ARTIGOS

Freud e o “infamiliar”

por Gilson Iannini e Pedro Heliodoro Tavares

Das Unheimliche (infamiliar) é uma palavra e um conceito; o título de um texto e o nome de um sentimento aterrorizante; um domínio desprezado pela pesquisa estética e o efeito da leitura de certos contos fantásticos. Mas talvez seja inapropriado separar palavra e conceito, já que Freud anuncia desde o início o intuito de delimitar com precisão, no interior do vasto âmbito daquilo que suscita angústia e horror, um núcleo específico que justifique a particularidade dessa palavra-conceito (Begriffswort), o núcleo específico do unheimlich. Mas dizer isso ainda é dizer pouco: partindo de uma intrincada análise lexicológica da palavra-conceito que intitula o ensaio, Freud pretende justamente cingir o real que ela recorta. Para fazê-lo, ele mobiliza uma trama de referências que parte da ciência, passa pela filologia e pela estética, indo até a literatura fantástica, sem nunca perder de vista o que interessa ao psicanalista, convocado desde a primeira linha do ensaio. Num movimento às vezes vertiginoso, Freud se apropria de uma palavra de uso relativamente comum em alemão (pelo menos em seu uso adjetivo-adverbial), empresta-lhe um estatuto conceitual, transporta-a por variadas searas linguísticas e filosóficas, examina a experiência literária que melhor a engendra, escrutina a vivência real que ela recorta, para, ao final, devolver a palavra à língua, mas desta vez com o selo perene da psicanálise. Desde então, sob o impacto dessas investigações, seus leitores nas mais diversas áreas passam a contar com uma apreensão muito distinta da que tinham anteriormente. O Unheimliche – tanto a palavra quanto aquilo que ela “designa” – se é que podemos fazer essa distinção – não é o mesmo antes e depois da publicação desse ensaio, em 1919, há exatos 100 anos. Definitivamente, a análise empreendida por Freud modifica não apenas a língua alemã, acrescentando um sentido e um emprego inauditos, mas ainda exporta para todas as línguas através das quais a psicanálise se difundiu um significante novo e incômodo, um vocábulo, a rigor, intraduzível.

Não por acaso, e por motivos que a própria leitura do texto esclarece, sua tradução implica dificuldades maiores. Uma consulta rápida às melhores traduções disponíveis nas línguas mais próximas da nossa atesta-o
facilmente. Só em francês, foram propostas pelo menos três traduções diferentes: “L’inquiétante étrangeté” (Gallimard), “L’inquiétant familier” (Payot) ou simplesmente “L’inquiétant” (PUF); em espanhol, “Lo siniestro” (Biblioteca Nueva) ou “Lo ominoso” (Amorrortu); em italiano, “Il perturbante” (Boringhieri); em inglês, “The uncanny” (Standard Edition); em português, “O estranho” (Edição Standard) ou “O inquietante” (Companhia das Letras). Nenhum vocábulo freudiano apresenta tantas variações e tantas soluções diferentes. Nesse sentido, estamos diante de um “intraduzível”: “o intraduzível não é o que não pode ser traduzido, mas o que não cessa de (não) traduzir” (CASSIN, 2018, p. 17). Não se trata aqui de repetir o dogma da intraduzibilidade, ou de sugerir uma suposta superioridade ontológica desta ou daquela língua. Ao contrário, as muitas traduções diferentes de das Unheimliche são um índice inequívoco de que estamos diante de uma palavra intraduzível. O intraduzível, por sua vez, é o sintoma por excelência da diversidade das línguas (SANTORO, 2018, p. 158).

Falar de intraduzíveis não implica absolutamente que os termos em questão, ou as expressões, os expedientes sintáticos e gramaticais, não sejam traduzidos e não possam sê-lo – o intraduzível é antes o que não cessa de (não) traduzir. Mas isso assinala que a sua tradução, em uma língua ou em outra, causa problema, a ponto de suscitar às vezes um neologismo ou a imposição de um novo sentido para uma velha palavra: é um indício da maneira como, de uma língua à outra, tanto as palavras quanto as redes conceituais não podem ser sobrepostas (CASSIN, 2018, p. 17).

