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250 likes e a sua personalidade estará desvendada

por Mauro Gaglietti

Sig, O Rato, vai tratar de um tema atual que, ao mesmo tempo, remete a algo imaginado pelo escritor George Orwell no livro 1984. Assim, acredita que a agenda política mais expressiva e relevante em termos internacionias seja àquela que se encontra relacionada ao desenvolvimento das chamadas “ditaduras digitais”, baseadas em tecnologias digitais de vigilância. Assistindo ao Roda Viva no Youtube, Sig, O Rato, se deparou com o pensamento de Yuval Noah Harari, professor de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, PhD pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, autor de “Sapiens, uma breve história da humanidade”, “Homo Deus: Uma breve história do amanhã” e “21 lições para o século 21”, que venderam mais de 20 milhões de exemplares em todo o mundo. A entrevista teve como tema central os perigos e mudanças sociais causadas pelo avanço da tecnologia (vale separar uma hora e assistir para desejar ainda mais ler as suas obras). O historiador ressaltou a importância de regulamentar adequadamente os novos dispositivos tecnológicos para evitar a disseminação de desinformação, mas apontou quem, na sua opinião, é o agente central dessa ação: os governos. “As empresas deveriam agir com responsabilidade, claro. Mas, no fim das contas, a responsabilidade é do governo e do público, que elegeu o governo”, disse. Ainda, as futuras transformações no mercado de trabalho, consequência das novas tecnologia, foram destacadas pelo historiador. “As pessoas precisarão continuar aprendendo pelo resto da vida”, assinalou. “Haverá novos empregos, novas profissões e novas funções. O grande problema será o retreinamento para as pessoas que ficarão sem exercer as atuais funções”. Para ele, essa questão afetará fortemente os países mais pobres. “Os países ricos terão recursos para retreinar sua mão-de-obra, mas esses recursos podem faltar nos países pobres”. A ascensão do nacionalismo e a justificativa de preconceitos sociais por meio da religião também foram temas na entrevista de Yuval Noah Harari ao Roda Viva. “Nacionalismo não é sobre odiar estrangeiros”, apontou o professor que assegurou que “nacionalismo e globalismo são complementares”. “Deveríamos agir contra a disseminação da intolerância, dos discursos de ódio e da perseguição nas redes sociais”. Yuval Noah Harari condenou os preconceitos sociais ainda entranhados na sociedade e falou sobre a relação deles com a religião. “Em muitos casos ao longo da história, vimos que as pessoas usaram Deus e a religião para justificar suas piores tendências”.

