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Conhecer para não ser um autoritário de merda

por Paulo Ferrareze Filho

O autoritarismo, desde já concebido como sobra do exercício da autoridade, pode ser contornado em dois contextos distintos. Primeiro, nas (1) estruturas dos sistemas políticos e, depois, como (2) disposição psicológica de sujeitos no uso de algum poder ao qual foram legitimados ou ao qual pensem ter sido legitimados. Essa sobra, portanto, se converte objetivamente no campo da política e subjetivamente no campo psíquico.

Em ambos os contextos, porém, o autoritarismo assenta-se como derivação da história da verdade no ocidente. É a nossa história que condiciona os modos em que o autoritarismo é exercido tanto política quanto psicologicamente. Forjado a partir do conceito de dogma, a reitoria que o conceito de verdade exerceu durante a história não ocorreu sem deixar um vinco marcado no psiquismo social do espírito ocidental. Dogma pode ser conceituado aqui como a representação de verdades absolutas professadas por alguém que, legitimado ou não, utiliza-o de modo impositivo.

Na política o dogma é institucionalizado nas entranhas do sistema imposto, quase sempre – mas não só – pela via da regulamentação. Por isso, protegido pela força de um regulamento, confere maior poder a uma pessoa ou a algum colegiado. Daí porque o abuso no exercício desse poder, geralmente ao restringir liberdades, conduz invariavelmente a um autoritarismo político. 

Já no psiquismo, o dogma é introjetado no corpo psíquico do sujeito autoritário, que acabará exercitando-o por meio do dispositivo da censura e que, por fim, tenderá não só a restringir a liberdade alheia como acabará restringindo também a sua própria liberdade. Essa é uma diferença importante entre o autoritarismo político e o psíquico: no político a restrição de liberdades se dirige apenas aos outros, enquanto no autoritarismo psíquico a restrição de liberdade não só atinge o outro, mas acaba incidindo no próprio sujeito autoritário.

1. Autoritarismo na estrutura de sistemas políticos

A igreja católica é um exemplo privilegiado para compreender a institucionalização de um dogma e os resultados políticos dele decorrentes. Ainda que o dogma católico tenha sido concebido no campo religioso e transcendental, modelos hierárquicos e procedimentais usados pela igreja forjaram boa parte das estruturas políticas da modernidade. 

Leonardo Boff, na introdução do Manual dos Inquisidores, aponta como o dogma sempre foi condição para que o autoritarismo se institucionalizasse publicamente ao longo da história ocidental. Toda verdade absoluta conduz não só à intolerância, como afirma Boff, mas também ao autoritarismo.

Se a santa inquisição é o efeito de um regime de verdade que conduziu à intolerância e à morte de tudo que contradizia os dogmas católicos (o tratamento das bruxas e dos hereges é testemunho disso), ao longo da história ocidental as mesmas engrenagens autoritárias foram usadas em diferentes passagens. 

Desde o nascedouro da filosofia com o platonismo, passando pela já citada inquisição, mas também pelas monarquias absolutas e pelos regimes totalitários de esquerda e de direita, os modelos autoritários sempre foram forjados a partir da institucionalização de dogmas no seio das estruturas políticas em cada contexto.

Se o excesso e o abuso no exercício de poder é o elemento fundador de todos esses fenômenos políticos, a estratégia autoritária por excelência passa sempre pela imposição, por um líder, de uma ideia-força comunitária a uma determinada massa de pessoas, geralmente de medíocres, no sentido que Ingenieros no livro O homem medíocre confere ao termo. 

Outro elemento fundamental dos regimes autoritários é a ideologia da segurança nacional, sustentada pelo artifício do medo que deriva da criação de um inimigo – real ou imaginário – na consciência coletiva de um povo. Seja pelo medo da domesticação imperialista que justificou os regimes totalitários de esquerda, seja pelo medo de uma revolução comunista que justificou os regimes totalitários de direita; o medo é sempre o que faz a praga do autoritarismo político vingar. 

Como efeito, os regimes autoritários descambam invariavelmente para a eliminação da diferença e da alteridade. Na medida em que a verdade foi alçada à categoria de imperativo filosófico, religioso e político, o autoritarismo no ocidente sedimentou-se como o exercício psicopatológico social de eliminação do outro. 