Na presente tradução, depois de experimentar várias soluções possíveis, optamos por “infamiliar”, por razões que serão explicitadas mais à frente. Apesar de ser um aparente neologismo, “infamiliar” é a palavra em português que melhor expressa, tanto do ponto de vista semântico quanto do morfológico, o que está em jogo na palavra-conceito Unheimliche em seus usos por Freud. Não porque “infamiliar” expresse o “mesmo” conteúdo semântico do original alemão ou porque se situe numa rede conceitual “equivalente”, mas justamente pela razão inversa. O “infamiliar” mostra que o muro entre as línguas não é intransponível, mas também que a passagem de uma língua a outra exige um certo forçamento. O “infamiliar” não é, nesse sentido, resultado da fidelidade à língua de partida, mas o vir à tona da infidelidade que tornou possível a transposição do hiato entre as línguas. É uma marca visível da impossibilidade da tradução perfeita. Assim, não deixa de ser também uma “intradução”, que, em vez de esconder o problema da inevitável equivocidade da tradução, o faz vir à tona.

Um aspecto suplementar em favor dessa intradução é a ambiguidade inerente ao vocábulo “familiar”. Não é incomum experimentarmos situações que nos fazem dizer coisas do tipo: “seu rosto me é familiar”, “isso me soa familiar”, “este lugar me é tão familiar!”; mas nesses casos, não raro, ao pronunciarmos “familiar”, insinuamos, numa corrente silenciosa e inaparente, também seu exato oposto. Como se, na verdade, disséssemos algo do tipo: “seu rosto me é familiar [mas não me lembro de onde, (e/ou) nem sequer me lembro do seu nome]”, ou “isso me soa familiar [embora pareça meio estranho]”, ou ainda “esse lugar me é tão familiar [mas não sei bem por quê, acho que nunca estive aqui]”. Nesses casos, estamos diante de ressonâncias e reverberações bastante ambíguas – ou mais precisamente antitéticas – da expressão “familiar”: trata-se de algo que, por um lado, reconhecemos como íntimo e já conhecido, mas, por outro lado, percebemos como desconhecido, como estranho e inquietante, como esquecido e oculto, de e em nós mesmos. Nesse aspecto particular, “familiar” assemelha-se bastante ao alemão heimlich, que designa algo bastante familiar, mas que pode também abrigar seu sentido antitético. O unheimlich é uma negação que se sobrepõe ao heimlich apreendido tanto positiva quanto negativamente: é, portanto, uma reduplicação dessa negação, que acentua seu caráter angustiante e assustador. A palavra em português que melhor desempenha esse aspecto parece ser “infamiliar”: do mesmo modo, ela acrescenta uma negação a uma palavra que abriga tanto o sentido positivo de algo que conhecemos e reconhecemos quanto o sentido negativo de algo que desconhecemos. É claro que o original alemão guarda um núcleo angustiante e aterrorizante que “familiar” não abriga, pelo menos em seu uso cotidiano.

Entre as traduções mais conhecidas em português para unheimlich, a comunidade psicanalítica costuma oscilar entre palavras como “estranho” ou “inquietante”, ou por locuções como “estranho-familiar”. Grosso modo, “estranho” teria a vantagem de designar o sentimento de “estranheza” presente em certos episódios de angústia. Mas tem pelo menos duas desvantagens patentes e difíceis de superar: em primeiro lugar, o alemão dispõe do termo fremd, que traduz o que é estranho, alheio ou estrangeiro, como, por exemplo, na palavra composta Fremdsprache – “língua estrangeira”, ou quando se recomenda a uma criança que não fale com estranhos/desconhecidos (fremde Menschen); além disso, “estranho” não contém em sua composição o oposto requerido pela palavra Unheimliche. Toda a análise de Freud apoia-se no caráter ambivalente da palavra negada pelo prefixo Un-, que reduplica a ambivalência, mas que a conserva e evoca ao mesmo tempo. Por seu turno, “inquietante” tem a vantagem de conter o aspecto linguístico da oposição “quieto-inquieto”, que remete ao “apaziguador” em oposição ao que é “perturbador da paz”. Contudo, a questão da “aquiescência versus excitação” não parece ser a tônica da oposição unheimlich/heimlich. Nessa palavra escapa-nos também a remissão à ambiguidade entre o que é próprio ou alheiodoméstico ou exterior. Além disso, o texto de Freud tende a destacar como o que produz a maior inquietação ser justamente o heimlich (íntimo-secreto), linguisticamente, o aparente oposto de unheimlich. Afinal, como escreve Marguerite Duras, “é numa casa que a gente se sente só. Não do lado de fora, mas dentro”.

