ARTIGOS

Anitta para presidenta? Ela não!

por Liliane Pimentel

Há várias semanas que rondava minha mente uma frase da Clarice Lispector, do conto Miopia Progressiva “Ser ou não inteligente dependia da instabilidade das pessoas”. Penso que esse é o momento para colocar em palavras algumas reflexões que surgiram. Assim que li a notícia que Anitta teria confessado a amigos o sonho de ser presidente, pensei: Bingo!

Clarice é sempre atual. A literatura e a arte como formas de expressão são meios pelos quais é possível dar vazão a confusão interna que nós, enquanto seres humanos estamos submetidos; sobretudo num contexto histórico de pandemia, recesso econômico, crise política. Juntar Clarice e Anitta pareceu-me necessário para elaborar minhas próprias inquietações, ou não, já que nasceu esse texto.

Tão logo essa notícia foi veiculada por meios de comunicação, choveu críticas a capacidade da Anitta exercer um cargo assim tão importante – presidente do Brasil. Quase dava para imaginar um coro – Ela não!

Pois não é que para desespero ainda maior dos críticos de plantão, a funkeira ainda se meteu a fazer live com Gabriela Prioli, advogada e comentarista política, para falar sobre o atual cenário que o Brasil se encontra. Que absurdo!

Clarice, volta aqui! Vamos bater um papo numa roda de conversa. Explica esse negócio de ser ou não inteligente de acordo com a instabilidade alheia. Explica que embora haja um discurso social quanto a valorização feminina, equidade entre homens e mulheres, melhores salários para mulheres, sororidade; o discurso nem sempre é compatível com aquilo que o grande grupo social realmente quer. Não raro, o discurso destoa consideravelmente das atitudes. Há uma grande incoerência entre o que se fala e o que se faz.

Vamos convocar também Freud na roda para discutir esse negócio de mal-estar na civilização. Já que o mal-estar vem do encontro com o outro; do confronto com as nossas idealizações, da quebra das fantasias, daquilo que o outro provoca em nós, remexendo os escombros de valores que levamos uma vida para construir e que podem desmoronar assim, de uma hora para outra, colocando em xeque uma identidade baseada em alicerces instáveis.

Ora, presidente tem que ser alguém capacitado, que entenda de política, de economia! O que seria mais provocativo que Anitta na presidência? Sabemos que não é de hoje que as mulheres são separadas em boas para casar ou boas para namorar. Nesse caso, seria Anitta, boa para rebolar (digamos assim). Entretanto, também é válido fazer uma observação quanto a empreendedora visionária que Anitta vem se revelando, a verificar pelos números tão valorizados pelo capitalismo e, pelos homens – a indicação a vários prêmios, bem como a conquista de alguns. Segundo a revista Veja (2020), Anitta foi a artista brasileira mais ouvida no exterior em 2019 e ainda acumulou 19 contratos publicitários só nos últimos meses. Ainda soma milhões de visualizações de clipes em plataformas digitais, isso nas primeiras horas de lançamento de um single. Estima-se que por uma campanha na tevê seu cache passe dos seis dígitos.

Porém, se tratando de uma mulher, me parece que nunca será suficiente. Lembremos que já tivemos uma mulher na presidência – Dilma Roussef. Antes que o leitor torça o nariz, me refiro ao período de candidatura. Recordo de ouvir frases como, “quem será o primeiro damo?”, “uhm uma mulher sem homem, na presidência”, não teria nada contra ser mulher, se fosse mais capacitada”. Confesso que tenho dificuldade para compreender a que tipo de capacitação é referida.

O que está em discussão nesse texto não é a capacidade de Anitta governar ou falar sobre política. O que está no jogo, é a instabilidade coletiva que chancela a capacidade de alguém para algo – ela não, ele sim! Peço mais uma vez licença para Clarice, pois talvez sejam necessários mais de Cem anos de perdão para essa Solução tosca que persiste sobre meritocracia, no discurso sinuoso de manter a ordem moral enquanto imersos nessa miopia progressiva que valida ele sim, ela não.

LILIANE PIMENTEL é psicóloga clínica, psicanalista em formação e especializanda em psicanálise (UNIFEBE/HSC)

REFERÊNCIAS

CERQUEIRA, Sofia. As estratégias de Anitta para conquistar a América. Veja, 2020. Disponivel em: https://veja.abril.com.br/entretenimento/as-estrategias-de-anitta-para-conquistar-a-america/. Acesso: 11 de maio de 2020.

FREUD, Sigmund. Obras completas volume 18. O mal-estar na civilização, Novas conferencias Introdutórias à Psicanálise e outros textos (1930-1936). Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina: contos. Ed. Rocco. 1° edição. Rio de Janeiro, 1998.

LISPECTOR, Clarice. A solução. Blog Clarice Lispector. Disponível em: <http://claricelispector.blogspot.com/>. Acesso em: 20 de maio de 2020.

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1 resposta »

  1. Concordo com seu posicionamento, e acredito que muitas coisas precisam ser quebradas em termos de aceitação da mulher em vários segmentos, inclusive ao cargo de Presidência.
    Mas você atrelar o fato de Anittar ser capacitada para um cargo tão importante q por ter sido considerada pela revista Veja (2020), a artista brasileira mais ouvida no exterior em 2019 e ainda por acumular 19 contratos publicitários só nos últimos meses. bem como, por somar milhões de visualizações de clipes em plataformas digitais, isso nas primeiras horas de lançamento de um single. Estima-se que por uma campanha na tevê seu cache passe dos seis dígitos, não seja um bom argumento muito plausível. São esses atributos que a faz ser melhor ou mais apta para o cargo ao invés de Marina Silva, da ex presidenta Dilma? Acredito que em uma falsa democracia como a brasileira em que 99% dos eleitores homens estão abaixo do QI aceitável e que só pensa com a “cabeça de baixo” realmente a futura candidata Anitta tem muito mais capacidade de assumir do que a Marina Silva ou qualquer uma outra que esteja em meia idade.

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