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Hipocrisias do Natal

por Liliane Pimentel

Bem-vindos ao Natal. Época de canções, trocas de presentes, belas decorações, festejos, celebrações, missa do galo. A expectativa da chegada do papai-noel é mágica para quem tem crianças. Também para nós adultos, é como se voltássemos a ser um pouco crianças novamente. Esse período natalino é quase uma viagem dentro da criança que um dia cada um foi e que continua viva no corpo adulto. Há sempre uma nostalgia da infância.

Entretanto, há que se considerar que não será Natal para todos. Aquela canção natalina que diz “…seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem”, é uma linda utopia para que a classe média e os mais favorecidos possam cantar para suas crianças dizendo-lhes que todas as casas, na noite de Natal, vão receber a visita do bom velhinho, que chegará com seu saco cheio de belos presentes. Será? Parece que isso não faz jus à realidade dos cerca de 55 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha de pobreza (Jornal da USP, 2019).

Para muitas pessoas, o bom velhinho não virá. Muitas pessoas estarão sozinhas no Natal, tantas outras não terão o que comer. Outras ainda estarão abandonadas a própria sorte, totalmente alheias a data e, muitas crianças, mal terão amor e carinho, quiçá um presente, uma ceia decente. Mais longe ainda dessa realidade, a utopia da visita inocente do bom velhinho. Freud, em O Mal-estar na Civilização (1930), já nos advertira que nossas possibilidades de felicidade são parciais e que, o encontro com o outro é, em parte, responsável pela parcela de desprazer que vivenciamos.

Então, reformulando a frase inicial do texto. Bem-vindos ao Natal, a época com grande apelo comercial econômico! A época em que as pessoas, familiares, parentes, arranjados e agregados se reúnem, sorriem para fotos, posam juntos, ceiam, confraternizam e remoem os desarranjos familiares alheios ao que se passa no coração de cada um, pois sorrisos bonitos são sempre ótimos para camuflar a angústia. As selfies com bela roupas e maquiagens bem feitas; as imagens românticas que sustentam valores familiares corrompidos, todas essas coisas serão repassadas em grupos de conversa, cada qual a mostrar mais como sua noite feliz fez jus ao que se espera.

Se as festas e encontros de fim de ano podem ser muito prazerosas, podem também ser extremamente desgastantes, gerando dores de cabeça e ressacas que não são reflexo apenas do excesso de bebida e de comilança, mas também da interação social com outros. O encontro com aquele familiar ou com aquela pessoa com quem a relação é apenas social, por obrigação, com risos e assuntos supérfluos para garantir a boa imagem de sujeito sociável, pode render uma indigestão maior que aquela causada pela maionese contaminada por salmonela ou pela bebida quente. 

Lembremos que não comemos apenas a comida. Silvia Bleichmar diz que colocar em discussão apenas a função alimentar é desconsiderar a causalidade psíquica que determina os transtornos de alimentação. Desse modo, para além de ingerir o alimento, digere-se, antes, as relações que estão por traz das festas de confraternizações com mesas bem-postas e finamente decoradas. Come-se também a frustração, o desprazer de estar num ambiente por pressão social. Engole-se a obrigatoriedade de cumprir com o que manda o figurino.

Afinal, quem nunca ouviu aquelas frases “família de sangue é família”, “tem que estar com a família”. Precisamos considerar que a família de sangue é um meio de chegada no mundo, não o destino final. Todavia, há que se considerar também o quanto relacionamentos familiares podem ser difíceis, exigindo um repertório emocional que pode levar o sujeito ao esgotamento. Pois, qual seria o preço de estar num ambiente pisando em ovos, mensurando até mesmo as vírgulas da conversa, apenas para corresponder o que é esperado? Um início de ano desses, ouvi uma pessoa comentar que as férias haviam sido muito cansativas e que precisava descansar (das férias), essa mesma pessoa completou com um “sabe como é né, família reunida”.

Embora o Natal cristão tenha esse grande apelo conservador com relação aos laços sanguíneos, há que se considerar a possiblidade de interpretar as escrituras cristãs de outro ângulo, a considerar a possiblidade de incluir no conceito de família aquilo que for de bom grado ao leitor. A tomar como exemplo, o nascimento do menino Jesus – ele teria sido concebido por Maria através do espirito de Deus, mas teria sido adotado no coração de José, seu pai, quem o criou, educou e amou. Por esse ângulo, seria possível tomar as escrituras como indicativos de que levar o que é pregado ao pé da letra, ipsis litteris, é um tanto ultrapassado. Filosofias engessadas, com apelo emocional que enrijecem ou fomentam a vergonha nos sujeitos são o alicerce instaurador de grande angustia, visto que parecem oferecer como única saída, um caminho estreito, delimitado pelo certo ou errado e, estão a açoitar e crucificar aqueles que ousam sair da reta.

Para conviver em sociedade e, em família, é necessário tolerar as fontes de desprazer, é importante aprender a conviver com aquilo que nos afronta, amedronta, mas também é igualmente necessário saber diferenciar onde e com quem pode-se estar.

Então, bem-vindo ao Natal que for contribuir para sua saúde mental. Bem-vindo ao Natal junto aqueles que te olham nos olhos, ouvem com genuíno interesse tuas falas, leem tuas entrelinhas e sim, é possível ter um Natal na família do coração, com amigos queridos, com aquelas pessoas que se fizeram teu lar. A obrigatoriedade de seguir com o que manda o manual não precisa ser tomada ao pé da letra. Quanto a visita do papai-noel, bom, que o espirito natalino te visite e lembre que embora essa data esteja envolta em fantasia, a realidade estará a bater em muitas portas lembrando da impossibilidade da magia natalina adentrar em muitos lares, e não por uma questão de opção ou meritocracia. No mais, comemore, junte-se aos teus, brinde, descanse, relaxe, aproveite e tenha um (possível) feliz Natal.

LILIANE PIMENTEL é psicóloga clínica, psicanalista em formação e especializanda em psicanálise (UNIFEBE/HSC)

REFERÊNCIAS

BLEICHMAR, Silvia. O que resta de nossas teorias sexuais infantis? Revista percurso UOL, 2015.  Disponível em: <<http://revistapercurso.uol.com.br/index.php?apg=artigo_view&ida=1167&ori=edicao&id_edicao=54>>. Acesso em: 20 de novembro de 2019.

FREUD, Sigmund. Obras completas volume 18. O mal-estar na civilização, Novas conferencias Introdutórias à Psicanálise e outros textos (1930-1936). Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

NEVES, Vitor. Brasil tem 55 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza. Jornal da USP, 2019. Disponível em: <<https://jornal.usp.br/atualidades/brasil-tem-55-milhoes-de-pessoas-abaixo-da-linha-da-pobreza/>>. Acesso em 20 de novembro de 2019.

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