Essa eliminação sempre pode ser mais ou menos sutil, mais ou menos violenta. Pode passar pelo não-reconhecimento e pelo alheamento social; pensemos aqui nos negros e o alheamento dos melhores postos de trabalho). Pode chegar ao seu paroxismo com morte. Seja do corpo psíquico, pensemos aqui nos efeitos da síndrome de burnout que esgota trabalhadores. Seja do corpo físico, pensemos aqui na necropolítica, tão bem conjecturada pelo filósofo Achille Mbembe). 

Outra consequência do autoritarismo político é a corrupção, na medida em que ele é uma postura de sujeitos que impõem interesses privados sobre interesses públicos. No Brasil essa estrutura autoritária encontra eco histórico no coronelismo, que combinou o sistema federalista com as oligarquias agrárias. O conhecido “voto de cabresto” é uma das expressões do autoritarismo político brasileiro em que essas duas forças estavam mancomunadas. “Se os senhores dependiam do governador para realizar os obras e benfeitorias que necessitavam, o governo dependia dos senhores para conquistar eleitorado”, anota Lilia Schwarcz[1]

2. Contornos psicológicos do autoritarismo

Subjetivamente, a experiência autoritária deve ser percebida a partir de dois polos que subsistem pela tensão que estabelecem entre si: o do sujeito autoritário e daqueles que estão à ele subordinados e subjugados.

O sujeito autoritário

Na psicanálise a noção de autoridade devém do exercício da função paterna, que marca o psiquismo do sujeito na medida da interdição que foi operada (ou não) pelo pai, que age para desfazer o incesto psíquico havido entre o filho e a mãe. Quanto mais ou menos, pior ou melhor for exercida tal função, tal será a consequência na relação que o sujeito terá com a autoridade, seja ocupando o lugar de exceção, seja ocupando um lugar na massa. 

Assim, consequências igualmente drásticas podem sobrevir de um sujeito cujo pai interdita autoritariamente o incesto, e outro cujo pai deixa de interditar ou falta no exercício da interdição do incesto. Dito de outro modo: a ausência completa de experiência com a função paterna ou uma autoridade exercida de modo “fraco”, será tão comprometedora quanto um autoritarismo paternal mordaz.

Voltolini[2] ilustra os efeitos da carência da autoridade paterna em duas vinhetas clínicas interessantes: 

Um pai defendia a ideia de não dar nome ao filho que acabava de nascer, já que queria discutir com ele, o verdadeiro interessado, assim que reunisse as condições mínimas necessárias. Afinal, tratava-se de uma decisão importante. “Esse exemplo extremo, raro em sua ocorrência, mas corriqueiro em sua premissa, a saber, a de condenar qualquer exercício de poder, serve para mostrar como podemos agir com violência quando não exercemos a autoridade que nos foi conferida.”

Em outro exemplo, Voltolini menciona que “um jovem de 22 anos foi levado por seus pais à analise porque, segundo eles, não se interessava por nada, não escolhia nenhuma carreira, tampouco desejava trabalhar.” Diz Voltolini: “Ouvi de seu pai: ‘não sei o que acontece, eu nunca lhe exigi nada, sempre deixei que ele escolhesse o que quisesse…’. O analista então pontua: ‘Pois bem, talvez seja esse nada que ele está te oferecendo.’”

Assim como os exemplos de Voltolini sugerem consequências mórbidas ante um exercício fraco de autoridade, é certo que uma autoridade contumaz tenderá a produzir um sujeito autoritário, afinal, o desejo inconsciente e inconfesso do subjugado é poder subjugar. 

O sujeito autoritário buscará impor aos demais, com maior ou menor grau de violência, seus desejos ou modos de ver o mundo. Isso porque, no sujeito autoritário, persiste a ideia de que determinada visão de mundo está pronta e acabada e que, portanto, as experiências e o discurso do outro não importam. Daí porque a dimensão da alteridade é, exatamente como ocorre na dimensão política, eliminada. Para Márcia Tiburi[3], o autoritarismo busca essencialmente apagar as perspectivas que não são idênticas à do sujeito autoritário.  “O outro (seja o povo, o próximo, a cultura ou a sociedade alheia) é literalmente apagado e desprezado pelo processo mental do autoritário. Como não existe outro ponto de vista, outro desejo ou outro modo de ver o mundo, o autoritário procede mentalmente como alguém paranoico, que detém todas as verdades antes de chegar a pesquisar o que as sustenta.”  Também como expressão da burrice, o autoritarismo instala-se no sujeito. Daí porque personalidades autoritárias geralmente não têm capacidade cognitiva e afetiva para conseguir entender o outro e aquilo que pertence ao seu circuito.”