***

Uma tradução direta do alemão deve fazer jus não somente ao grande escritor, mas também à precisão conceitual quanto ao tratamento dos vocábulos-chave utilizados por ele na elaboração da teoria psicanalítica. Nesse sentido, o presente volume aborda o conceito que gera uma das maiores polêmicas quanto à sua possível (ou impossível) tradução, principalmente se optarmos pela escolha de uma só palavra potencialmente “equivalente”, e não por alguma locução ou combinação explicativa, como “estranho-familiar” ou “inquietante-estranheza”.

Tal dificuldade não diz respeito ao suposto fato de se tratar de algum neologismo na língua de partida. Se depois de Freud abundam exemplos de uso de neologismos para dar conta de conceitos e proposições psicanalíticas, um dos pontos marcantes da escrita freudiana consiste no uso magistral dos recursos da língua alemã, sem nem fundar um novo jargão técnico a partir de línguas clássicas nem propor a criação de novas palavras que se afastassem do léxico já difundido. No caso do conceito-título em questão, tem-se mais um grande exemplo de como Freud sabia se valer da sabedoria disponível em sua língua de expressão, o alemão.

Trata-se aqui do uso de um dos peculiares recursos constantemente empregados por Freud, alguns deles já comentados em outros paratextos desta coleção. Um deles seria a possibilidade de compor palavras pela justaposição de termos, como em Fehlleistung (ato falho), Deckerinnerung (lembrança encobridora) ou Seelenbehandlung (tratamento anímico); outro, o da matização de sentidos para um verbo a partir da mudança de seu prefixo, como no caso de arbeiten (trabalhar), que se desdobra em bearbeiten (elaborar – “operar sobre um material”) (HANNS, 1996, p. 190), verarbeiten (“assimilar” ou “integrar” um material psíquico) (HANNS, 1996, p. 190) e, até mesmo, durcharbeiten (perlaborar). Note-se que neste último caso somente conseguimos aportar sua especificidade à língua portuguesa graças à proposição de uma composição previamente indisponível no léxico que, contudo, respeita as regras de formação de palavras (como em percorrer, perfazer etc.).

Se tal procedimento tende a ser evitado nesta coleção antes de exaustiva busca por uma forma adequada de tradução a partir do léxico preexistente – inclusive buscando fazer justiça ao estilo freudiano de escrita –, vale aqui lembrar ao leitor que muito daquilo que passa a ser oficialmente incorporado ao léxico oficial das diferentes línguas nacionais tem sua origem em algo proposto em algum momento por algum tradutor que inseriu “por contrabando” na língua de chegada algo condizente à sabedoria de uma língua estranha/estrangeira. Caberia aqui menção ao eloquente exemplo fornecido pelos tradutores franceses de Freud pela editora PUF referente à tradução da palavra évolution (evolução) com a mesma grafia do texto-fonte inglês quando do lançamento do livro A origem das espécies, de Charles Darwin, em tradução francesa. Na ocasião, houve quem recebesse com grande estranhamento a proposição desse “neologismo”, ao menos na acepção proposta. Hoje, inegavelmente, évolution é uma palavra de uso tanto científico quanto cotidiano (COTET; BOURGUIGNON; LAPLANCHE, 1989). Eis algo fundamental na reflexão proposta por Freud em 1919: como respondemos àquilo que um estrangeiro nos aporta, especialmente quando esse algo é absurdamente familiar e doméstico para ele, mas claramente exótico e ameaçador, pelo menos da perspectiva de nossa suposta integridade identitária, que resiste a assimilar o estrangeiro. Os nexos profundos entre tradução e política não tardam a aparecer.

Do ponto de vista linguístico, especificamente, o recurso empregado no conceito-título das Unheimliche é mais um dos muitos disponíveis na língua alemã, aliás, amplamente utilizado por autores teóricos e, sobretudo, pelos grandes filósofos que dela fizeram uso e nela se expressaram. Trata-se da possibilidade de transformarmos em substantivos outras classes de palavra, tais como pronomes, verbos, advérbios ou adjetivos. Com Freud isso não foi diferente. Tais casos são numerosos e muito significativos em seu vocabulário fundamental. Sem propriamente engendrar novas palavras, Freud transforma em substantivos o adjetivo ou mesmo o advérbio unbewusst (inconsciente) em das Unbewusste (o inconsciente), os pronomes retos ich (eu) e es (isso) em das Ich (o Eu) e das Es (o Isso) ou, até mesmo, os verbos marcados pelo prefixo ver- – que dão nome aos capítulos de Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901) – vergessen (esquecer), vergreifen (equivocar-se ao agir), verlesen (equivocar-se lendo) ou versprechen (equivocar-se falando), transformando-os nos substantivos das Vergessen (o esquecer/esquecimento), das Vergreifen (o equivocar-se ao agir), das Verlesen (o equivocar-se lendo) e das Versprechen (o equivocar-se falando).

