ARTIGOS

Pandemia, mortes e os cegos do futuro

por Paola Bianchi Wojciechowski

Há menos de um mês, meu avô e a esposa faleceram em razão da Covid-19.

A partir daquele momento, para mim e meus familiares, os números da pandemia tomaram corpo. São nomes. Histórias. É o pai do meu pai (a quem aliás eu sequer pude confortar). É a percepção de que a partida seria solitária e fria – para todos nós. Foi sentir na pele a interrupção de nossos ritos mais antigos, pois na despedida não houve velório, nem cerimônia, só um caixão lacrado e a sensação de um hiato na garganta.

Aliás, foi nesse momento – de vulnerabilidade compartilhada – que me dei conta da assertividade da afirmação de Paulo Ferrareze Filho, pareceu-me, de fato, que muitos de nós só vão confrontar a si mesmos quando os caminhões estiverem cheios de cadáveres [1]. E, ousaria dizer mais, quando os cadáveres começarem a se amontoar perto de nós.

A partir daí, dispus-me a pensar, à luz do conhecimento produzido na área das ciências cognitivas e, sobretudo, nas teorias do processo dual do pensamento [2], nas possíveis falhas/ilusões cognitivas que tornam especialmente difícil a compreensão do momento vivenciado. Daí porque até mesmo pessoas minimamente sensatas e comprometidas com a coletividade, por vezes, não parecem conseguir assimilar a importância de medidas precaucionárias a fim de “achatar a curva” do coronavírus, tais como o isolamento social ou o uso de máscara.

Por óbvio, no Brasil, não podemos ignorar a gravíssima e proposital disseminação de falsas notícias, a fim de consolidar um inimigo comum (aqueles favoráveis ao isolamento) e assim amparar um [des]governo que se percebeu insustentável sem tal alegoria política. No entanto, a seguir, opto por explorar apenas as limitações de racionalidade decorrentes de processos mentais automáticos e da adoção de atalhos cognitivos, deixando de adentrar na insensibilidade enquanto projeto político de extermínio ao outro [enquanto necropolítica].

Nós cultivamos um desdém incapacitante pelo abstrato. Curvas de modelos estatísticos, análises preditivas e modelos matemáticos não nos dizem nada ou, quando o fazem, suas informações ficam disponíveis por pouco tempo na memória, eis que não disparam emoções ou sensações. Você já deve ter experienciado estar em uma discussão e, ao fazer menção a dados estatísticos, ouvir em contraposição: “Ah, mas eu tenho um amigo que conhece uma pessoa que…”. Assim agimos porque nossos processos cognitivos favorecem o pensamento contextual: nós nos fiamos discursivamente a exemplos concretos.

Aliás, não se trata tão somente de uma ignorância em relação a noções que circundam probabilidades, uma vez que a mesma insensibilidade pode se dar em relação a números absolutos. Como disse Madre Teresa de Calcutá: “Se eu olhar para as massas eu nunca vou agir. Se eu olhar para o indivíduo, eu vou”. No mesmo sentido é a tão conhecida frase atribuída a Stalin: “Uma morte é uma tragédia; 1 milhão é estatística” [“E daí?”]. Tais citações refletem duas formas contrapostas de agirmos a depender da escala. Em uma escala local, pequena, nós nos orientamos no sentido de evitar a causação de danos aos outros, pois percebemos concretamente o resultado dos nossos atos.

Em escala grande, os outros tornam-se itens abstratos, números em um gráfico, há uma difusão de responsabilidades que ameniza a percepção dos danos eventualmente causados.

Nós não sabemos lidar com não eventos. Apesar da aparente obviedade de tal afirmação, o bloqueio/dificuldade de registrar racionalmente aquilo que não se vê tem sérios impactos na forma como lidamos com problemas sociais. Um exemplo bastante pertinente para o momento é o desprestígio da prevenção [que é um não evento] e a correlata preferência por medidas posteriores a eventos danosos. Sob esse aspecto, as mortes evitadas em decorrência da adoção de medidas de precaução por Governadores e Prefeitos – sendo não eventos – dificilmente são recompensadas/celebradas como deveriam. A maioria de nós só consegue olhar para o que aconteceu, ignorando o que poderia ter acontecido.