Além dessas características, outras, tomadas de empréstimo de Adorno no livro em Estudos sobre a personalidade autoritária, podem ser  referendadas: aderência à ideias concebidas pelo senso comum ingênuo, submissão à pessoas ou instituições a que considera superiores a si mesmo, oposição à mentalidade artística e imaginativa, simplificação da realidade, maniqueísmo psicopatológico, preocupação excessiva com a virilidade e com a sexualidade, criação de fantasias de inimigos e, por fim, ignorância intelectual e cultural.

Massas subjugadas

Ao analisar os efeitos dos agrupamentos na Igreja e no Exército, Freud revelou a dinâmica infantil nesse tipo de massa, já que a libido sexual se orienta para satisfazer o desejo de ser amado pelo líder. O agrupamento ou a massa, diz Freud, é “uma quantidade de indivíduos que puseram um único objeto no lugar de seu ideal de Eu”. Como nas igrejas ou nos exércitos, a massa coletiva nos regimes totalitários também se estrutura a partir de um chefe supremo: na igreja, Cristo; no exército, o General; nos regimes políticos totalitários, o Ditador-salvador. Em todas essas massas coletivas os indivíduos estão ligados afetivamente ao líder, já que sempre querem ser amados por ele, pela força da auto-identificação. Para Freud, “o principal fenômeno da psicologia das massas é a ausência de liberdade do indivíduo na massa”.[4]

 Jung, por outro lado, denomina o líder de herói. Isso porque constata que a necessidade das massas de ser amada é resultado da estratégia de arrefecimento do medo, que está inculcado na estrutura psíquica do autoritarismo e que, depois, reflete-se no campo político. No seriado Game of Thrones, o personagem Theon Greyjoy é torturado tão cruelmente por seu carrasco que acaba convertendo-se em um amo, fazendo todas as vontades do seu algoz e resistindo, inclusive, ao resgate que tenta livrá-lo do martírio, tamanha a força do autoritarismo cruel experimentado por meio da subjugação e da tortura física. 

Cena da terceira temporada de Game of Thrones

Durante a segunda guerra, Jung escreve: “Todo mundo tem uma esperança com relação a um salvador, veja-se, por exemplo, na Itália ou na Alemanha o que está acontecendo. Lá temos o complexo de salvador como psicologia de massa. Este complexo é uma imagem arquetípica do inconsciente coletivo e muito frequentemente se torna ativado numa época tão cheia de problemas e desorientação como a nossa. Nesses acontecimentos coletivos podemos apenas ver, como que através de uma lente de aumento, o que pode acontecer dentro do indivíduo. Talvez seja estranho para nós que isto se expresse sob formas políticas. Mas o inconsciente coletivo é um fato muito irracional e nossa consciência racional não lhe pode dizer que aparência deverá tomar.”

Se a exigência de igualdade está posta para os integrantes da massa, essa mesma igualdade não é requerida pelo líder que a comanda, ou seja, apenas o líder pode ser excetuado. Daí porque Freud denominará o homem não como um animal de rebanho, mas como um “animal de horda: membro individual de uma horda conduzida por um chefe.” [5]

O machismo impera na psicologia das massas quando se trata de autoritarismo. Quando, indagado por Geneton Moraes Neto sobre o famoso vídeo em que agride um jornalista durante o regime militar, o general Newton Cruz, um dos mais temíveis da ditadura brasileira responde: “Aquilo não foi nada… Você tem que falar com voz de chefe, com voz de macho… Eu sempre fui centralizador”. 

Como câncer do patriarcalismo e do machismo, o autoritarismo é uma expressão patológica que também decorre da preponderância de aspectos masculinos na cultura, como a violência, a expansividade, a racionalidade e a cisão rígida entre corpo e mente, algo que, no limite, separa o sujeito autoritário de tudo aquilo que lhe parece diferente de si mesmo.