Assim, o adjetivo/advérbio de uso corrente unheimlich passa a ser grafado das Unheimliche. Algo não muito distinto do que fez, entre tantos outros exemplos possíveis, Arthur Schopenhauer num escrito igualmente dedicado a reflexões sobre a estética. Em sua Zur Methaphysik des Schönen (Sobre a metafísica do belo), o adjetivo schön (belo) torna-se o substantivo das Schöne (o belo). Notem-se aqui certas marcas distintivas desse procedimento: a atribuição do gênero neutro (das, à diferença do masculino der e do feminino die), além da grafia da palavra com inicial maiúscula e com a desinência final em -_e_, no caso de adjetivos. Por esse motivo, nesta coleção preferimos igualmente grafar com inicial maiúscula as palavras “Eu” e “Isso”, quando usadas como substantivos referentes às instâncias psíquicas da assim chamada segunda tópica freudiana. Fundamentalmente, com isso, apresentamos um dos aspectos principais quanto ao que há de inovador e peculiar no escrito em questão: ele eleva à categoria de conceito uma palavra que antes aparecia na língua como simples, e quase acessório, qualificador.

Mas essa não é ainda a principal dificuldade na tradução de das Unheimliche. O problema fundamental é anterior à elevação da palavra ao estatuto de conceito. A dificuldade já se apresenta desde sua forma de adjetivo-advérbio.
Algo que remete aqui ao mencionado exemplo de, em nome de uma primazia do epistêmico, traduzirmos durcharbeiten por “perlaborar”, ou seja, o da prévia inexistência de um vocábulo na língua de chegada que abarque os essenciais aspectos semântico-morfológicos que mais interessam à discussão teórica. Nesses casos, não é raro observarmos que, para driblar as insuficiências de uma tradução por uma única palavra em português, os leitores brasileiros e estrangeiros dos escritos do fundador da psicanálise simplesmente referem-se ao conceito no original alemão, sem traduzi-lo: das Unheimliche. Assim, aliás, fez-se na tradução italiana de Freud com das Es (o Isso/o “Id”), preservando-se a grafia e a pronúncia da língua de partida. Em áreas afins, não faltam exemplos análogos de termos não traduzidos, frequentemente conservados em sua língua original. Alguns exemplos icônicos: do grego, logos ou mímesis; do latim, cogitolocus; do francês, démarchenonsense; do alemão: ZeitgeistDaseinLeitmotivGestalt etc. No caso dos textos de Freud, algo semelhante tende a ocorrer com o geralmente intraduzido Witz (chiste, dito espirituoso, jogo de palavras, piada etc.).

Diante de um “intraduzível”, a escolha pela não tradução poderia motivar-se pela busca de concisão conceitual em uma só palavra; outra opção seria, ao contrário, decompor o vocábulo numa combinação explicativa de palavras ou numa forma de locução. Um exemplo dessa estratégia é a tradução francesa de Bertrand Féron que, conforme mencionado anteriormente, ousou lançar mão de tal recurso, traduzindo o título “Das Unheimliche” por “L’inquiétante étrangeté”, algo como “A inquietante estranheza”. Outra forma bastante difundida de locução substitutiva em língua portuguesa aponta para o aspecto paradoxal que o termo alemão veicula. Falamos de “estranheza familiar”, composição muito frequente em trabalhos psicanalíticos ou acadêmicos redigidos em língua portuguesa.

A decisão de verter “Das Unheimliche” por “O infamiliar” foi fruto de longo e amadurecido debate entre todos os envolvidos na presente edição. Antes disso, editor, tradutores, coordenador de tradução e até mesmo alguns membros do conselho editorial discutiram se, em nome da concisão, a melhor opção, ou a menos insuficiente, seria “O estranho” ou “O inquietante”, duas soluções já adotadas em traduções anteriores. Podendo ambas ser consideradas corretas, são também claramente insuficientes diante da linha argumentativa desenvolvida pelo autor. Trata-se, é verdade, de um caso único no vocabulário freudiano, em que o próprio autor dedica-se exaustivamente, ao longo de todo o texto, a uma investigação filológico-lexical acerca de um vocábulo passível de diversas leituras e interpretações.

