ARTIGOS

Augusto Boal, teatro e resistência

por Daniel Giovanaz

Nascido há 90 anos, dramaturgo levou aos palcos, com o Teatro do Oprimido, narrativas populares e ideias insurgentes. Criou uma nova escola de luta política a partir dos dramas da população brasileira. Por isso, foi perseguido e exilado.

Um teatro genuinamente brasileiro, em que os trabalhadores se apropriam dos meios de produção artísticos e as fronteiras entre ator e espectador se diluem. Esse era o horizonte que vislumbrava Augusto Boal, nascido há exatos 90 anos no Rio de Janeiro (RJ).

Os vínculos que ele construiu com organizações da classe trabalhadora, no campo e na cidade, são lembrados com carinho até hoje.

O buraco deixado por sua morte, em 2009, só não é maior do que as contribuições legadas à cultura brasileira.

As primeiras sementes

Filho de um padeiro e uma dona de casa, Boal nasceu na Penha em 1931 e começou a dirigir peças familiares, como brincadeira, aos nove anos.

A paixão pelo teatro dividia espaço com a Engenharia Química. Em meio aos estudos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele escrevia textos curtos sobre a gente de seu bairro.

“As primeiras obras abordaram o tema dos trabalhadores precarizados, pescadores, racismo. Ele teve uma proximidade muito grande com Abdias Nascimento e o Teatro Experimental do Negro, que o influenciaram muito”, lembra Douglas Estevam, formado em direção teatral pela Escola Livre de Teatro, militante do setor de cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e mestrando em Filosofia na Universidade de São Paulo (SP).

Em 1953, Boal mudou-se para os Estados Unidos para fazer doutorado na área de petróleo e plástico. Além de frequentar aulas na Columbia University of New York, ele fez cursos com o teórico e crítico teatral John Gassner e participou como ouvinte em sessões do Actor’s Studio.

“Esse grupo de teatro foi influenciado por experiências de laboratório com metodologias que vieram, dentre outros lugares, da União Soviética”, explica Rafael Villas Bôas, professor de Teatro da Universidade de Brasília (UnB) e diretor da televisão universitária UnB TV. “Lá ele conheceu um grande arcabouço do teatro moderno, e trouxe esse conhecimento ao Brasil.”

Teatro de Arena

O Brasil, naquela época, ainda não havia consolidado uma dramaturgia sobre as questões e os personagens nacionais.

Esse processo, que havia ocorrido na literatura a partir de Machado de Assis, no fim do século 19, e com o regionalismo da década de 1930, não havia se refletido até então no teatro.

“A formação política e artística que teve nos Estados Unidos, ele socializou no Teatro de Arena, quando voltou ao Brasil [em julho de 1955], sempre preocupado com a temática nacional-popular”, acrescenta Estevam, lembrando também dos laços que Boal estabeleceu com movimentos negros estadunidenses.

A estreia no Teatro de Arena de São Paulo foi em setembro 1956, como diretor artístico ao lado de José Renato. A peça era Ratos e Homens, de John Steinbeck.

Uma das principais contribuições do Teatro de Arena foi o Seminário de Dramaturgia, fundado em 1958. A ideia era analisar as peças de Boal e outros dramaturgos do ponto de vista estético e político.

Os autores se debruçavam sobre os problemas brasileiros, colocando em cena personagens e temas até então pouco explorados.

“Boal também cria o laboratório de dramaturgia, o laboratório de interpretação, e vai formando no Brasil uma espécie de escola de escrita dramatúrgica, com as técnicas que aprendeu nos EUA”, ressalta Villas Bôas. “O Arena se torna um pivô do encontro do teatro brasileiro com a realidade nacional.”

Temas como futebol, corrupção e questão agrária, debates sobre imperialismo e soberania nacional, entram em cena nessa época.

É nesse contexto que Augusto Boal se aproxima das Ligas Camponesas, produzindo peças sobre os “de baixo” e sua luta pela terra.

O dramaturgo participou, por exemplo, da redação de “Mutirão em Novo Sol”, peça apresentada no Congresso Camponês de 1961 que se tornou popular entre os trabalhadores rurais do Nordeste e de várias partes do país.

Exílio

O golpe civil-militar de 1964 interrompeu esse processo de trocas e amadurecimento político junto às Ligas Camponesas, perseguidas pela ditadura.

As peças provocativas e a participação em protestos contra a censura também fizeram de Boal um alvo. Depois de excursionar por Estados Unidos, México, Peru e Argentina entre 1969 e 1970, o dramaturgo voltou ao país e foi preso e torturado no ano seguinte.

A violência o empurrou para um longo período de exílio. Depois de cinco anos em Buenos Aires, Boal trabalhou em um programa de alfabetização no Peru, em 1973, e em seguida desenvolveu projetos artísticos junto a indígenas do Equador.

A ditadura continuou até 1985, impedindo que o dramaturgo retornasse. Embora ele se distanciasse fisicamente do país, residindo em Portugal e depois na França, sua obra falava cada vez mais sobre o Brasil.

“Quando privado do público, com o AI-5 e com a repressão, Boal procura encontrar o público popular mobilizando de forma criativa técnicas que ele conhecia de outras experiências, mas dentro de um conjunto que ele chama de poética do Teatro do Oprimido”, explica Rafael Villas Bôas.

