimento do sofrimento, da exclusão e da indignidade de muitos outros. Assumir a dor que você não sente como sendo fantasiosa e indigna de ser levada em consideração no contexto histórico, social, e até legal, da sociedade contemporânea, é sustentar um sistema que vai discriminar, violentar e matar pessoas para manter o sossego psíquico e a satisfação egoica de indivíduos privilegiados que vivem na bolha da sua zona de conforto. O mimimi é a resistência daqueles que se cansaram de abaixar a cabeça e aceitar calado os terrores aos quais sempre foram submetidos, é a espada e o escudo do oprimido, é o terror do opressor, é a palavra de liberdade, o grito de revolta, o choro que vem do orgulho de ser quem se é, e sim…o choro é livre!     

CARLOS EDUARDO DE FIGUEIREDO ANDRADE é graduado em psicologia, graduando em direito e pesquisador da temática LGBTQI+

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