ARTIGOS

EUA: uma escola de racismo

por Juan Manuel Domínguez

Há um tempo atrás, quando o Covid-19 ainda não tinha se espalhado de forma considerável no Brasil e tinha baixa incidência nos Estados Unidos, escrevi um artigo sobre como essa pandemia ia nos mostrar a vulnerabilidade das pessoas segundo sua classe social e seu lugar nesse esquema produtivista (que valoriza as pessoas segundo sua capacidade de produção, o que na grande maioria dos casos seria equiparável à  juventude da pessoa). Um sistema que também é racista, sexista, lgbtqifóbico, e classista. E não é por acaso que seja nos Estados Unidos, modelo e paradigma do capitalismo neoliberal de vanguarda, onde essa realidade se manifesta da forma mais escancarada. Pese a quem pese, e doa a quem doa (incluindo a quem escreve essas linhas) o nível de segurança que você tenha enquanto possibilidades de sobreviver a um possível contágio e de conservar seu emprego, sua renda, seu teto, no meio dessa pandemia, é equivalente a nível de privilégio que você tem nessa sociedade. 

No Estados Unidos, dados oficiais mostram que o surto está mais concentrado nas principais áreas metropolitanas. Nova York, Nova Orleans e sudeste do país, onde vivem maiores porcentagens de negros e latino-americanos. Na cidade de Nova York, o vírus afeta desproporcionalmente bairros de baixa renda em Queens, Harlem e Bronx, que possuem populações mais densas de imigrantes de cor, afro-americanos e hispânicos.

Negros, latinos e nativos americanos também tendem a ter mais problemas de saúde subjacentes – como asma e diabetes – do que brancos. 

Na cidade de Nova York, um relatório sugere que 34% das 3.602 mortes por Covid-19 até hoje são hispânicos, o que constitui 29% da população da maior cidade americana, de 8,6 mil habitantes. “É uma disparidade flagrante”, disse Bill de Blasio, prefeito da cidade.

Mas a disparidade é especialmente acentuada em cidades como Nova Orleans, Chicago e Detroit, onde vivem altas concentrações de afro-americanos. Sharrelle Barber, da Universidade Drexel,  disse ao The New York Times que a causa do aumento da mortalidade entre afro-americanos “não é biológica”, mas “na verdade responde às desigualdades estruturais existentes”.

Em Michigan, morreram oito vezes mais negros do que brancos. Em Illinois, quase seis vezes mais e cinco vezes mais na Louisiana. A situação é ainda pior na região de Milwaukee, uma área pertencente ao estado de Wisconsin. Os cidadãos afro-americanos representam 26% da população da região, mas 73% das mortes por coronavírus estão relacionadas a esse grupo. A grande maioria dos pacientes são trabalhadores de serviços públicos mal pagos ou empregados considerados “essenciais” – guardas prisionais, mensageiros, policiais – que não têm segunda residência, geralmente localizada em uma população menos densa, para a qual se deslocar.

Os afro-americanos são duas vezes mais propensos a ficar sem seguro de saúde em comparação com seus colegas brancos, e têm maior probabilidade de viver em áreas medicamente negligenciadas, onde a atenção primária é escassa ou cara. O que no Brasil se reflete na quantidade de pessoas que moram em favelas (restos da segregação colonial) e que tem um acesso ao atendimento e a todo tipo de recursos desproporcionalmente inferior em comparação às pessoas que moram em bairros metropolitanos e de classe alta, com menos densidade populacional ( o que diminui a possibilidade de contágio por aglomeração) e com um acesso ao atendimento quase que imediato e sem nenhum obstáculo de consideração.

O negacionismo do presidente Jair Bolsonaro, mais radical ainda que o que Donald Trump teve até uma semana atrás, só pode-nos fazer pensar num futuro mais trágico para o Brasil que o lastimoso presente que os EUA têm hoje. Mesmo quando tentamos olhar a vida com otimismo, o que avistamos daqui para frente parece ser, de modo inconfundível, uma nuvem de tempestade, que ameaça dizimar a população brasileira mais vulnerável. E enquanto não houver uma mudança nas políticas públicas para fazer frente a essa pandemia, a previsão será a mesma. Ainda não sabemos o custo que o país terá que pagar por ter eleito um presidente sem nenhum tipo de sensibilidade humana, sem nenhum tipo de empatia pelos outros. Nos Estados Unidos, com o maior PIB do mundo e a economia mais influente do planeta, os números são indiscutíveis. A disparidade racial e a falta de um sistema universal de acesso à saúde sólido e bem estruturado são contundentes na hora de determinar quem leva a pior parte no meio à crise causada pelo Covid-19. 

JUAN MANUEL DOMÍNGUEZ é militante, professor, escritor, jornalista, roteirista, produtor e diretor de cinema. É também fotógrafo de documentários que fazem a defesa dos direitos humanos

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