Teatro Imagem, Teatro Jornal, Teatro Fórum e Teatro Invisível são algumas das expressões desse novo arcabouço, em meio à um ciclo de ditaduras na América Latina.

Teatro do Oprimido

A primeira edição de “Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas”, obra-prima de Boal, chegou ao Brasil em 1974, sistematizando reflexões dos três anos anteriores.

Nascia, assim, um método teatral que reunia exercícios, jogos e técnicas teatrais para democratização dos meios de produção teatral e transformação da realidade por meio do diálogo.

“O Teatro do Oprimido é uma forma de mobilizar experiências de agitação e propaganda, não no campo panfletário, como tradicionalmente se entende, mas na articulação entre informar, formar e organizar, em uma pedagogia socialista”, acrescenta o professor da UnB.

A influência do educador Paulo Freire, autor de “Pedagogia do Oprimido”, é evidente.

Boal propõe o rompimento das fronteiras entre a arte cênica e a prática política, entre ator e espectador, visando à formação de sujeitos sociais que se tornam multiplicadores da luta por direitos e por cidadania.

“A concepção principal do Boal era a de que os próprios trabalhadores e trabalhadoras pudessem se apropriar dos meios de produção artísticos. É por isso que ele foi tão atacado pela direita, e por isso é tão estimado pelos setores populares e organizações sociais”, enfatiza Douglas Estevam.

Desde 2017, o Brasil possui em seu calendário oficial o Dia Nacional do Teatro do Oprimido. A data escolhida é justamente 16 de março, em homenagem a seu criador.

Vínculo com os sem-terra

O MST, em que Estevam atua, foi um dos movimentos em que o Teatro do Oprimido gerou frutos. As técnicas também foram estudadas e aplicadas por sindicatos, comunidades católicas, como a Pastoral Carcerária e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), e ganharam tradução para mais de 20 idiomas.

Boal voltou ao Brasil em 1986, um ano após o fim da ditadura, e criou meses depois o Centro de Teatro do Oprimido (CTO).

A proposta era desenvolver metodologias específicas do Teatro do Oprimido em laboratórios e seminários, para revisão, experimentação, análise e sistematização de exercícios, jogos e técnicas teatrais.

O CTO foi a única instituição que teve a direção artística de Augusto Boal nos seus últimos 23 anos de vida. 

A aproximação desse centro com o MST, no início dos anos 1990, foi uma forma de recuperar os vínculos com as Ligas Camponesas, desmantelados pelo golpe de 1964.

Em 2001, o dramaturgo participou da criação da Brigada de Teatro Patativa do Assaré, do MST. A ideia era formar multiplicadores que se apropriassem das técnicas do Teatro do Oprimido para difundi-las nas escolas, assentamentos, acampamentos e centros de formação.

“Nós formamos mais de 40 grupos nesse trabalho conjunto com Boal, que prosseguiu até o final da sua vida, em 2009”, relata Estevam, que integra a coordenação nacional da brigada. “O resultado dessa parceria foi uma ampla produção dramatúrgica, abordando temas da luta pela terra, da luta contra o imperialismo, questões raciais e de gênero no interior das nossas organizações.”

Esse processo, encabeçado pelo MST, teve repercussões em outras organizações da classe trabalhadora, como o Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e o Movimento de Atingidos por Barragens (MAB).

“Hoje, o Teatro do Oprimido tem uma presença crescente na universidade também”, afirma Villas Bôas. “O desafio é organizar a resistência popular nas comunidades, territórios, assentamentos, quilombos, fortalecendo grupos e se articulando em redes.”

O professor de Teatro da UnB enaltece experiências de luta que foram destruídas pela repressão, como o Centro Popular de Cultura da UNE, o Movimento de Cultura Popular e o próprio Teatro de Arena, e enfatiza a importância do legado de Boal e Paulo Freire – cujo centenário também é comemorado em 2021.

“A educação popular, a cultura popular, a comunicação popular e o poder popular estão vivos, e estão resistindo ao avanço do neofascismo”, completa.

Homenagem

Nomeado “Embaixador do Teatro” pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Boal enfrentou uma leucemia e faleceu por insuficiência respiratória em maio de 2009, no Rio de Janeiro.

Na última terça (16), o Instituto Augusto Boal preparou uma programação virtual em homenagem aos 90 anos do dramaturgo.

“A gente vai tentar fazer a melhor das homenagens por uma via que não é a melhor de todas, a internet”, lamenta o filho Julian Boal, nascido durante o exílio na Argentina.

“Porque a forma mais adequada de homenagear meu pai é criar mais e mais grupos do Teatro do Oprimido, fazendo trabalho de base em todos os cantos do Brasil, nas ruas, nas comunidades, e não simplesmente um evento”, completa.

Diante das limitações da pandemia, o Instituto convidou grupos teatrais de várias partes do mundo para produzirem vídeos representando algumas das cenas de Boal. A transmissão está disponível no canal do Instituto Augusto Boal no Youtube.

“Também convidamos pessoas para lerem textos dele, conforme o tema e a área em que atuam”, explica Julian.

O discurso de Boal em homenagem a Paulo Freire na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro (RJ), por exemplo, foi lido pelo professor e vereador Tarcísio Motta (PSOL). João Pedro Stedile, membro da direção nacional do MST, foi escolhido para ler um texto sobre o encontro de Boal com as Ligas Camponesas.

DANIEL GIOVANAZ é jornalista (UFSC) e atualmente faz reportagens para o Brasil de Fato

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