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O dia em que a guerra parou

por José Ernani Almeida

Para muitos historiadores, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi um indício claro de que a civilização europeia estava em profunda confusão. Encarada sob a perspectiva ampla da história europeia, a guerra assinalou uma culminação de forças perigosas: a glorificação do poder, o fascínio pela violência, a celebração do não-racionalismo, a confiança diminuída na capacidade da razão de resolver os problemas criados pela Revolução Industrial, a insatisfação e a decepção gerais com a sociedade burguesa, o sistema de alianças e, acima de tudo, um nacionalismo explosivo.

Quando a guerra estava certa, ocorreu um fenômeno extraordinário. Multidões reuniram-se nas capitais e manifestaram sua lealdade à pátria e a sua disposição de lutar. Parecia que o povo desejava a violência por seu interesse próprio.

Era como se a guerra proporcionasse uma fuga da rotina monótona da sala de aula, do emprego e do lar, do vazio, da mediocridade e da falta de graça de uma sociedade burguesa; de “um mundo envelhecido, frio e exausto”, segundo Rupert Brooke, um jovem poeta inglês. Para alguns, a guerra era um momento belo e sagrado.

Em Paris, em Londres e em Berlim os homens marcharam pelas ruas entoando as palavras vibrantes dos respectivos hinos nacionais, enquanto as mulheres faziam chover flores sobre os jovens soldados, que agiam como se estivessem partindo para uma grande aventura.

Os jovens guerreiros desejavam fazer algo nobre e altruísta, conquistar a glória e experimentar a vida em seus momentos mais intensos.

Muitos intelectuais europeus estavam também cativados pelo clima marcial, ao ponto do proeminente historiador alemão Friedrich Meinecke dizer que agosto de 1914 foi “ um dos grandes momentos de minha vida que, de repente, encheu minha alma com a mais profunda confiança em nosso povo e a mais profunda alegria”.

Para outros , a guerra regeneraria espiritualmente uma sociedade européia enferma. Depuraria a Europa de suas impurezas espirituais e raciais. Serviria como prelúdio de renascimento; dela emergiria uma civilização mais elevada e um tipo superior de pessoa, dotado de um espírito nietzschiano.

Soldados que foram para a guerra cantando e os estadistas e generais que saudaram a guerra, ou não tentaram o bastante para evitá-la, contavam com um conflito curto, decisivo e galante. Praticamente ninguém intuía o que a Primeira Guerra Mundial viria a ser: quatro anos de derramamento de sangue assustador, bárbaro, sem decisão e sem sentido.

E foi em dezembro de 1914, mais exatamente na véspera do natal, que ocorreu um episódio inédito e marcante na história do conflito. Neve, presentes, pinheirinhos ocupavam as trincheiras de alemães, escoceses e franceses envolvidos no conflito e frente-a-frente.

Músicas tradicionais e natalinas começaram a ser entoadas nas trincheiras surpreendendo todos. Imediatamente, os comandantes e, depois, os subordinados, deixaram as trincheiras, cruzaram o espaço existente entre elas e passaram a festejar por algumas horas o natal. Fotos das famílias foram mostradas, brindes foram feitos, cantaram e disputaram uma animada pelada.

Até um gato que no lado alemão era conhecido como Feliz e no francês como Nestor participou da confraternização. Todos foram , posteriormente, duramente punidos pelos seus governos, mas demonstraram que a guerra era uma imensa estupidez.

Esta é a história que o diretor francês Christian Carion conta no filme Feliz Natal. Ele é baseado no livro “Battles of Flanders and Artois – 1914-1918”, de Yves Bufetaut, no qual os eventos narrados no filme são contados na passagem intitulada “ O incrível inverno de 1914”.

Embora em alguns momentos a película enverede por um humanismo primário e piegas, faz bem ao espírito assisti-la. Numa época de tanta violência, de tantos radicalismos, de gestos de “arminha”, precisamos urgentemente de um pouco de utopia.

JOSÉ ERNANI ALMEIDA é professor de história do Brasil e especialista em história pela UPF/RS

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