ARTIGOS

A maternidade nos filmes “A vida de uma mulher” e “Um amor impossível”

por Ezilda Melo

Nesta quarentena, uma iniciativa solidária patrocinada pela embaixada da França no Brasil abriu gratuitamente na plataforma Looke 50 grandes filmes das últimas edições do Festival Varilux de Cinema França (http://festivalvariluxemcasa.com.br).

 Mês das mães fizemos uma leitura sobre os filmes “A vida de uma mulher”, de Stéphane Brizé,  e “Amor impossível”, de Catherine Corsini, tomando como fio condutor o lugar da maternidade das duas protagonistas: uma da sociedade francesa da primeira metade século XIX e a outra da segunda metade do século XX.

A linguagem literária é uma, a cinematográfica é outra bem distinta. Muitos livros inspiram a construção de filmes que são feitos de acordo com a interpretação dos cineastas. Foi isso que ocorreu com o extenso romance “Uma vida” de Guy de Maupassant adaptado por Stéphane Brizé, fala-nos sobre a vida de Jeanne.

O filme “A vida de uma mulher” não é sobre violência física, psicológica, sexual ou financeira, mesmo Julien se revelando um homem interesseiro e desleal.  A obra cinematográfica não dá elementos suficientes para fazer essa análise, apesar de reconhecermos comportamentos abusivos dele, ao fazer grosserias que a faziam chorar, traí-la, ou se apossar do dinheiro do dote. No entanto, não vemos cena de sexo forçado, nem com ela, com a empregada ou a segunda amante, nem tampouco agressões físicas.

O dote era dele por direito, o que já mostra que vem de longas datas, o homem aumentar seu patrimônio com o casamento. No geral, eles só casavam com quem tivesse mais condições financeiras. Não é sobre divórcio ou mudança de leis, não é sobre uma mulher combativa que faz mudanças significativas no entorno em que vivia. Jeanne é resignada e frágil, muitas vezes infantil. É sobre a maternidade de Jeanne que se concentra essa análise.

Apesar da dureza da traição, é no amor materno que Jeanne sofre as maiores dores no filme. Uma mãe resignada a aceitar todas as vontades de um filho até chegar à ruína, mostra não que há limites, que não tem amor próprio, vontade, ao aceitar todas as chantagens do filho. Jeanne recebeu apoio do avô da criança e não o criou Paul sozinha. Este contou com uma rigorosa educação, mesmo assim trazia uma revolta e uma falsidade com sua mãe, escrevendo e jurando amor somente quando precisava de dinheiro. Dois homens, pai e filho, que a quiseram por causa da questão financeira repercutindo do pai até o filho o comportamento abusivo para com a mãe, que ao invés de rechaçar, não percebia maldade no que o filho fazia. O estudo sobre a constelação familiar é uma possibilidade de reconhecer a fidelidade a padrões que se repetem em família, conforme já anunciou Bert Hellinger.

O filme “Um amor impossível” (2019), adaptado por Catherine Corsini, baseia-se na obra “Un amour impossible” (2015), sem tradução no Brasil, de Christine Angot. Diferente do primeiro livro e filme, escrito e dirigido por homens, este filme tem uma cineasta que se baseia na obra de uma mulher, ambas nascidas no mesmo período que nasce a filha da protagonista do enredo. O romance, ambientado em Châteuroux-França do final da década de 1950, trata da história da secretária Rachel, uma moça judia de 25 anos, de classe média, filha de costureira, criada sem a presença do pai, que se apaixona por Philippe, um jovem que guarda um segredo do passado, experiente amante e que seduz pelo grande conhecimento cultural que demonstra ao falar sobre literatura e filosofia.

No filme “Um amor impossível” percebemos um filme feminino, escrito por mulher, dirigido por mulher, protagonizado por mulheres, que tem como pano de fundo o romance entre Rachel e Philippe, sendo a relação da protagonista com sua mãe, sua irmã, suas amigas e mais tarde com sua filha, o principal do filme. Os homens têm papel secundário na obra. É um drama sobre relações familiares.

Vemos o amor de mãe e filha, a responsabilidade feminina sobre uma situação aparentemente comum: mulheres que criam seus filhos sozinhas. Acompanhamos a descoberta e vivência da gravidez, o parto, os primeiros meses sem nenhum apoio do pai da criança. Vemos uma mulher que é responsabilizada pela gravidez, mesmo sabendo que Philippe tão responsável quanto ela, mas este naturaliza o abandono afetivo em relação à filha. Uma explicação para isso é o fato de ter sido criada somente por sua mãe, pois seu pai também a abandonara quando criança.

O filme trata do amor de mãe e filha, desde as dificuldades e exaustão encontradas na maternidade solo, terminologia moderna para uma situação antiga, quanto de problemas advindos da aproximação danosa ocorrida após Philippe ter assumido Chantal como filha em cartório. Philippe é cruel com mãe e filha, recebe apoio de seu pai, mas o amor que Rachel sente parece encobrir essa realidade mistura-se às questões de mentalidade e somos levados a crer que tudo que faz é diante de um contexto cultural onde os homens podiam relativizar sua paternidade.

O lado cruel dele não é o abandono, a rejeição, a humilhação, não é se casar com outra, preterir Rachel por causa de dinheiro, relegá-la à condição de amante, mesmo já tendo filha muito antes de ter conhecido sua futura esposa.  É pior.

