ARTIGOS

O neofascismo aliena, mas os alienados não percebem

por Tales Ab`Sáber

Aviso aos alienados: esse palhaço pode ser você…

Nos últimos anos muito do pensamento crítico entre nós se deslocou para demandas de reconhecimento legítimas e luta por posições no quadro dado de uma democracia liberal tida por mais ou menos estável.

As batalhas pelas reparações de injustiças históricas profundas tomaram o espaço das luta sociais, de algum modo ultrapassando ou considerando como dados e resolvidos a equação tradicional da luta da esquerda por universalidade de direitos, compromisso social de Estado e preservação do poder de vida do trabalho.

Como o avanço da produtividade mundial e do consumismo geral articulado ao aumento da renda do trabalho e dos muitos pobres chegou a uma espécie de “bom termo” pela política limite dos interesses do trabalho dos governos de esquerda, as pautas progressistas se deslocaram fortemente para as questões referentes as violências e déficits no campo das relações raciais e de gênero.

A esquerda socialmente ativa de fato deixou de pensar amplamente na categoria trabalho e renda – como resultado de uma espécie de aceitação do equilíbrio consumo, envolvendo a produção mundial, e salário e renda social envolvendo o governo social democrata petista – e passou a se engajar nas figurações e proposições político culturais, em grande parte voltada à micro-politica, das lutas por direitos de reconhecimento e reparação histórica de racismos e patriarcalismos brancos de longa duração brasileira.

Ao mesmo tempo, de outra perspectiva crítica, aceitava-se a estabilidade do fundo social liberal de mercado como o verdadeiro palco das lutas e das conquistas possíveis. Neste processo, de aceitação da estrutura da renda e do acesso ao consumo como solução democrática meio pacificada, resultado da política macro econômica social lulista, que legitimava o capitalismo e o mercado à brasileira, passou-se a demandar respeito e igualdade de acesso em uma espécie de micro-economia da política, a micro-política cultural das denúncias das violências simbólicas, exclusões e desigualdades naturalizadas de muito longa duração brasileira.

Muito da teoria crítica ligada à formação da nação, origens autoritárias e alienadas das elites, parâmetros para a democratização e direitos de compromisso de Estado, dos modos de reverter a fantástica acumulação brasileira de renda, foi ultrapassada por uma outra teorização internacional, em grande parte gerada na cultura liberal de grande submissão da classe trabalhadora industrial norte americana, de concepção de identidades coletivas críticas, construção de vinculação de compromissos imaginários de grupos de demandas políticas na esfera direta do mundo da vida e das relações de desrespeito ou déficit democrático para com outras marcações sociais, que não a estrutura geral do trabalho e de renda na vida do mercado hiper concentracionario brasileiro.

O homem branco hetero passou a ocupar o lugar negativo do conflito e das demandas de direito e sentido da dialética social desejável, daquilo que foi o patrão, o burguês, o banqueiro e o capitalista, das lutas dos anos de 1950 a 2000. Uma outra teorização crítica, de base militante constituída no interior da história americana do racismo, e da subjetivação burguesa imperialista protestante, foi lida para o Brasil, por vezes deixando de lado muito da história da crítica do poder e do Estado realizada no próprio Brasil.

Porém, a vitória política terrível do neofascismo brasileiro, em um grande movimento de alienação de massas, controle social da política e do registro simbólico dos desejos e das subjetivações sobreveio. Com novas e velhas tecnologias em jogo, de modo a unir o interesse do Capital no Brasil a uma proposição conservadora e autoritária – e portanto racista, machista e homofóbica ao máximo – abrindo o espaço da política a uma nova rodada de destruição do poder do trabalho e da renda social no Brasil, destruindo o pacto social de Estado que garantiu as lutas democráticas por representação e direitos dos últimos anos.

Esse quadro repõe a necessidade de compreensão da história do país, da cultura e das formas brasileiras específicas de alienação e produção de poder. Cinquenta e oito milhões de brasileiros, que votaram no programa de união do neoliberalismo com neofascismo, passaram muito longe, negaram e atacaram toda a micro-política das lutas culturais por reconhecimento, tal qual elas se configuraram no país, e aceitaram um Estado de perseguição de direitos e reconhecimentos bem como de destruição material das estruturas e institutos sociais que garantiam direitos do trabalho e da renda no país.

Homens, mulheres, negros, gays, ricos, pobres, das cidades e do campo, aos milhões se uniram para atacar e destruir o PT, e negar, rebaixar e submeter todo movimento de crítica cultural ao poder burguês, pequeno burguês, racista machista homofóbico brasileiro.

Não conseguimos os 10 milhões de votos, no quadro de revolta artificialmente construída contra a corrupção da esquerda (uma falácia política que não foi respondida e combatida) para vencer a convocação da unidade cultural liberal-conservadora-fascista brasileira.

Nossas categorias críticas e ações foram ultrapassadas amplamente, pela força técnica, política e cultural subjetivante, do neofascismo à brasileira, e sua ação concreta no espaço social. Não há dúvida que precisamos voltar à crítica e à história do Brasil, que reunifique nosso campo crítico e desejante comum, naquilo que um dia foi o socialismo democrático brasileiro, representado historicamente pelo advento do PT e da redemocratização. Precisamos repor a força crítica da universalidade socialista para recuperarmos um projeto de democracia que estamos no limite de perder completamente para o terror brasileiro.

Precisamos voltar a uma teoria crítica que nos unifique, que projete o trabalho social e que não permita a força social do pior do Brasil, a união do Capital mais cruel do mundo ocidental – menos comprometido com a democracia e com o trabalho – e os arcaísmos autoritários escravocratas humanos que nos formaram. Precisamos voltar a respeitar a teoria crítica do Brasil, sabendo articula-la às novas demandas democráticas de respeito e igualdade, de modo a produzir política de Estado real. Precisamos.

TALES AB`SÁBER é psicanalista, escritor, professor, doutor em psicanálise (USP) e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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