As teses freudianas sobre a subjetividade humana instalam uma divisão e uma opacidade no seio de algumas premissas fundamentais da concepção moderna de subjetividade, como a unidade do Eu ou a transparência dos atos de consciência. Na contramão do cartesianismo, não somos in-divíduos, mas sim seres divididos entre sistemas psíquicos frequentemente contraditórios. O exercício de início visto como lexical, filológico ou filosófico de Freud passa a se mostrar como essencialmente psicanalítico ao apontar para algo no aparente paradoxo veiculado por uma palavra tão usual da língua. Algo que vem confirmar suas hipóteses sobre um testemunho da divisão psíquica. O vocábulo em questão é composto do prefixo de negação (un-), como veremos, marca do recalque, segundo Freud, como cerne da divisão psíquica, seguido do elemento negado: heimlich, adjetivo que deriva do substantivo Heim (lar, morada), tão próximo, aliás, do inglês home. E se no inglês o conceito de home pode ser estendido ao de “terra natal”, nesse sentido temos em alemão a palavra Heimat (a pátria no sentido afetivo, cantada pelos saudosos, por exemplo), em oposição a Vaterland (terra-pai, ou seja, a pátria cívica). Desse modo, heimlich, como o que é relativo ao “lar”, é o familiar, o conhecido, o costumeiro, ainda que, por ser atinente à privacidade do “lar”, em oposição ao público, denote também o que é íntimo, oculto da vista alheia e até mesmo sigiloso. Assim, geheim tem o sentido de secreto, Geheimnis, o de segredo. Vide o conhecido acrônimo Gestapo para Geheime Staatspolizei (polícia secreta estatal), a infame polícia secreta nazista que às escondidas investigava e invadia os lares (Heim), como fez com Freud e sua filha, Anna.

Não por acaso, ao elencar os sentidos de heimlich, Freud refere ainda as “[…] partes heimlich [íntimas] do corpo humano, pudenda” (neste volume, p. 47). Uma leitura rápida da longa citação do verbete do dicionário dos irmãos Grimm pode deixar escapar esse aspecto fundamental para a psicanálise, relativo ao seu sentido sexual: heimlich designa não apenas as partes íntimas do corpo humano, aquelas que devem ficar escondidas ou veladas, como também aquelas que são mais suscetíveis ao risco de ferimento, evocando indiretamente a angústia de castração.

Com essa dupla inscrição Freud já vai demonstrando passo a passo como o heimlich, aquilo que é tão “familiar e íntimo”, pode evocar também a impressão do “secreto e desconhecido”. Nisso, aliás, seu ensaio tem um importante precedente num escrito de 1910 que igualmente parte de reflexões aparentemente linguístico-filológicas para nutrir uma discussão essencialmente psicanalítica. Trata se do brevíssimo, porém denso, “Sobre o sentido antitético das palavras primitivas” (“Über den Gegensinn der Urworte”). O texto publicado originalmente num anuário psicanalítico era, na verdade, uma espécie de resenha ao trabalho de mesmo título do filólogo comparatista alemão Carl Abel. Numa carta a Ferenczi, datada de 22 de outubro de 1909, Freud refere-se com entusiasmo à leitura que acabara de realizar. O trabalho de pesquisador da linguagem efetuado por Abel seria uma espécie de confirmação, em um domínio do saber conexo ao da psicanálise, da teoria dos sonhos, fornecendo o fundamento linguístico da tese de que a negação não opera no inconsciente. Uma nota sobre o tema foi introduzida na terceira edição de sua Interpretação dos sonhos (1911), precisamente no parágrafo em que Freud afirma que o sonho não conhece nem a oposição (Gegensatz) nem a contradição (Widerspruch). Chamam ali a atenção de Freud os exemplos de palavras que originalmente expressavam um par de oposição em vez de servirem a um significado polarizado. Eloquentes exemplos de uma língua tão próxima quanto o latim seriam sacer, que pode significar tanto “sagrado” (heilig) quanto “maldito” (verflucht), ou altus, que denota, a uma só vez, “alto” (hoch) e “profundo” (tief). No pensamento freudiano, isso não seria algo tão novo, já que, desde os primórdios da psicanálise, mostra-se que o inconsciente se faz representar mais por aquilo que chamamos de Komplexe (reuniões de polaridades) do que por distinções dicotômicas excludentes.

