ARTIGOS

Amar e trabalhar: privilégio de poucos?

por Mariana Anconi

Existe uma definição dada por Freud sobre saúde psíquica que está relacionada a capacidade que temos de amar e trabalhar. É quase poético o que Freud nos diz, mas entendo sua definição como um alerta quando, nos dias de hoje, o sofrimento psíquico anda de mãos dadas com a lógica que promove a precarização do trabalho.

Pensando no sofrimento psíquico como produto de uma dialética entre um dentro (interior do indivíduo) que também é atravessado por um fora (os discursos na cultura) convido o leitor a assistir ao filme de Ken Loach “Sorry we missed you” (2020) traduzido para o português como “Você não estava aqui”.

Temos em cena uma família de Newcastle que após muitas perdas na crise de 2008 perde, além de bens materiais, um pouco do futuro. As cenas são “reais” e, por vezes, ganham  um tom de documentário pelo tanto que se aproximam das questões atuais.

Dividi o filme em quatro tempos. Começo pelo tempo que nomeei como “senhor de sua própria casa.” Esse tempo é caracterizado por frases e discursos interessantes que capturam aquele que busca uma oportunidade de trabalho. Tal discurso propõe algumas como flexibilidade de horário, autonomia e a ideia de que o sucesso depende de seu desempenho, ou seja, você é seu próprio patrão. Essa história de ser “dono de si” é a mesma ilusão apontada por Freud na ideia de que “o eu é senhor de sua própria casa.” O eu não é senhor de sua própria casa, pois é constituído por uma divisão que marca uma condição estrangeira de si.

A precarização do trabalho se fortalece na ausência de direitos trabalhistas. Dunker (1) faz uma relação com o sofrimento e o neoliberalismo como uma forma de vida em que compreende como “uma gramática e uma politica para o sofrimento.” Afirma ainda que se trata de “encontrar o melhor aproveitamento do sofrimento no trabalho, extraindo o máximo de cansaço com o mínimo de risco jurídico, o máximo de engajamento no projeto com o mínimo de fidelização reciproca da empresa.”  

Entendendo um pouco desta lógica podemos avançar na discussão sem cair em julgamentos inapropriados a respeito daqueles que escolhem trabalhar para estas empresas. Podemos nos perguntar: De que escolha se trata? Muitas vezes se trata da escolha a nível da “ou a bolsa ou a vida”.

No filme o casal trabalha para grandes empresas. Suas vidas passam a ser guiadas pela logica do trabalho. Esse é o segundo tempo do filme. Ricky como entregador que tem sua rota rastreada por uma aparelho e, Abbie, trabalha como cuidadora de idosos.

Conforme os dois vão se envolvendo no trabalho, suas vidas vão sendo corroídas por um vazio na impossibilidade de manter os laços. Já não conseguem manter diálogos com os filhos, nem acompanhar o que se passa em suas vidas.

O caso da esposa, Abbie, me chama atenção, pois seu trabalho incide justamente a partir do laço com o outro, e seu dilema aparece na questão sobre como sustentar o cuidado com os idosos dentro de uma lógica que impossibilita que esse trabalho seja feito de forma cuidadosa; para isso, ela precisa trabalhar fora de seu horário de trabalho (como na cena em que precisa socorrer uma senhora sábado à noite sem que algum parente pudesse leva-la ao banheiro). 

Conforme o filme avança, a possibilidade de amar e trabalhar parece ser um privilégio de poucos. O que nos angustia em determinados momentos do filme é justamente a ruptura desses laços. Com uma rotina de trabalho de mais de 12 horas não ha espaço para as trocas, para a vida com outros ou para amar. Só há cansaço e junto dele temos mais dois ingredientes presentes: agressividade e culpa.

Pai e filho se tornam rivais quando Paul em um alto nível de exaustão se torna reativo frente as dificuldades do filho na escola. Cenas de violência em casa aparecem e, depois das explosões, Ricky logo é arrebatado por culpa.

Você esta exausto. Considero este o terceiro tempo. Abbie repete essa frase ao marido varias vezes esquecendo que ela mesma também está exausta. As contas não param de chegar e ainda, o salário não paga tudo. As faltas no trabalho serão descontadas de forma desproporcional. Não há espaço para a falta. O que dirá para o desejo. É uma especie de circuito infernal em que quanto mais se está inserido, mais se afoga. 

Como sair do circuito infernal? É preciso que um terceiro opere. Como psicanalista  penso na cena analítica e resgato o que Eidelztein (2) chama de circuito infernal na analise: momento em que o analisante se repete em sua demanda  como um espiral e que é preciso que o analista fisgue em sua fala o que esta para além da demanda e assim saia do circuito infernal.

Mas a nível de coletivo – como no caso dos entregadores – é preciso que um terceiro opere para melhorar as condições de trabalho. Terceiro que pode ser a política que através de leis possam barrar esta lógica da precarização da vida. A vida perde valor, a existência se reduz ao lugar de devedor.

Quando as leis trabalhistas não operam  há ainda outra saída que foi o que aconteceu no Brasil recentemente em que diversos entregadores se reuniram para reivindicar direitos básicos como equipamentos de proteção individual. Se trata de algo inédito na classe, pois furaram a própria lógica do “cada um por si” quando decidiram se unir na tentativa de melhorias.

Ricky e Abbie estão perdidos em suas individualidades no trabalho, a culpa se manifesta  como ingrediente fundamental para a manutenção do circuito infernal. Esse considero como o quarto tempo. O fracasso no empreendedorismo de si, que parecia tão atrativo, é vivenciado como culpa. Abbie e os filhos tentam fisgar Ricky para mediar seu conflito consigo e com o trabalho. Fracassam.

O grito de Abbie ao telefone com o chefe de Ricky é seu ultimo fôlego para o resgate de sua família: “Você pensa que esta falando com quem? Esta é minha família!” Abbie reivindica o senso de humanidade em meio a tanta objetificação.

MARIANA ANCONI é psicóloga, psicanalista e mestre pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

REFERÊNCIAS

  • Dunker. C. Reinvenção da intimidade. São Paulo: Ubu Editora, 2017
  • Eidelztein, A. Grafo do desejo. São Paulo: Toro Editora, 2017

Categorias:ARTIGOS

Marcado como:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.