ENTREVISTAS

Entrevista com Noam Chomsky: “neoliberalismo destrói a política feita para vulneráveis”

por Juan Manuel Domínguez

Arte de Cris Vector

Noam Abraham Chomsky nasceu na Filadélfia (EUA) em 1928. É linguista, filósofo e professor.

Cresceu em meio a um ambiente familiar judeu onde acompanhou e participou, juntamente com seu irmão David Eli Chomsky, de debates sobre política sionista, já que sua família estava muito envolvida no sionismo de esquerda.

Chomsky estudou na Universidade da Pensilvânia, onde foi influenciado por Zellig Harris. Concluiu seu doutorado em 1951 em Harvard e, finalmente, em 1955, mudou-se para a Universidade da Pensilvânia, onde estudou para iniciar um intenso e longo ensino de carreira no Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Chomsky é um grande crítico do capitalismo, especialmente da política externa dos Estados Unidos. Em 1967 iniciou sua incursão no ativismo político, opondo-se à participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Daí derivou seu livro de ensaios intitulado A Responsabilidade dos Intelectuais, pelo qual recebeu grande reconhecimento internacional.

Entrevistamos Chomsky para tentar compreender as articulações entre o espírito idolátrico de nossos tempos, a potência das novas e velhas mídias e o avanço da extrema-direita e do conservadorismo nas redes de poder político global.

***

1. Trump e Bolsonaro geraram, em uma parcela da população de seus países, uma espécie de idolatria messiânica. Estamos acostumados a culpar a ignorância e a manipulação da mídia por causar essa alienação em massa. Mas até que ponto não devemos fazer uma análise do vazio institucional que os períodos democráticos anteriores deixaram?. Na sua opinião, qual é a reflexão que devemos fazer sobre isso para entender o ar de nossos tempos?

Existem algumas semelhanças entre os países. Um é o papel extraordinário da religião. Nos EUA, cerca de um quarto da população é evangélica. Eles amam Trump porque ele lhes joga alguns ossos. Eu acho que tem algo parecido no Brasil. Os EUA passaram por 40 anos de prática e propaganda neoliberais que, previsivelmente, aumentaram sobremaneira a riqueza concentrada e o poder econômico, enquanto a maioria estagnou ou declinou. A maioria vive agora do salário desta semana e não pode lidar com nenhuma emergência. O ataque neoliberal à população foi acompanhado por um poderoso ataque ideológico: ódio ao governo, ódio às práticas da política e transferência de políticas públicas para poderes privados de modo inexplicável. O respeito pelas instituições entrou em colapso e o programa neoliberal de destruição de associações e atomização de pessoas (“não existe sociedade”) deixou uma massa de gente desamparada. A vitória do neoliberalismo foi destruir a política como refúgio para os vulneráveis. No Brasil, uma das grandes falhas do PT foi não se organizar na base. Alguns estudos mostram que a maioria dos destinatários do Bolsa Família não sabe de onde vem o dinheiro. Quando perguntada, a maioria diz: “Deus”. Talvez essa ignorância tenha ligação com isso que vocês chamam de idolatria messiânica.

O que é necessário, em ambos os países, são sérios programas educacionais e organizacionais para reunir as pessoas e fazer com que se comprometam a assumir o controle de suas próprias vidas, prontas para superar os graves males sociais. Ao longo da história moderna, os sindicatos têm liderado esses esforços. Isso pode acontecer novamente, de outros jeitos, com outras várias possibilidades.

2. Você sempre foi um grande crítico das corporações midiáticas tradicionais. Hoje se pensa que as redes sociais como Instagram e Facebook democratizaram a informação. Mas, será realmente esse um processo democrático na medida em que Facebook, Instagram, Whatsapp, Youtube e Google pertencessem, todos juntos, a menos de cinco pessoas?

Esse questionamento é interessante e necessário. Isso não deveria acontecer. Em toda a economia, a monopolização e a concentração de poder aumentaram durante o período neoliberal e devem ser revertidas, como um passo em direção a uma sociedade mais democrática, baseada no controle popular. Devemos buscar alternativas e evitar a concentração dos canais de informação se queremos uma sociedade mais equitativa e justa.

3. Com Trump, a ultra-direita chegou ao poder com um forte discurso de ódio, segregacionismo e insensibilidade em relação aos outros. A linguagem deles é muito simbólica, messiânica e nacionalista. Em algum momento eles assumiram o sentimento antiglobalização que sempre foi uma agenda forte da esquerda. Ainda é o nacionalismo que decide o voto popular?