Do ponto de vista das análises linguísticas de Freud, o ensaio sobre o Unheimliche ocupa uma posição central: ele pressupõe o texto publicado uma década antes, o referido “Sobre o sentido antitético das palavras primitivas” e prenuncia o que será formalizado alguns anos mais tarde sobre “A negação”. A tese do sentido antitético de palavras primitivas aplica-se perfeitamente ao caso do Unheimliche. Escreve Freud: “Em suma, familiar heimlich é uma palavra cujo significado se desenvolveu segundo uma ambivalência, até se fundir, enfim, com seu oposto, o infamiliar Unheimlich. Infamiliar é, de certa forma, um tipo de familiar. Juntemos esse resultado ainda não esclarecido com justeza com a definição de infamiliar trazida por Schelling. A investigação de casos específicos do infamiliar tornará compreensível essa alusão” (p. 47-49).

Além disso, Freud percebe a partícula Un- não apenas como privativa, mas ainda como um índice do recalcamento: “O infamiliar é, então, também nesse caso, o que uma vez foi doméstico, o que de muito é familiar. Mas o prefixo de negação “in-” Un- nessa palavra é a marca do recalcamento”. O raciocínio que fundamenta tal asserção prenuncia uma tese capital do célebre artigo de 1925 sobre a negação (Verneinung). Aquilo que vale, em 1919, para a morfologia de uma palavra negativa será generalizado como princípio do funcionamento de juízos negativos. Escreve Freud: “Com a ajuda da negação, apenas uma das consequências do processo de recalcamento é revogada, a saber, a de seu conteúdo de representação não chegar à consciência”. Numa passagem ainda mais célebre: “Negar algo no juízo significa, basicamente: isto é alguma coisa que eu preferiria recalcar. A condenação é o substituto intelectual do recalcamento; seu ‘não’ é a marca característica do mesmo, um certificado de origem, tal como o ‘made in Germany’. Por meio do símbolo da negação, o pensar se liberta das limitações do recalcamento e se enriquece de conteúdos, dos quais não pode prescindir para o seu desempenho” (neste volume, p 143).

Sim, a profícua contradição do vocábulo alemão unheimlich nos remete àquilo que causa estranhamento e inquietação, fundamentalmente, por tocar algo de “familiar” e que, por algum motivo “secreto”, não poderia ser identificado como tal. Em nome de uma saída “didática”, poderíamos recorrer à locução “a inquietante estranheza familiar”. Contudo, lançar mão desse recurso seria contrariar um princípio caro a Freud desde A interpretação dos sonhos: o da Verdichtung (condensação), que, diga-se de passagem, está em alemão muito próxima de Dichtung, o fazer poético. A língua alemã concebe a poesia como uma forma de “adensamento” do dizer. Nela, com pouco se diz muito. Eis uma marca que indubitavelmente se pode aplicar a esse breve ensaio psicanalítico.

Em grande parte, a genialidade de nosso autor inegavelmente reside em identificar na linguagem cotidiana e potencialmente acessível algo que nela é difícil de acessar, não por falta de informação ou por barreiras intelectuais, mas, sobretudo, por causa dos conflitos psíquicos ali enredados. Conflitos esses que se expressam também em barreiras culturais, em produções artísticas ou ainda na própria história de uma língua: as camadas de sedimentos, as ruínas e os vestígios de formações longínquas e talvez inacessíveis sem os recursos metodológicos da psicanálise. São estes os materiais preferidos das análises freudianas. Esse texto que o leitor tem diante de si é uma das mais ricas demonstrações de como a psicanálise opera com sua mais fundamental ferramenta: a língua cotidiana, com suas camadas e sua história. Aqui Freud demonstra de modo inequívoco como se entrelaçam na própria escrita os registros teórico e estético, como a linguagem científica e literária se interpenetram, ou ainda como o vivido e o fantasiado tecem relações complexas.

GILSON IANNINI é professor de filosofia (UFMG) e doutor em filosofia (USP)

PEDRO HELIODORO TAVARES é professor de literatura (UFSC), doutor em literatura (UFSC) e tradutor

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