por Roger Flores Ceccon

Na literatura, Kafka é o cartógrafo das linhas de fuga. Em A metamorfose, quando Gregor Samsa desperta transformado em inseto, não é apenas o corpo que muda, mas o mundo que se desloca. O que há é um devir-inseto, movimento que desafia a forma humana, a norma, o previsível. O autor não descreve uma monstruosidade, mas uma passagem.
Para Deleuze e Guattari, Kafka é o escritor menor que desmonta o majoritário. Sua literatura não fala de um homem, mas de forças que atravessam as pessoas, os bichos, as máquinas, os coletivos.
Viver de modo deleuziano é aceitar as metamorfoses, perder-se para continuar existindo. Resistir à forma e à identidade que o mundo insiste em impor. Recusar a vida domesticada e previsível do capitalismo. Abrir-se ao devir, esse movimento incessante que dissolve fronteiras e nos faz existir no entre, e não dentro, das coisas.
O pensamento de Deleuze é, antes de tudo, um gesto. Ele não pede que compreendamos o mundo, mas que o inventemos. Pensar é criar mundos possíveis, traçar linhas de fuga, fazer rizoma. Cada encontro é uma chance de produzir a diferença. A filosofia entre o cinema, a literatura e a pintura. Experimentações que pensam com o corpo e sentem com o pensamento.
No cinema, O espelho (1975), de Tarkovski, é um gesto deleuziano. Não há enredo linear, não há um sujeito estável, mas fragmentos de memória, tempo e matéria. É o tempo que pensa, que sente. Tarkovski compõe o que Deleuze chamaria de imagem-tempo. Viver deleuzianamente é habitar um tempo não cronológico, permitir que a vida se expanda fora da ordem.
Na pintura, Francis Bacon, conhecido por suas imagens perturbadoras da forma humana, encarna um modo deleuziano. Suas figuras não representam corpos, mas forças em carne viva, intensidades que escapam da forma. O corpo em Bacon é um corpo sem órgãos, não anatômico ou biológico, mas um campo de potências. Suas deformações não são sofrimento, mas invenção, modos de fazer o corpo sentir de outro jeito, produzir novas sensibilidades.
O mundo contemporâneo, com sua obsessão pela performance, teme o devir. Exige que sejamos produtivos. Mas o viver deleuziano aposta na contramão: na errância, no inacabado, no que ainda não tem nome. É no erro e no tropeço que a vida se inventa.
Na errância do cinema marginal, por exemplo, as histórias ignoram o começo, meio e fim imposto pela acepção clássica da narrativa aristotélica. Não existe ordem na montagem das cenas. A maioria dos filmes tem edição caótica e solta, com cortes abruptos.
Em Copacabana Mon Amou (1970), dirigido por Rogério Sganzerla com produção de Júlio Bressane, observam-se cenas repetidas, que aparecem aleatoriamente, ou diálogos que pertenciam a uma cena são ouvidos em outra, que não corresponde ao que está sendo falado pelos personagens, criando outros significados à medida que as repetições acontecem. É a errância em movimento, em produção.
Para que se viva de modo deleuziano, é preciso reaprender a ver, a sentir, a desejar. Fazer do pensamento uma criação estética e do desejo uma força política. Desapegar-se da identidade e acompanhar o movimento do mundo, como quem atravessa um campo de forças, e não um território seguro.
Viver de modo deleuziano é fazer da existência uma obra aberta, uma pintura em processo, um filme sem roteiro, uma metamorfose infinita. Afirmar, como quem respira: não há destino, há apenas devires.
ROGER FLORES CECCON é professor do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, da Residência Multiprofissional em Saúde da Família e do curso de Medicina do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Pós-Doutor em Saúde Coletiva (UFRGS).
Categorias:ARTIGOS, destaque, Sem categoria