Sig, O Rato, notou nessa entrevista que o o fluxo de dados entre cidadãos e governantes pode nos levar a uma “ditadura da informação”. Quando Martin Hilbert (Alemão de 41 anos, doutor em Comunicação, Economia e Ciências Sociais e Professor na Universidade da Califórnia [EUA]) calcula o volume de informação que há no mundo, causa espanto. Quando explica as mudanças no conceito de privacidade, abala. E quando reflete sobre o impacto disso tudo sobre os regimes democráticos, preocupa. “Isso vai muito mal”, adverte Hilbert, que investiga a disponibilidade de informação no mundo contemporâneo. Vivemos em um mundo no qual políticos podem usar a tecnología para mudar mentes, operadoras de telefonia celular podem prever nossa localização e algoritmos das redes sociais conseguem decifrar nossa personalidade melhor do que nossos familiares. Os provedores de internet buscam permissão para coletar dados privados dos clientes há muito tempo – incluindo o histórico de navegação na web – e compartilhar com terceiros, como anunciantes e empresas de marketing. Um provedor de internet pode ver suas buscas na internet – se, por exemplo, você assiste Netflix, a inteligência artificial já sugere os filmes de sua preferência. Essa informação é valiosa, porque poderiam orientar sua publicidade a residências que usam seus serviços. Enquanto isso parece ser um ato grave, liberado pelo governo dos EUA, há que reconhecer que nos últimos 30 anos os órgãos reguladores das telecomunicações nos EUA se afastaram de uma de suas metas originais: o benefício da sociedade. E se moveram no sentido de favorecer as empresas. Mas há uma diferença: para o Facebook, seu negócio são os dados que têm, trata-se de uma empresa de dados. A questão é se classificamos ou não os provedores de internet como provedores de dados? Muitos provedores de telecomunicações inclusive estão começando a vender dados. Por exemplo: uma operadora de telefonia celular sabe onde você está em cada segundo. Então também podem vender essa informação? É preciso redefinir esses diferentes âmbitos. O órgão regulador precisa estar preparado e encontrar um equilíbrio em cada país. A pergunta certa é que privacidade as pessoas querem? E a verdade é que as pessoas não estão tão preocupadas. O que ocorreu depois de todas as revelações de Edward Snowden? Nada. Disseram: “Não é bom que vejam minhas fotos íntimas”. E no dia seguinte continuaram. Ninguém foi protestar. No passado, a referência de maior coleção de informação era a biblioteca do Congresso americano. E hoje em dia a informação disponível no mundo chegou a tal nível que equivale à coleção dessa biblioteca por cada 15 pessoas. Há um conjunto de informações espalhadas e fragmentadas, e ela cresce rapidamente: se duplica a cada dois anos e meio. A última fez que o doutor Martin Hilbert  fez essa estimativa foi em 2014. Agora deve haver uma biblioteca do Congresso dos EUA por cada sete pessoas. E em cinco anos haverá uma por cada indivíduo. Ocorre que há uma nova avaliação sobre como interpretar a privacidade.E as gerações jovens têm um conceito totalmente diferente do que é privacidade. Se colocássemos toda essa informação em formato de livros e os empilhássemos, teríamos 4,5 mil pilhas de livros que chegariam até o Sol. Novamente, isso era há quatro anos e meio. Agora seriam 8 ou 9 mil pilhas chegando ao Sol. E a informação que você produz cresce basicamente no mesmo ritmo: estima-se que haja 5 mil pontos de dados disponíveis para análise por morador dos EUA. São coisas que deixamos no Facebook, por exemplo. O volume de dados que deixamos de verdade é difícil de estimar, porque é quase um contínuo: você tem o celular consigo a cada segundo e deixa uma pegada digital. Então cada segundo está registrado por diversas empresas. Sua operadora de celular sabe onde você está graças a seu celular. O Google também sabe, porque você tem Google Maps e Gmail no seu telefone. E cada transação que faz com seu cartão de crédito é um ponto de dados, cada curtida no Facebook ocorre o mesmo. Inclusive pode haver registros de como você movimenta o mouse ao usar a internet. Sig, O Rato, exemplifica: Seu telefone mostra a você quantas chamadas fez. A operadora deve coletar essas informações para processar sua conta. Eles não se preocupam com quem e o que falou. É apenas a frequência e duração de suas chamadas, algo conhecido como metadados. Com isso é possível fazer uma engenharia reversa e reconstruir um censo completo de um país com cerca de 80% de precisão: gênero, famílias, renda, educação (imagine você um governo que pode utilizar a inteligência artificial para mapear seus opositores, a população LGBT?). Se tenho informação mais detalhada – por exemplo, se a operadora registra seus deslocamentos por meio das conexões às antenas. É possível prever com até 95% de precisão onde você estará em dois meses, e em que hora do dia. Você tem o celular consigo a cada segundo e deixa uma pegada digital; cada segundo está registrado por diversas empresas. Passemos ao Facebook, que tem um pouco mais de informação. Há, por exemplo, as “curtidas”, o que você gosta e quando. Pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, fizeram testes de personalidade com pessoas que franquearam acesso às suas páginas pessoais no Facebook, e estimaram, com ajuda de um algoritmo de computador, com quantas curtidas é possível detectar sua personalidade. Com cem curtidas poderiam prever sua personalidade com acuidade e até outras coisas: sua orientação sexual, origem étnica, opinião religiosa e política, nível de inteligência, se usa substâncias que causam vício ou se tem pais separados. E os pesquisadores detectaram que com 150 curtidas o algoritmo podia prever sua personalidade melhor do que sua namorada, marido, esposa, filho, irmão. Com 250 curtidas, o algoritmo tem elementos para conhecer sua personalidade melhor do que você. Para uma empresa de marketing ou um político em busca de votos, é algo muito interessante. Com o chamado big data (análise de grandes volumes de dados oriundos do uso de internet) também elevamos muito o poder de previsão das Ciências Sociais. Desenvolver um algoritmo de inteligência artificial pode custar milhões de dólares. Mas uma vez criado pode ser aplicado a todos. Então é algo que está sendo empregado rapidamente em outros países. A operadora de celular Telefônica, bastante ativa na América Latina, trabalhou muito em previsão de localização. E até já começou a vender esse tipo de informação. Então caso você queira abrir uma empresa em alguma capital da América Latina para vender gravatas, você paga e te dizem em que hora e onde os homens caminham. E você fica sabendo em qual saída do metrô deve instalar sua loja. Salienta-se, desse modo, que uma tecnologia é apenas uma ferramenta. Por um lado, pode-se usar a energia nuclear para coisas boas no campo da medicina, como o uso de técnicas seguras e indolores para compor imagens do corpo e tratar patologias. Como terapêutica, a radiação é utilizada com o objetivo de curar patologias, como, por exemplo, algumas formas de neoplasias. Apesar de o feixe radioativo incidir exatamente sobre o tumor, vários efeitos colaterais acompanham este tipo de tratamento. Por outro lado, a energia nuclear pode ser utilizada também para matar milhares de pessoas por meio da bomba atômica. Denota-se que nenhuma tecnologia é tecnologicamente determinada, sempre é socialmente construída. Deixando de lado – um pouco – o comércio e a economia – nossa preocupação maior é que não estamos preparados para esta transparência brutal entre cidadão e representante. No caso, é a democracia representativa que está há tempos sofrendo revezes. Porque a democracia representativa, tal qual o modelo americano, é um processo de filtrar informação. Há 260 anos era impossível consultar todas as pessoas e as pessoas tampouco estavam informadas. Então os “pais fundadores” da nação americana inventaram um filtro de informação que chamaram de representação: ter representantes que em seu nome deliberam e definem o que serve à sociedade. Esse mecanismo já foi rompido completamente. De que forma? Os representantes hoje podem ter acesso a tudo o que os cidadãos fazem. E os cidadãos podem ditar a vida dos representantes, com tuítes e outros recursos. A democracia representativa não está preparada para isso. É o que vemos agora, com a eleição mais recente nos EUA e como o presidente usa as mídias sociais. No Brasil, algo muito parecido ocorre por meio de novas formas de comunicação entre o presidente e a população. Pelo visto, será preciso refletir muito acerca da urgência de pautar a necessidade da reinvenção da democracia representativa. Caso contrário, ela pode facilmente se converter em ditadura da informação. Sig, O Rato, tentará dormir com um barulho desses na medida que não sai de sua mente que a ditadura da informação presente na sociedade da informação descrita por George Orwell em seu livro 1984 é do ano de 1948.

MAURO GAGLIETTI é professor universitário, mediador de conflitos e doutor em história pela PUC/RS

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