ARTIGOS

1 ano

por Paulo Ferrareze Filho

Aconteceu. 1 ano fazendo tudo errado. 1 ano desdenhando da ciência. 1 ano e acabaram as UTIs.

1 ano e pouquíssima gente arrependida de ter ajudado a colocar um sádico no timoneiro. 1 ano que, para azar geral da nação, ficamos sem presidente no momento em que, mais do que nunca, precisávamos de um presidente. Podia ter sido o Henrique Meireles. Podia ter sido o picolé de chuchu. Podia ter sido o Ciro, o Haddad, o Glória a Deus. Com nenhum outro estaríamos piores.

Quem tem, ainda que ínfima, alguma relação com a realidade, vive o temor da morte iminente, do azar fatídico. 1 ano trágico como resultado de um colapso cognitivo do brasileiro médio. 1 ano e literalmente não temos onde cair mortos. 1 ano, 300 mil mortos. É o jornal estampar todo santo dia a queda de 15 aviões ao redor do Brasil. Um pouco mais e seria um avião cair todo dia em cada 1 dos estados brasileiros. 1 ano de lutos e o impeachment na latrina do presidente do congresso. O presidente do congresso é a alma onisciente do povo brasileiro que diz: “vamos aguentar só mais um pouquinho, essa ardência fodida já vai passar, ele até que é engraçado, o Bozo, o palhaço, lembram dele?”

Aos que mantém um certo espírito burguês, o incômodo não é pelas mortes em si, mas pela impotência de um deus chamado dinheiro. Nova prova de que quanto mais se pretende a divindade, mais próximo da canalhice se está. Um empresário curitibano disse: “posso comprar dois hospitais, mas minha mãe não tem um leito de UTI.”

Um jornalista conservador mineiro virou notícia porque se arrependeu de apertar 17. São tão tão raros os arrependidos que viram manchete. Deve ter muito arrependido no armário. Desdenhando do jogo porque percebeu que perdeu o jogo. Fora os arrependidos e o povo do armário, resta loucura, perversão ou dez minutos de conversa séria.  Porque, sim: há explicação para o absurdo.

Um dos pontos mais sensíveis das democracias formais demasiado formais é este: a maioria pode sempre jogar a todos no fosso. 1 ano de fosso democrático pela força das urnas sedentas pelo fim da corrupção. 1 ano e quer dizer então que o Moro armou tudo?

1 ano de um país inteiro esperando vergonha na cara e um pedido de perdão. 1 ano e a gente aqui, perdendo tempo com o que deveria ser óbvio desde Hitler: não se dá poder para um sádico. Um dos tesões masoquistas é firmar e aplicar contratos rígidos. Traço que não combina com contrato social. 1 ano. 1 ano gestando a guerra de todos contra todos dividida em 2 exércitos: os que aderem à mascara e os que acham que máscara é histeria. 1 ano, será que somos todos palhaços?

PAULO FERRAREZE FILHO faz pesquisa de pós-doutorado em Psicologia Social (USP), é psicanalista em formação (CEAII/HSC-Unifebe) e professor de Psicologia do Direito (UNIAVAN)

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