ARTIGOS

Vencer a guerra desistindo dela

por Willis Santiago Guerra Filho

Então de repente parece que estamos em guerra, guerra mundial. Sim, estamos, sempre estivemos, desde que começou aquela que inicialmente foi chamada de Grande Guerra, mas depois do que se convencionou chamar de segunda (guerra mundial), tornou-se a primeira.

Isso por uma espécie de “efeito retroflexo”, nachträglich ou après-coup, no sentido psicanalítico, de embaralhamento temporal. É essa primeira que vem continuando, há um século já, mesmo com a pausa, o cessar-fogo, o armistício de 1918, com o período de intensificação entre 1939 e 1945, quando cessa uma conflagração direta e generalizada para dar lugar a uma pulverização dela, em formas locais, regionais, internas ou civis, mas sempre refletindo nacionalmente posições externas, estrangeiras. E agora chegamos a esta forma de imobilização geral, provocada por um vírus que se dispersa mundialmente tal como bomba bacteriológica, virológica no caso, sendo que tais artefatos foram produzidos, cientificamente, e efetivamente utilizados, na chamada I Guerra Mundial, mas não só, mesmo depois de proibidas, sem que proibições tenham de algum modo capacidade de conter esforços de guerra e planejamentos para ela, quando ela é a negação do Direito.

Não se trata de referir à guerra como metáfora da doença, nos termos de Susan Sontag, pois é guerra mesmo do que se trata, embora difusa, e amplamente civil – ou incivil. O Welfare State logo se mostrou como Warfare State, mesmo antes de ter sido desmontado pela onda neoliberal dos anos 1980.

Sim, acertou Karl Kraus, o satirista, jornalista e escritor vienense, quando em sua peça sobre a Grande Guerra vaticinava já no seu título o que se passava: “Os últimos dias da humanidade”. Últimos dias que podem ainda ser muitos e já foram, um século já se passou, mas teremos ainda mais outro pela frente, se insistirmos em continuar sendo como temos sido? E como mudar o que somos, para nos desviarmos do fim que se aproxima cada vez mais velozmente? Não é fácil mudarmos como indivíduos, então quanto muitíssimo e exponencialmente mais difícil, logo improvável, é atingirmos a mudança da espécie, a mudança mundial, da humanidade constituída pela guerra que pôs em contato indivíduos espalhados por todo o globo, interferindo e direcionando suas vidas.

Inevitável deixar de lembrar do mito gnóstico que explica o mundo como um combate entre forças da luz e das trevas, até a física contemporânea refere que o universo é composto, majoritariamente, por energia e matéria escuras, além daquelas que nos cercam, de luz e claridade. E essas forças se distribuem desigualmente na composição de cada um de nós humanos, distinguindo-nos em psíquicos, pneumáticos e gnósticos –  ou em proporções desiguais de cada um desses três aspectos. É que parece haver mesmo muita diferença em como nos portamos uns diante dos outros e em face do mundo em geral, havendo um número que tem predominado para quem o que mais importa é a si mesmo e o que possa fazer para se destacar mais, elevar-se mais, frente aos outros. É a lógica do sobrevivente, a que se refere Elias Canetti, de maneira mais detalhada em sua obra monumental “Massa e Poder”, obra de uma vida dedicada a entender o papel da morte em nossas vidas, inclusive ou, mesmo, fundamentalmente, em seu aspecto político. Sobrevivente é aquele que, sendo um poderoso, um “detentor de poder”  (Machthaber), por ter o poder para tanto, impõe a outros a morte e o sofrimento para assim sentir-se acima da vida, “Über-lebend”, sobrevivente, quando ela é indissociável de tais circunstâncias. Escrever, então, sobre a experiência de ser um sobrevivente, sobrevivente da sanha assassina de sobreviventes inconformados com a morte, se mostra como um libelo em favor da vida a ser vivida significativamente, quer dizer, respeitando seus limites, ou melhor, nossos limites e sua limitação. E escrever sobre o padecimento e o júbilo de viver humanamente, mortal e precariamente.

Vida humana, propriamente, é vida revestida de sentido, capaz de tornar suportável a consciência que temos os humanos de podermos não ter sido e a qualquer momento podermos não mais ser ou sermos acometido por uma ameaça ao nosso ser, finito, contingente. E esse sentido da vida nós adquirimos ao termos nossa história pessoal inserida em uma história comum a outros, que nos antecede e irá, também, nos suceder. Relatos, narrativas, rememorações – assim como também as comemorações – se prestam para manter esses vetores de sentido comum, de comum-unidade. A desumanização, portanto, é o que ocorre quando não se dispõe mais desses vínculos, e eles foram dissolvidos com a substituição da vida em comunidade por aquela em sociedade, atomizada, composta de sujeitos individualizados, tidos como autônomos e independentes, que não têm mais nada a dizer um ao outro que não seja pautado pela realização de interesses, pessoais. É quando, também, a história toma o lugar da memória, assim como a informação, objetiva, substitui a narrativa, pessoal, um tema notoriamente (Walter) benjaminiano.

Daí que hoje chegamos a essa situação em que a preocupação maior é com a manutenção da vida biológica de cada um, donde a importância de que haja riscos a serem combatidos, como o de contrair doenças, ser vítimas de catástrofes naturais ou que se apresentam como tais, assim como as guerras ou a criminalidade cotidiana, a fim de assim se justificar o poder político governamental, nos quadros do que Foucault tão bem qualificou de “biopolítica”. A vida em sociedade é tida como permanentemente ameaçada e do que se trata é de defendê-la, sendo o sentido que nos é oferecido para vivê-la aquele de mantê-la e só, sabendo que em algum momento, e a qualquer momento, se vai perdê-la.  É um regime de crenças que precisa ser alterado, sendo que esse regime é o que somos enquanto seres marcados pelo desejo. São nossos desejos que precisam mudar, ou seja, precisamos antes de uma “metorexia” do que de metanoia. Quem sabe isso possa ocorrer sob o impacto dessa fase agora biológica do nosso estado de beligerância, já tão prolongado e desastroso, propiciando uma espécie de nova Anábase, agora mundial. E tendo referido algo da antiga Grécia, vale lembrar passagem a respeito de um dos maiores dentre os estudiosos dela que lecionaram aqui, o lusitano Eudoro de Sousa, em texto de 1962, elaborado para justificar a inclusão de um Centro de Estudos Clássicos na Universidade de Brasília que então se fundava (publicado postumamente como “Anexo” da obra “Filosofia Grega”, pela Editora da UnB, no ano de seu cinquentenário, ou seja, 2012), neste dia em que a cidade completa seus sessenta anos, pois lá se apresentaram “filosofia, ciências e técnicas (como) atividades todas ordenadas a que, diante do complexo cósmico, o homem deixe de apenas intuir e poetar, ou de ingenuamente integrar-se no ambiente, e passe a organizá-lo, aproveitá-lo e dominá-lo”. Eis a origem mais remota da guerra de que aqui tratamos. Mas continua o helenista: “(…) é exatamente daqui que arranca o mundo ocidental, mas como, também, no fundo de todo este esforço, o outro mundo de paz plena com a natureza e o próprio homem espera que seja possível o regresso a ele, não com uma amargura de derrota, mas com um enriquecimento de vitória”. Que vençamos então a guerra, desistindo dela. 

WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO é professor universitário; Doutor em Ciência do Direito pela Universidade de Bielefeld, Alemanha; Livre-Docente em Filosofia do Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC); Doutor e Pós-Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Doutor em Comunicação e Semiótica (PUCSP); Doutor em Psicologia Social e Política (PUCSP)

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