ARTIGOS

Devires familiares

por Liliane Pimentel

Arte: Olga Aquino

Você nasceu de uma mulher e de um homem a quem pode chamar de mãe e de pai. Veio de uma rede familiar composta por outras pessoas que inclui tios, avós, avôs, tias, primos. Seus avós tinham também uma rede composta por outras pessoas. Cada antepassado nasceu dentro de uma rede que, querendo ou não, tendo conhecimento dessa rede ou não, você é herdeiro. Você foi educado e recebeu valores dessa rede. O núcleo familiar é a primeira (in)segurança na vida. O lugar onde você pode ser quem quiser, sem amarras ou não.

Sobretudo na relação com a mãe, mas também com o pai, você recebeu a base que orienta as relações durante a vida. A relação com a mãe é a mãe das relações. A relação com o pai é a linha tênue entre aquilo que pode ou não, o possível ou o interditado. Um representa a casa aconchegante, o outro o voo para o mundo. Ela, a mãe, apresenta a criança ao mundo e o mundo à criança. Por intermédio da mãe que a criança se constitui primeiramente. O corpo da mãe é a primeira morada, o primeiro abrigo, ali onde se vivem as primeiras experiências, sensações e interações.

Observe como uma criança se comporta quando a mãe esta presente, quando a mãe sai, quando a mãe esta distante, quando a mãe retorna ao ambiente, quando a mãe esta com medo, quando a mãe esta perdida, quando a mãe esta insegura ou angustiada. Mesmo que a mãe não se expresse verbalmente, a criança sabe. Seu inconsciente comunica inconsciente; na relação simbiótica entre mãe e filho é ainda mais difícil escapar a essa transmissão. A mãe é a matriz, a origem da vida. Uma criança pequena não sabe-se separada da mãe, não compreende, não coloca em sentido sua dor sem intermédio da mãe. Mas a mãe também foi criança um dia, também habitou um corpo materno. Olhar para a criança que habita a mãe pode ser enriquecedor para que essa mãe consiga perceber seu filho como um sujeito diferente daquele que ela foi. Um filho não é uma extensão, é um Outro, um Outro sujeito.

Porém, assim como herda-se da rede familiar um conjunto de regras, valores, crenças que constituem os sujeitos, que fornecem segurança para ir para o mundo, também herda-se um conjunto de limitações e imposições, ás vezes veladas, que por vezes podem ser impeditivos para viver uma vida por si.

Uma criança não tem condições de promoter nada aos pais, nem a outros familiares. “Promoter que não vai crescer distante ou que vai ser sempre assim” é bonito para letra de música. Na vida do dia a dia, a criança no auge da sua fofura é impelida por aqueles que seriam responsáveis por impulsionar seu voo a repetir coisas como “sou a namoradinha do papai”, “sou o garotinho da mamãe” ou ainda, frases como “a nossa hora do amor”. Aparentemente são frases que podem soar despretensiosamente.

Entretanto, trabalhar com saúde mental e atender clinicamente homens e mulheres com disfunções sexuais das mais variadas ordens ou que não conseguem alimentar um relacionamento a dois com outra pessoa possibilita fazer algumas considerações a respeito de como a relação entre pais e filhos afeta a vida adulta de homens e mulheres, sejam eles de orientação hetero, homo, bissexual ou seja qual for.

Uma criança que cresce sendo constantemente puxada para o posto de neném da casa, neném de um dos pais ou ainda da família, terá que se haver com isso em algum momento da sua vida adulta. Não é raro tanto homens quanto mulheres que devotam sua vida aos pais, como se houvesse uma dívida que nunca poderá ser paga, pois se colocam como objeto eterno de gozo familiar. São eternamente o bebe da família. Abrem mão da sua vida, de relacionamentos, de trabalho, de lazer para ser aquele que acode qualquer desordem vinda dos genitores ou até mesmo outros familiares. A investigação clinica favorece perceber sua posição na rede familiar. Consequentemente, tem dificuldades em relacionamentos amorosos, podem até ter alguns relacionamentos, mas estes não progridem ou quando parecem engrenar são interrompidos por algo provocado sempre pelo outro. Há uma lealdade ao sistema que, inconscientemente, impele o sujeito a se manter na mesma posição, repetindo o mesmo padrão de comportamento, por vezes, sem se dar conta.

Frequentemente são pessoas com bom relacionamento familiar e, muitas vezes, admirados pela devoção para com os seus. A posição passiva que assumem é alimentada pelo retorno que recebem tanto do grupo familiar quanto de pessoas próximas que acompanham sua dedicação. São filhos, irmãos exemplares.

Deve-se honrar pai e mãe, esse é o enunciado que é propagado pelo sistema cristão patriarcal tradicional. Todavia, devemos considerar que honrar os genitores inclui assumir a vida que eles lhe deram, tomando-a nas mãos e, com seus filhos repassando o que foi herdado, seja repetindo ou fazendo de outro modo. A dívida para com os pais não pode ser paga devotando toda a vida a eles. Mas, repassando o que eles deixaram de legado.

A mãe, principalmente, precisa autorizar o crescimento e o amadurecimento do filho(a), oferecendo um horizonte onde a cria possa vislumbrar algo para além dos limites da família nuclear. Do contrário, como poderá o garoto da mamãe exercer a virilidade numa relação intima com outra mulher? Visto que no empuxo para a relação de eterno bebe ele estará constantemente se havendo com a castração materna. Sim, castração. Pois como poderá um eterno garoto da mamãe assumir a posição ativa numa relação com o par quando mantém-se enredado no romance familiar. O mesmo vale para as meninas. Como poderá uma mulher usufruir da entrega sexual, dos prazeres libidinais adultos se continua as voltas com a relação primeira da sua infância.

Sabemos ainda que não há um manual quando se trata de educação, criação de filhos. Cada pai, cada mãe devera construir seu percurso com cada filho, independentemente do número de filhos que tiver, pois cada um terá necessidades próprias e demandara algo especifico. Porém, também sabemos que cabe aos pais, sobretudo a mãe, permitir que o cordão umbilical seja cortado, que o filho possa alçar voos, voando mais longe ou mais perto.

Assim, talvez seja possível considerar a possibilidade de trocar frases como: “você será sempre meu bebe” para “você será sempre o caçula, mas está crescendo e um dia terá a tua vida” ou “você é a namoradinha do papai” por “o papai te ama, mas você poderá ter um namorado quando crescer”. Considere que o pai é namorado da mãe. O pai é o homem da mãe. A mãe é a namorada do pai. Assim insere-se a interdição abrindo a possibilidade para que a criança continue desejando, de outro modo. O desejo que será direcionado para relações futuras.

Cabe aos pais encorajarem o crescimento e amadurecimento dos filhos possibilitando que estes possam assumir um lugar nas relações amorosas, com amigos, com parceiros de trabalho. È preciso abrir mão do gozo da relação infantil para usufruir do gozo das relações adultas. Aqui cabe aquela máxima: não é possível ter tudo, o tempo todo. Qualquer escolha exclui algo, assim como inclui algo. Crescer, amadurecer é perder e, lidar com a castração, como já nos advertiram Freud e Lacan; Freud introduzindo o conceito de castração na Psicanalise, Lacan através da releitura de Freud, denominando o sujeito castrado de sujeito barrado, ou sujeito interditado.

LILIANE PIMENTEL é psicóloga clínica, psicanalista em formação e especializanda em psicanálise (UNIFEBE/HSC)

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