ARTIGOS

As definições de amor foram atualizadas?

por Léo Rosa de Andrade

Amor? Esforços de significação. Para o que este texto pretende interrogar, responde o Aurélio: “sentimento terno ou ardente de uma pessoa por outra, e que engloba também atração física”. Conforme o Houaiss: “atração baseada no desejo sexual”.

A segunda definição alicerça o amor no desejo sexual. A primeira põe o sexo como um agregado, ainda que necessário. Essas definições não bastam. Amor é mais. É uma química, e acontece no plural, entre pelo menos duas pessoas.

Vontade unilateral não é amor. É estéril insistência, resulta em infelicitação. Sem correspondência, o anseio amoroso converte-se em rancor, em mágoa que não sara, em fixação doentia no objeto que se nega ao sujeito desejante.

Menos ainda verdadeiro – ainda que na moda – é o amor autodeclarado. Que se invente outra denominação para essa jurada autoapreciação que alguns corações desertos afirmam ter por si. Onanistas, isso é só outro nome para solidão.

Não perdura o amor se não houver reciprocidade amorosa. Mas o desejo recíproco é bastante? Não basta. Há que existir, além do desejo afetuoso do outro, uma espagiria que provoque as ardências, que acenda e reacenda o tesão.

O amor que persiste nunca dá por saciado o desejo, mesmo depois de todos os desejos se saciarem. O único amor válido é o sempre atiçado. É um amor ávido que continua vontade, ainda que a vontade esteja de corpo cansado.

Amor também é conflito, pois é relação de poder. Posto o amor, nasce a angústia de controlar. O sujeito que ama quer presença e controle, quer fazer o outro objeto todo seu, quer submeter o ser amado às suas exclusivas pretensões.

O amor fica grudento. Para mais e melhor fiscalizar, marca presença acachapante; a relação entra “na base do só vou se você for”. A coisa se consume. O cotidiano, banalizado, cansa. Não obstante, marcação cerrada.

Posse e dominação. Violência para exercer possessão. O amor se põe ofensivo, mas o ser desejado, já só objetificado, perdido de paixão – o amor em seu estado quente, exaltado –, engana-se: percebe domínio como afeição.

E os amantes, quanta mentira dão-se a dizer: promessas que se esvaziam; impossíveis, destinadas a malograr. Vantagens contadas; inalcançáveis, fadadas a fracassar. Palavras sem lastro, compromissos a não cumprir.

Amor também é cultura: nos jeitos, nos rituais, na intimidade. A cultura lhe dita os modos, pauta-lhe até os momentos essenciais. As partes se declaram, entregam e seguem conforme os ditames sociais, ou não se sentem conceituadas.

As formatações sociais estabelecem as aparências públicas do sentimento de amor. Amar de forma diferente da que se ama em uma circunscrição de lugar e tempo é ofensivo às expectativas gerais de se cumprir o amor.

Os envolvidos entregam seu amor em holocausto aos ritos solicitados pelos costumes. Cumprem as atenções, publicam sua felicidade, frequentam as obrigações. Há um gozo doentio nisso, mas que se realiza pleno de cumplicidade.

Amor é uma moral, tem uma ética. Brincamos com as quebras da moral amorosa: é quando fazemos malcriação com o amor. E nos damos licenças por fora da ética da relação: nesses momentos somos arguciosos com nosso par.

Muitas outras coisas, ainda bem, acontecem. E essas coisas contaminam, ou assentam na realidade, as declarações e modos enlevados que marcam os princípios amorosos: os que faziam puro amor, agora, fodem com vontade.

Há quem procure a pureza amorosa. Pode encontrá-la em forma de ternura, afagos gentis, cuidados; como inocência, até. Tudo isso compõe o amor. Amor, às vezes, é um passeio de mãos dadas. Mas amor também será bandalheira.

Se não houver o conteúdo sacana, se não houver a fêmea se esfregando sequiosa, dando-se toda, não haverá amor; se não houver o macho cobiçoso que saiba lambuzar a fêmea, se não houver pegada, o amor não será a contento.

Amor é carinho, mas morre sem sexo forte, puto, com pecado. A fêmea quer e quer ser querida; o macho quer e quer querer. Se tudo pode, isso pode ser invertido? Pode e deve, em havendo desejo por qualquer outro modo de transar.

O amor se realiza no gozo. Meu gozo, o outro é objeto. Gozo do outro, sou objetificado. Se não faço do outro o objeto do meu gozo, nunca saciarei o meu gozar. Se não me objetifico ao gozar do outro, o outro jamais gozará sua vontade.

No gozo, pois, há oferta e império da vontade. Cada qual, a um tempo próprio, se dará por objeto de gozo e cumprirá a soberania do gozar. No gozo não há cortesias, há busca de saciedade. É dar-se em uso e usar abusadamente.

Mas há um indescritível no amor. Gresiela Nunes da Rosa: “Há um não sei. O amor perdura enquanto não descrevo o que sinto, enquanto não sei das suas razões. Quando me sei na relação, quando delineio o outro, já não há amor”.

Pessoalmente, tenho sede de saber o outro. Mais e mais. Ilimitadamente. É que me oponho a demarcações. Mas creio que compreendo Gresiela, porém pelo inverso do dito: morre o amor se resumido à vivência das coisas dadas.

Se me basta o que sei e já não quero saber mais nada, talvez não aconteça que eu saiba a tal ponto que não tenha mais que saber; quiçá, apenas, já não me interesse. O outro já não me entretém o querer, já não me açula desejo.

Muita gente, embora esgotadas as vontades, permanece. Namora de caso acabado. Pode ser pelas boas lembranças, que sempre as há, pode ser por perdurar um amor amigo, um alguém que nos dê escora para os medos da vida.

Uma pessoa amiga ao lado sempre fará um grande bem. Mas não é disso que se trata. Seja porque a relação está demais desvendada, seja porque já não interessa desvendar a relação, os ímpetos de sedução estarão arrefecidos.

Há casos que sobram por válidos ou mesquinhos interesses, outros perduram porque os casais se acostumaram a estar casados. Alguns se convertem em belas amizades. É tudo outro tipo de amor: amor companheiro; amor de respeito.

Amor respeitoso, sem arrebatamento. Tudo de indefinito está acabado. Ah!, talvez os corpos, escrupulosamente, ainda se emprestem ao sexo. Alívio no acalanto, mas, também, alívio no afastamento. Nada disso comporta definição.

LÉO ROSA DE ANDRADE é psicanalista, professor universitário e doutor em direito (UFSC)

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