O nacionalismo sempre será um gatilho afetivo muito forte na população, porém, não há regra geral. Depende das forças concorrentes na sociedade.

4. Tradicionalmente, o debate entre esquerda e direita era limitado à opressão do capital. Hoje o debate sobre opressão também abrange racismo, sexismo, homofobia, gordofobia, meio ambiente etc… Você acha que nenhuma dessas opressões pode ser colocada na agenda enquanto prejudica as outras?

As pessoas naturalmente têm suas próprias prioridades, mas existem semelhanças suficientes nessas estruturas para interação construtiva e apoio mútuo (a isso chamamos de “interseccionalidade”). Todas as pautas têm uma ligação em comum, o desafio é costurar todas elas juntas em uma frente comum capaz de vencer essas novas tendências fascistas. 

5. Você, como intelectual, esteve envolvido em debates coletivos a vida toda e apoiou movimentos populares inúmeras vezes. Sempre se fala da necessidade desses movimentos se alimentarem das teorias produzidas por intelectuais e pela academia de modo geral. Mas, na sua opinião e com sua experiência, quanto é necessário para um intelectual se enriquecer participando desses movimentos? Quanto está faltando que a intelectualidade “desça” até o lugar onde estão acontecendo as mudanças fundamentais desse período histórico?

Tanto os chamados “intelectuais” quanto os movimentos populares têm tudo a ganhar com essa participação. É necessária uma interação real e recíproca. Não se pode pensar no mundo intelectual como um olimpo afastado do mundo onde acontece a ação. É quando o mundo das ideias se mistura com o mundo da ação que acontecem as mudanças desejadas pelo campo progressista.

6. Um debate sobre um sistema universal de saúde é essencial com a experiência pandêmica que passamos. Você acredita que esse debate será bem-sucedido?

Certamente é essencial. Mesmo em tempos normais, o custo anual do sistema de saúde privatizado dos EUA, altamente ineficiente e cruel, é estimado em cerca de US $ 500 bilhões de dólares e 70.000 mortes. O quão bem-sucedido será, novamente, depende do poder das forças em disputa.

7. Como foi percebida a vitória do estado chinês sobre o Covid-19 nos EUA?

Por cientistas e pessoas que penetram na avalanche de propaganda, ela é considerada um sucesso considerável. Mas o medo e o ódio do “perigo amarelo” não são difíceis de gerar nos EUA. Tem uma longa história. Foi abalado pelos esforços desesperados de Trump para encontrar um bode expiatório para seus crimes contra o povo americano, ao matar dezenas de milhares durante a pandemia. Sua escolha foi culpar a China e evocar o racismo tradicional.

8. Você acredita que os EUA insistirão em se posicionar como a nação escolhida para cuidar do mundo, considerando seu péssimo desempenho no que se refere à salvar seu próprio povo do Covid-19?

Trump causou grandes danos aos Estados Unidos, mas mesmo ele não pode minar sua posição de enorme poder. As pessoas podem não gostar e até ridicularizar o sistema de poder dos EUA, mas ainda o temem. E com razão. Os EUA certamente não são admirados por cuidar do mundo, mas governar o mundo é uma questão separada. A classe conservadora dos EUA é cruel e gananciosa, eles não vão abrir mão do controle estratégico que eles têm em diferentes pontos do planeta. Os interesses são demasiado grandes e eles têm muito a perder com isso. Acho que teremos pela frente uma disputa estratégica entre China e EUA que vai determinar as relações internacionais pelas próximas décadas.

JUAN MANUEL DOMÍNGUEZ é militante, professor, escritor, jornalista, roteirista, produtor e diretor de cinema. É também fotógrafo de documentários que fazem a defesa dos direitos humanos

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2 respostas »

  1. A política de TRUMP nós vamos EUA assim como a de BOLSONARO no Brasil foram um fracasso.
    Na questão de saúde pública apesar do nível de pobreza do Brasil ser infinitas vezes superior ao dos EUA quando se pensa em renda percapta que e uma forma de máscara que as pessoas são privadas de necessidades básicas enquanto poucos acumulam quase tudo que se produz, o Brasil tem um SUS uma estrutura pronta que foi sub aproveitando pelo atual GOVERNO ou por negligência ou por maldades, se observou que proporcionalmente o Covid-19 matou e continua mantando muito nom

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