 Depois da morte de Philippe, vemos duas mulheres machucadas pelo tempo que não conseguem dialogar, que não conseguem se entender. A filha com mágoa da mãe por ter amado demais um pai que fez um estrago emocional em ambas.  A obra se converte em estudo sobre comportamento humano e entra numa visão psicanalítica das personagens. Não é um processo de reconhecimento de filha que está diante dos nossos filhos. É a complexidade de violências cruéis que deixam marcam profundas em mães e filhas quando se está diante de homem-pai abusivo, violador de normas legais e morais. Esses homens sempre existiram.

Que códigos de convivência humana os embrutece a esse ponto de negar o amor, rejeitar a paternidade? Nem a liberdade, proclamada por Philippe, ao citar Nietzsche, dá conta de explicar.  

Uma passagem muito interessante da obra “Um amor impossível” é a conversa de Rachel com o seu psicanalista ao questionar se ela tem medo de sua filha. Ao que responde que sim. O espaço para diálogos fortes sobre a maternidade, seguido de uma explicação sobre os abusos sofridos pela filha ao questionar o porquê de a mãe ter escolhido um tipo cruel para se relacionar ao invés de ter casado com um outro homem, Charles, mais bonito e gentil. É importante esse diálogo para que reflitamos sobre relacionamentos afetivos e sintomas dos envolvidos na relação.

As experiências de abuso, abandono, rejeição, a sensação de não ser amada podem levar uma criança a desenvolver modos de se comportar e pensar que se repetem ao longo da vida. Essa perspectiva se aproxima de uma leitura psicológica do que Rachel havia passado na infância ao ser abandonada pelo pai e pela forma de se sentir inferior ao se apaixonar por um rapaz abusivo, cruel, pervertido, que lhe diminua a autoestima e lhe inferiorizava sempre.

Como essa situação do abandono filial se dá na década de 70 do século passado, somos levados a acreditar, como espectadores, que seja em razão da sociedade do período aceitar determinados comportamentos machistas.  No entanto, aparece uma situação inconcebível em sociedade: o incesto. A mãe após esta descoberta contra sua filha, silencia, não enfrenta a questão, teme olhar de frente, sendo preciso Chantal crescer e virar uma intelectual para explicar o que foi a relação das duas com Philippe.

As protagonistas de ambos os filmes são mães que enfrentam dilemas com suas respectivas maternidades ao terem filhos com homens destrutivos. Enquanto, a redenção de Jeanne vem com a chegada de sua neta, uma incógnita de como será aquele destino, Chantal também passa a ser mãe e começa a vestir azul, a cor que mais sua mãe usava, ao invés de vermelho que era a sua cor desde a infância. Não há menção à esposa de Philippe, não a vemos, não sabemos quantos filhos teve com ela, como a tratava, como era o relacionamento com os filhos do casal.

 É Chantal que propicia o diálogo mais revelador sobre o lugar da maternidade e da cegueira do romantismo exagerado quando faz uma série de proposições à sua mãe:

– Por que você não viu nada?

– Eu estava cega. Me arrependo. Mas, entendi depois.

– Você entendeu o que?

–  Parei de acreditar no nosso amor. Pensei que estava cansada de mim, que não me amava mais.

– Há uma lógica nisso tudo. Uma grande jornada de rejeição social, psicológica, desejada, organizada, inclusive o que ele fez comigo.

– Não entendi direito.

– Vocês dois pertenciam a dois mundos diferentes, completamente estranhos. Você era sozinha, pobre, judia, bonita, diferente das outras. Isso é importante. É relevante. O intuito era fazer você perder. É a história da rejeição social. Era preciso que continuassem separados socialmente. Tudo piorou com o “pai desconhecido”. Você não aguentou isso. – Eu não podia… eu achava injusto, falso.

– Mas, se eu tivesse o nome dele não haveria mais separação entre seus mundos. E você meteu na cabeça… queria o nome dele na minha certidão.

– Porque é a verdade.

– Então, passo a ser reconhecida como filha dele.

– Você é filha dele.

– Pois é. Mas, não era a regra do campo deles. O que ele poderia fazer? Bom, ele encontrou algo a fazer. E ignorou a proibição fundamental de pais terem relações sexuais com os filhos. Não era da conta dele. Para ele, não. Como se não fosse meu pai e eu não fosse filha dele. Ele estava acima disso, de você, de nós, das regras sociais

– Você acha?

– Sim, acredito nisso.

 – Ele foi o responsável por algo muito grave.

– O que ele fez a mim foi o que ele fez a você, antes de mais nada. Para humilhar, o melhor é fazer passar vergonha. O que é mais vergonhoso do que isso? Se tornar, mesmo quando achava que estava melhor, mãe de uma filha cujo pai faz isso?

E Chantal finaliza:

– Demos a vota por cima. Nossa vida não acabou.

Nos dois enredos, as personagens, são vistas como heroínas. Os homens são tratados como culpados e têm uma morte dura. A mensagem é otimista para as protagonistas: têm vida diante de si.  As mães dos dois filmes deram mesmo a volta por cima? “Enquanto há vida há esperança”, clichê ou não, temos essa perspectiva de futuro nos filmes analisados.  Percebe-se claramente que o estatuto feminino é delimitado por muitas regras morais, sociais, familiares e morais. Nós mães da sociedade do século XXI enfrentamos quais estatutos de maternidade agora? Fica as reflexões para este dia das mães.

EZILDA MELO é advogada, mestra em Direito pela Universidade Federal da Bahia/UFBA e professora universitária

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