ARTIGOS

Além da paranoia delirante

por Marcelo Semer

Eugenio Raul Zaffaroni, em seu recente Doutrina penal nazista (Tirant Brasil), reúne alguns textos sobre as bases filosóficas e jurídicas do nazismo, como o romantismo jurídico e a fixação antissemita. Sobre o delírio racista, afirma: “Estas loucuras não são apenas de autoria de personagens secundários do pensamento jurídico, mas também dos de primeira fila, cujas teorias às vezes parecem renascer sob roupagens inimagináveis”.

Faz referência, sobretudo, a Carl Schmitt, até hoje ainda um autor respeitado na doutrina. No discurso de abertura da Jornada de Altos Estudos sobre “O judaísmo na ciência jurídica”, em 1936, Schmitt conclamou:

“Não esqueçam o que significa ano após ano, semestre após semestre, quase ao longo de um século, milhares de jovens alemães, futuros juízes e advogados, tenham passado através da escola de doutrinários jurídicos judeus, que os tratados e comentários dos mais importantes campos do direito provenham de judeus, que as mais importantes revistas jurídicas tenham sido dominadas por eles, que o pensamento tipicamente judeu seja tido como o único científico, e toda a outra opinião como anticientífica ou ridícula. Só quem toma consciência do poder intelectual do judaísmo, tendo conhecido a sua total profundidade e todo o seu âmbito, poderá compreender o significado da liberação que o triunfo do nacional-socialismo implica para o espírito e a ciência alemães”.

Salvo o domínio da gramática, o discurso de Schmitt poderia muito bem ter sido escrito pelo ex-ministro Abraham Weintraub, trocando judeus por comunistas; foram inúmeras oportunidades em que o ex-ministro insinuou a necessidade de “desesquerdizar” a universidade, atribuindo-a a qualidade de um mero bunker de militância política. Pouco antes de assumir o cargo, e talvez por isso o tenha sido convidado, verberara em uma palestra: “Os comunistas são o topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras; eles são os donos dos jornais; eles são os donos das grandes empresas; eles são os donos dos monopólios”.

A política do bode expiatório, que fincou raízes profundas na doutrina nazista, corre solta no modo de pensar bolsonarista.

Ernesto Araújo talvez seja quem hoje a reproduz com maior pretensão de originalidade: “o comunismo não desapareceu, mas apenas dotou-se de novos instrumentos: o globalismo é o novo caminho do comunismo”. E no mesmo saco em que insere o alarmismo climático, a “ideologia de gênero” e o politicamente correto, estaria escondido, ele mesmo, o novo coronavírus.

Do guru Olavo de Carvalho, o bolsonarismo recrutou o argumento do marxismo cultural, que se infiltraria e destruiria, sorrateiro, a cultura ocidental: “Dificilmente se encontrará hoje um romance, um filme, uma peça de teatro, um livro didático onde as crenças do marxismo cultural, no mais das vezes não reconhecidas como tais, não estejam presentes com toda a virulência do seu conteúdo calunioso e perverso.”

O que também não deixa de ser uma forma requentada do chamado “bolchevismo cultural”, que permeou a crítica alemã antimodernista durante os anos de ascensão do nazismo.

Terra plana, nazismo de esquerda, chips ocultos em vacinas.

As teorias da conspiração não são acenos gratuitos ou meramente folclóricos – ainda que controlar o riso diante delas nem sempre seja fácil -, mas são extremamente letais. Fazem parte da construção de uma explosiva narrativa que agrega ressentimento, luta contra o saber e uma nostalgia anti-iluminista. O passado dourado da opressão.

O ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim, não foi, portanto, o único que encontrou similaridades entre sua proposta de governo e um conhecido discurso de Goebbels. Apenas foi o que achou uma boa ideia encenar essa mimesis em rede nacional.

A paranoia delirante não é um resquício isolado dos tempos em que se resgatou a “Alemanha acima de tudo” (Deutsche über alles). Uma polícia política, o militarismo exacerbado e o darwinismo social não a deixam só.

Quem supõe paradoxal que um pensamento com tintas fascistas se combine com o suporte empresarial e midiático, que se refastela hoje com as reformas liberais, é o caso de lembrar o entusiasmado apoio que Hitler recebeu das empresas alemãs – sem o qual, certamente, não teria chegado tão longe no domínio territorial da Europa e na produção industrial do genocídio.

Em A ordem do dia (Tusquets), Éric Vuillard descreve a reunião que firmou as bases deste acordo, em 1933. O que disse, Hitler, que convenceu os capitães da indústria? “Era preciso acabar com um regime fraco, afastar a ameaça comunista, suprimir os sindicatos e permitir que cada patrão fosse um Führer em sua empresa”.

MARCELO SEMER é juiz de direito e escritor. Doutor em criminologia pela USP, é membro e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia

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