Nossa cegueira ao futuro. Se eu peço para você se imaginar no futuro, sua tendência é idealizá-lo como uma projeção de suas experiências passadas [um amanhã imaginado é um outro ontem]. Nossos esquemas mentais não são equipados para enxergar o futuro misturado com o acaso. Esse é um ponto cego cognitivo: não conseguimos adicionar aleatoriedade ao futuro, pois aleatoriedade é opacidade, ausência de informação. Temos portanto, efetivamente, “cegueira ao futuro” [3]. Daí porque é tão difícil conseguir entender modelos preditivos e, em especial, aqueles relacionados a riscos complexos, sistêmicos, multiplicativos e imprevisíveis.

Pois bem. Com o coronavírus há ainda um fator agravante, as nossas ações ou inações (por ex, afrouxamento do isolamento social) e os resultados dessas ações (por ex, o aumento do número de mortos) estão diluídos no tempo, há um hiato temporal entre eles. Os resultados das medidas que adotamos ou deixamos de adotar hoje vão aparecer daqui a quinze ou vinte dias. Assim, os custos de isolar-se socialmente são imediatos, enquanto os benefícios demoram a aparecer. Da mesma forma, os supostos [mas fictícios] benefícios de afrouxar o isolamento social aparecem agora, enquanto os custos [eventos danosos latentes] demoram a aparecer. E nós, seres humanos, não nos sentimos atraídos a agir quando uma ação tem benefícios abstratos no futuro, mas envolvem uma série de esforços concretos no presente.

Viés otimista. A isso se soma a tendência a superestimar a ocorrência de eventos positivos e subestimar a ocorrência de eventos negativos em nossas vidas. Esse mesmo viés faz com que, não raras vezes, as pessoas tomem decisões arriscadas em relação à saúde (v.g. fazer sexo desprotegido a despeito dos riscos racionalmente conhecidos).
Em suma, momentos como o presente desafiam a nossa racionalidade e suas armadilhas cognitivas. Há obstáculos decorrentes da própria forma como nossos processos mentais funcionam e ultrapassá-los demanda o engajamento de raciocínio demorado, analítico e deliberado.

E vencer tais limitações a fim de amparar ações e decisões que se voltem à preservação do outro é um dever que o momento impõe. Como nos lembra Hannah Arendt: “Os mortos, ao serem esquecidos, morrem uma segunda vez” [4]. Nossos mortos não merecem tal destino. Que os nossos passos vacilantes em direção ao amanhã sejam dados com o respeito à história e à memória daqueles que morreram em decorrência das decisões de ontem.

PAOLA BIANCHI WOJCIECHOWSKI é doutoranda em direito pela Unibrasil. Mestre em direito pela PUC-PR.


Notas

[1] FERRAREZE FILHO, Paulo. Só atentamos depois que os caminhões estão cheios de cadáveres. Caos Filosófico. 2020. Disponível em: https://caosfilosofico.com/2020/03/22/so-aprendemos-com-caminhoes-cheios-de-cadaveres/. Acesso em: 12 maio. 2020.

[2] Eu e Alexandre Morais da Rosa tratamos das teorias do processo dual do pensamento e seus efeitos na tomada de decisão penal no livro: Vieses da Justiça: como as heurísticas e vieses operam nas decisões penais e a atuação contraintuitiva, Florianópolis: EMais, 2018.

[3] TALEB, Nassim Nicholas. Cisne Negro: O impacto do altamente improvável. trad. Marcelo Schild. 10. ed. Rio de Janeiro: BestBusiness, 2016, p, 250.

[4] ARENDT, Hannah. Sobre a Revolução. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras. 2011, p. 14.

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