Conclusões

– A morte de Deus é a morte da autoridade do pai? O século XX produziu um abalo da autoridade tanto na esfera psíquica quanto na esfera política da qual decorre, segundo Lebrun, um mal novo mal-estar na civilização. Daí porque, uma tradução do atual momento político, de avanço de concepções autoritárias, pode ser explicada como a ressaca de um desamparo que clama pela volta da autoridade, ainda que violenta. O lema que pode justificar psicologicamente a volta de movimentos políticos extremados é: “é preferível a submissão a uma autoridade violenta do que a ausência de autoridade”. Isso porque a falta de autoridade induz à autonomização do sujeito, um caminho sempre mais pedregoso e trabalhoso do que o da submissão.

– Medo, servidão e ressentimento. Como produz medo, servidão e ressentimento, o autoritarismo é uma estratégia eficiente de controle das massas. Por isso Nietzsche, como alguém que fez uma crítica definitiva do autoritarismo, afirma que é “tão odioso guiar quanto seguir”. Isso explica porque o ser humano superior para Nietzsche, é alguém capaz de não idolatrar nem dogmas, nem líderes, nem heróis. 

– Se Deus está morto, está permitido tudo aquilo que os consensos permitemUm precedente psicanalítico que narra o nascimento do combate ao autoritarismo está no livro Totem e Tabu de Freud, que supôs que na origem da humanidade teria existido um bando liderado por um macho alfa que exercia o domínio sobre todas as mulheres do bando. “Consequentemente, matava, expulsava ou castrava os outros machos – entre eles inclusive seus filhos –, que o afrontassem na realização desmedida do seu domínio. Certo dia, estes se rebelaram contra a tirania do pai-chefe, estabeleceram uma aliança e o assassinaram, devorando seu cadáver em um ritual antropofágico em que celebraram o laço social recém-criado entre eles. Ergueram um totem para representar o pai assassinado, que passou a ser a proibição de que qualquer um deles viesse a pleitear a ocupação desse lugar de dominação sobre os demais. Estava, consequentemente, instaurada a lei que regulava as relações sociais e sexuais entre os membros do clã. A partir daí, a obediência à lei consolidou os laços sociais e inaugurou a coletividade propriamente humana, diferenciada dos animais, cujas relações são regidas exclusivamente pelos instintos.”[6]A partir desse mitologema de Freud, constata-se que o combate ao autoritarismo se dá inevitavelmente a partir do consenso. É, portanto, o consenso, o acordo e a negociação que estão na origem da civilidade humana. O consenso é o princípio democrático e, logo, antiautoritário.

–  Políticas públicas. Nesse quesito, os governos do PT, em que pese os episódios de corrupção demonstrarem as veias abertas do seu próprio autoritarismo político, foram admiráveis. A Comissão Nacional da Verdade, instaurada em 2011 para apurar as violações e violências praticadas por agentes do estado brasileiro no período da ditadura militar, foi o início daquilo que pode ser considerado um tratamento do trauma psicossocial do autoritarismo no Brasil. A Comissão, em 2016, também iniciou o projeto das Clínicas do Testemunho, que visava ir além dos pagamentos indenizatórios para ocupar-se e tratar dos traumas psíquicos pessoais de cada uma das vítimas da ditadura militar brasileira. 

Por fim, há de se dizer que a experiência com o autoritarismo ensina que quando a violência e o dogmatismo tomam o lugar da gentileza e do caos, que são suas formas desinflacionadas, ficamos ainda mais incapazes de cumprir a difícil tarefa de enfrentar o inferno que são os outros. 

PAULO FERRAREZE FILHO é professor de Psicologia Jurídica (UNIAVAN), doutor em Filosofia do Direito (UFSC) e psicanalista em formação (Laço Analítico).


[1] SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. 1a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 104.

[2] VOLTOLINI, Rinaldo. Autoridade, violência e sedução. In: Autoridade e violência / Comissão de Aperiódicos da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (org.) – Porto Alegre: APPOA, 2011, p. 262.

[3] TIBURI, Márcia. Como conversar com um fascista. 5a ed. Rio de Janeiro: Record, 2016, p. 26.

[4] FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas, análise do Eu e outros textos. (1920-1923). São Paulo: Cia das Letras, 2011, p. 46-49 e 83.  

[5] FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas, análise do Eu e outros textos. (1920-1923). São Paulo: Cia das Letras, 2011, p. 46-49 e 83.  

[6] Conforme PACHECO FILHO, Raul Albino. O sujeito e a lei: uma contribuição ao diálogo entre Psicanálise e Direito. Psicologia Revista. São Paulo, volume 23, n. 1, 2014, p. 115.  

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