ARTIGOS

50.000 alguéns e a ignorância dos fanáticos

por Gabriel Teixeira Santos

Na data da escrita deste texto, em 20/06/2020, o Brasil ultrapassou a assustadora marca de 50.000 (cinquenta mil) pessoas mortas e 1.070.139 casos confirmados do novo coronavírus [1].

Parece irônico (e proposital), mas essa não é a maior preocupação do atual governo – fanático, na percepção de Cioran (ao se libertar da “ilusão do fanatismo” que assolou sua juventude) [2] – que, entre trancos e barrancos, polêmicas, prisões e mais prisões de apoiadores (será que somente apoiadores mesmo?) como as de Queiroz (sim o mistério foi desvendado!) e Sara Winter, tenta se manter no poder a todo custo. Uma troca “ali” e uma concessão “aqui” tem remendado o bote que parece aos poucos naufragar.

Entretanto, o fanatismo do eixo apoiador parece não diminuir (ou se diminui, ocorre de forma pífia) de tal sorte que os “camisas negras” [3], dispostos a literalmente matar e morrer pelo seu Messias, não diluem. Tanto é que essas pessoas têm se mobilizado a ponto de criar grupos paramilitares e que disparam fogos contra de artifício contra o Supremo Tribunal Federal [4].

Esse fenômeno de fanatismo, decifrável na proposição de Cioran de que “sua capacidade de adorar é responsável por todos os seus crimes: o que ama indevidamente um deus obriga os outros a amá-lo, na espera de exterminá-los se se recusarem” [5], cria uma cegueira coletiva, proposital e seletiva, capitaneada por seu líder em uma política de enfrentamento aos inimigos por ele eleitos (partidos políticos opositores, as instituições democráticas, seus adversários ideológicos e/ou qualquer um que se oponha ao seu projeto neoliberal protofascista, enquanto indesejável [6]).

Dentre as várias análises possíveis deste cenário em que o bolsonarismo se torna um fanatismo (quase religioso), o ponto central do texto reside em uma passagem de Jacques Rancière, plenamente aplicável ao eleitorado adjetivado com uma onomatopeia (“mu”), que é assim transcrito:

A experiência pareceu suficiente a Jacotot para esclarecê-lo: pode-se ensinar o que se ignora, desde que antecipe o aluno; isso é, que se force o aluno a usar sua própria inteligência. Mestre é aquele que encerra uma inteligência em um círculo arbitrário do qual não poderá sair se não se tornar útil a si mesma. Para emancipar um ignorante, é preciso e suficiente que sejamos, nós mesmos, emancipados; isso é, conscientes do verdadeiro poder do espírito humano. O ignorante aprenderá sozinho o que o mestre ignora, se o mestre acredita que ele o pode, e o obriga a atualizar sua capacidade […] [8]

A par das incertezas e descobertas diárias que rondam a COVID-19 (e o mundo durante e pós esse período de pandemia), ela se demonstrou uma experiência concreta suficiente para ser um agente transformador da realidade em que a sociedade está inserida – o mundo não será igual!

Neste sentido, um aspecto específico chama a atenção: até que ponto os fanáticos são chamados e estimulados a atualizarem sua capacidade sobre o que é ignorado? Será mesmo que esse eleitorado um dia irá romper a bolha da ignorância que os cercam, ainda que sem a supervisão de seu mestre? 

Em um ambiente predominantemente habitado por notícias falsas ou que ensejam uma desinformação – a “la whatsapp” – o cenário não parece muito animador.

Sem embargo, o fato é que, independente de uma resposta positiva ou negativa, a história parece estar, pouco a pouco, juntando seus cacos para cobrar a dívida da ignorância e do negacionismo epistêmico terraplanista [8].

Todavia, se esta mudança não for de iniciativa e estímulo do seu mestre (que, ao que tudo indica, seguirá mantendo seu plano de governo pessoal), deverão os alunos/seguidores usarem sua própria inteligência para romper esse círculo, antes que seja tarde demais e sofram consequências maiores – que “este barco” afunde sozinho!

Portanto, a ruptura ideológica, rompendo o fanatismo desvairado, é medida urgente para que haja um “depois”, antes que o (nosso) tempo acabe.

Por fim e não menos importante, minha solidariedade a todos aqueles que, de alguma forma, perderam alguém para esta doença. Já que fomos obrigados a soltar a mão do próximo e privados do abraço em quem amamos (sem esquecer do álcool em gel), que sejamos os responsáveis pela mudança e pela esperança de dias melhores.

GABRIEL TEIXEIRA SANTOS é especialista em Filosofia e Teoria do Direito (PUC MG) e em Direito Civil e Processo Civil (Toledo Prudente Centro Universitário). Pós graduando em Direito Penal e Criminologia (PUC RS). Advogado Criminalista.

REFERÊNCIAS

[1] https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/06/20/brasil-passa-de-50-mil-mortes-por-coronavirus-mostra-consorcio-de-veiculos-de-imprensa-sao-964-em-24-horas.ghtml

[2] CIORAN, E. M. (Emile M.). Breviário de decomposição; tradução de José Thomaz Brum – Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

[3] https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-04-20/preparar-se-para-a-guerra.html

[4] https://www.conjur.com.br/2020-mai-13/mp-df-classifica-acampamento-bolsonarista-milicia-aciona-justicae https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/06/14/autoridades-reagem-a-lancamento-de-fogos-de-artificio-em-direcao-ao-predio-do-stf.ghtml

[5] CIORAN, E. M. (Emile M.). Breviário de decomposição; tradução de José Thomaz Brum – Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p. 11.

[6] CASARA, Rubens R. R. O estado pós-democrático: neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis– 1. ed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

[7] RANCIÈRE, Jacques. Mestre ignorante – cinco lições sobre a emancipação intelectual; tradução de Lilian do Valle – Belo Horizonte: Autêntica, 2002, p. 27.

[8] https://www.conjur.com.br/2020-mar-10/streck-negacionismo-epistemico-cirurgia-medico-tranquilao

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