ARTIGOS

Mantras da pseudointelectualidade

por Paulo Silas Filho

Se de um lado estão aqueles que apontam suas armas contra o conhecimento, apostando em terraplanismos que são insólitos até mesmo ao senso comum, de outro estão os que se autoafirmam e se vangloriam de um conhecimento que na realidade não possuem, estando esses ancorados em superficialidades, banalidades e elementos rasos que situados num falso ar de autenticidade – tudo isso por um suposto status que o intelectualismo proporciona. Os dois lados são problemáticos considerando suas vicissitudes, mas os que travam guerra contra o saber pelo menos são sinceros naquilo que, mesmo que erroneamente, defendem.

De mantras do saber que são anunciados, vendidos e ditos em pílulas o mundo está cheio. São os caminhos fáceis pelo qual tropegamente alguns acreditam ser possível saber ou dizer algo com propriedade. Basta uma frase de efeito atribuído à algum pensador importante para posar de intelectual e fazer com que acreditem que o sabichão seja algo do tipo. Esse é um dos efeitos (ou uma das causas?) do que já foi aqui chamado, na perspectiva jurídica, de ‘consumismo jurídico’ – cujo fenômeno é mais amplo no sentido de não acometer apenas o direito, estando presentes em toda e qualquer área do saber: apostas fáceis em caminhos simples que resultam num algo singelo que é parco e simplório, mas que convence – o que parece bastar para muitos.

Está cheio de gente por aí dizendo que sabe sobre o que não sabe – ou fingindo saber sobre algo que deveria ou gostaria de saber mais. Em todos os âmbitos, em todos os níveis, em todos os lugares se encontra gente assim. Nas faculdades há os alunos que nunca leram uma vírgula para além daquilo que o professor passa no quadro/slide/tela compartilhada, achando que a aula por si só é suficiente para amparar o pseudointelectualismo que vende para os outros. Há os profissionais que julgam que por seus títulos (ou supostos títulos – tem advogado que ainda acredita que é doutor sem ter doutorado) possuem respaldo para dizer coisas sem possuir o mínimo conhecimento necessário para tanto. Há pessoas que se dizem conhecedoras de determinado assunto após terem lido um único artigo na internet – muitas vezes um resumo de fonte duvidosa de algum site qualquer. Há aqueles que amam recitar frases de efeito para causar uma boa impressão, mas que nada conhecem sobre o tema ali exposto. Há quem tenha lido um único livro de algum autor conceituado (quando não apenas alguns resumos) e se diga experiente naquele saber. Há muito nesse âmbito: pessoas que posam uma intelectualidade que não possuem. A internet é o principal palco dessa gente.

Qualquer seja a motivação para esse tipo de postura, as confessadas e as não confessadas, a externalização se dá de diversas maneiras peculiares. O elo estabelecido entre a felicidade e a ignorância, compartilhado em forma de memes, é um exemplo disso. O problema não são os vínculos de “uma coisa significar a outra”, mas sim no faltar de um “pode” na frase – principalmente quando dita por aqueles que se autoproclamam mais espertos por terem lido sinopses de um livro ou outro. Nem sempre uma pessoa é fria, triste ou desgostosa apenas por ser inteligente – as vezes a pessoa apenas é amargurada por qualquer razão outra que está longe de poder ser atribuída à intelectualidade que acredita ter.

A questão aqui posta não se dá para com aquelas famosas postagens de trechos extraídos de alguma obra de terminado pensador, mas sim para com quem as compartilha com o fito de alimentar o próprio ego numa tentativa de dar amparo à sua pseudointelectualidade. É preciso muito mais do que ler e compartilhar essas frases prontas para se compreender o pensamento que ali reside. É dizer: “menos blábláblá e mantras lacanianos, comparecendo mais enunciação” (ROSA, 2016, p. 23). E por falar em Lacan, eis um dos tantos exemplos de autores que são “ditos” sem serem “conhecidos”. A complexidade de seus escritos está na boca de muitos que se divertem comentando esse fato, mas que jamais tentaram ler algo para além de algumas de suas frases famosas. Também é divertido fazer piada sobre a dificuldade de entender Kant – por mais que a pessoa sequer tenha tentado ler uma única linha escrita pelo filósofo (tem quer ter brio, como diz Clóvis de Barros Filho).

Os exemplos são tantos que poderia ser feito uma espécie de concurso para eleger o autor que mais é citado sem ter sido lido (ou compreendido). Nietzsche, Foucault, Freud, Lacan, Clarice Lispector, Agamben, Simone de Beauvoir, Judith Butler, Hannah Arendt, enfim, a lista daqueles que são entoados sem serem realmente conhecidos é grande, servindo para mostrar o quanto existe de falso naqueles que fazem coro das citações de frases prontas desprovidas de conteúdo. É legal posar de intelectual, de estudioso, de leitor de determinada obra ou autor, mas a imagem disso não se sustenta por si só, pois necessita de muito daquilo que o pseudointelectual quer distância: muita leitura e muito estudo!

O ato de conhecer é agradável, mas ao mesmo tempo é árduo. É exigido esforço, dedicação e leituras para muito além de resumos da internet para que um mínimo de compreensão sobre algo surja e se estabeleça. Fazer uma faculdade não significa que a pessoa saiba de fato aquilo que anuncia, assim como a citação de uma frase famosa não significa que a pessoa saiba o que aquilo significa ou que conheça minimamente algo sobre o assunto ou o autor citado. O saber é um algo, um processo constante, que exige atenção diária. Muito estudo. Não há caminho outro.

Quando se diz que “não há intelectual bronzeado”, expõe-se a necessidade de seriedade nos estudos para poder ter um mínimo aporte em algo. Não se trata de vetar os vícios, de não participar de festas, de deixar de regozijar com os prazeres da alma e da carne. A frase não deve ser levada ao pé da letra. Ao mesmo tempo, a verdade que o dito estampa é que não há forma outra de se alcançar um conhecimento mínimo que não a do constante aprendizado e aperfeiçoamento – o que se somente se dá com (muito) estudo sério, aprofundado e comprometido.

Num resumo da coisa toda aqui exposta: os mantras em pílulas da pseudointelectualidade são um subterfúgio para quem tem preguiça de estudar. Quem nisso se ampara e diz que sabe, mente ao dizer que sabe. Estejamos atentos!

PAULO SILAS FILHO é professor de Direito na Universidade do Contestado (UnC) e na UNINTER, mestre em Direito e advogado

REFERÊNCIAS

ROSA, Alexandre Morais da. Por que a violência é tão fascinante? Laranja Mecânica e as garantias democráticas de nenhum de nós. In: COUTINHO, Jacinto Nelson de Miranda. Direito e Psicanálise: interseções e interlocuções a partir de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess.Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2016.

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