ARTIGOS

O ovo de Páscoa que ainda estamos chocando

por Renato Kress

Antes de ser o feriado dos coelhos e dos ovos de chocolate, a páscoa significava, para os católicos, a libertação de todos os que estavam separados de Deus pelo pecado, comemorada junto com o dia da ressurreição de Cristo após a crucificação. 

Mas antes disso ela significava, para os judeus, a “Pessach”, ou a passagem do anjo da morte que levou os primogênitos egípcios e poupou os primogênitos judeus, abrindo caminho para a fuga dos hebreus (judeus) do Egito e a sua libertação da escravidão. 

Antes ainda, na Babilônia (antiga Suméria), esse festa acontecia na mesma época do ano. Comemorava-se o aniversário ritual da deusa Ishtar (pronuncia-se “Easter”), deusa da fertilidade, da procriação e do constante renascimento da colheita, das flores e do campo. 

Sabe quais são os símbolos da deusa Ishtar (Inana)? O coelho, símbolo da promiscuidade criadora e da fertilidade; e o ovo cósmico, que, ao quebrar-se, liberou toda a força e potência criadora do mundo. Por isso era, essencialmente, uma festa para comemorar a vida

A esquecida mensagem do vândalo

Temos, na nossa comemoração do que chamamos de Páscoa, a tradição de darmos ovos de chocolate – inexplicavelmente trazidos numa cesta por um coelho bípede – para crianças. 

Alguns ainda se lembram da “libertação” de um revolucionário (vândalo) judeu que pregava o amor universal. 

É saboroso para a alma ver que, depois de muitos desacertos, a instituição que procura falar em seu nome finalmente tem lembrado de levar a mensagem do jovem que genial e humanisticamente reuniu todo o pentateuco e os textos sagrados em apenas um mandamento: “Amai ao próximo como a ti mesmo.”.

Quase ninguém se lembra de Ishtar (embora todos os povos de língua inglesa se refiram à data usando o nome da deusa).

Crianças tribais

Hoje quase todos nós nos encontramos (ou nos perdemos) dentro de nossas casas, cobrindo os umbrais de nossas portas com nossa esperança, como a narrativa bíblica alertava sobre proteger-se da passagem da peste que assassinava crianças.  

Esperamos poder salvaguardar nossas famílias, nossas crianças e a nós mesmos da vinda do “anjo da morte”, do terror e da violência que nos visita “lá de fora”. Na nossa ilusão narcisista ainda somos temerosas crianças tribais.

Fronteiras e zonas de conforto

Criamos nossas portas e acreditamos nelas. Acreditamos que enquanto estivermos “dentro” nos protegeremos dos perigos e incertezas do caos “lá fora”.

E não se engane! Eu não estou falando apenas do vírus que presidentes inconsequentes têm ajudado a proliferar para matar nossos parentes e amigos. 

Falo sobre acreditarmos que existe realmente a possibilidade de sermos “escolhidos” ou “preferidos” diante do medo, da morte e da violência que não atravessará nossas fronteiras íntimas e fará vítimas apenas entre os “impuros”, os “maculados” pela preguiça, pela pobreza, pela ira de um “Deus” que é justo com os “justos” e injusto com os “injustos”. Um “Deus” que poderíamos chamar de ego, ou de comodismo ou de Mercado Financeiro.

Ainda que toda a realidade urre de dor em nossos ouvidos, ou ainda que arrombe nossas retinas, insistimos, como crianças mimadas, que as condições de vida das demais pessoas são consequências únicas das atitudes dessas mesmas pessoas.

Precisamos dessa ilusão para alimentar a ilusão de que as nossas vidas dependem unicamente de nós e nossos atos. Massageia nosso ego.

Insistimos infantilmente em separar o “dentro” e o “fora”, o “nós” e os “outros”, a “ordem” e o “caos”, o “bom” e o “ruim” e depois nos colocarmos apenas no dentro, no nós, na ordem e no bom. Como se fôssemos perfeitos, infalíveis! Quanta criancice!

Ainda alimentamos, nessa dança narcisista, a fantasia egóica de sermos “os escolhidos”.

Mas nada mais inconveniente do que a consciência. Sabemos, intimamente, que isso é uma grande mentira! Que um pobre palestino, uma criança negra na Maré, nossos filhos e um neto de um magnata não têm as mesmas chances em suas jornadas sobre este planeta.

Sabemos, cada vez mais, que o valor de uma vida tem sido medido pelo seu crédito bancário.

Sabemos que o medo que instauramos através do terror policial “lá fora” é o mesmo medo, a mesma onda, que rebate num rufar cardíaco nos nossos espaços “aqui dentro”. 

É o medo que vende remédios contra a ansiedade, armas contra a violência, grades, portões e armaduras para as polícias urbanas. 

O medo ensinado pela mídia por anos elegeu o candidato do ódio do qual a mídia agora tem medo. 

Mas a esperança é um comichão cardíaco

Ainda precisamos de muita humildade e senso de realidade para percebermos que a fé é o combustível para empurrar a montanha, que o combustível não age sem a centelha divina que carregamos em nós: o potencial para amarmos ao próximo como a nós mesmos. 

Aquele mesmo papo igualitário de perdão e união, a mesma “boa nova” do “vândalo” de Nazaré.

Me pergunto se algum dia, ao invés do medo, comemoraremos com Jesus, com Adonai, Ishtar, Oxalá, Budha, Brahma e Rá, alguma real Páscoa, a passagem para uma nova era, o ressurgimento da vida através daquele ovo cósmico palpitando átrios e ventrículos em nossos peitos.

RENATO KRESS é antropólogo e cientista político

Categorias:ARTIGOS

Marcado como:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.